"Vai tirar-me da rua": sem casa e a viver dos doces que vende, mudou tudo com um telefone
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Rafaela Simões
- 22 jul, 11:59
A história desta jovem brasileira de 24 anos podia ser a de qualquer outro jovem. A vida não lhe sorriu desde pequena, mas Vanusa venceu os desafios e está prestes a realizar o seu sonho.
Conhece a história da jovem brasileira Vanusa Gonçalves dos Santos
A história do pianista e maestro João Carlos Martins
Entrar no mercado de trabalho é, para muitos jovens adultos, um desafio marcado por empregos precários, baixos salários e poucas oportunidades de progressão. Nos primeiros anos da vida profissional, é comum conciliarem várias ocupações para assim conseguirem pagar despesas básicas e, entre as várias histórias que por ai andam, encontrámos a de Vanusa Gonçalves dos Santos.
Esta jovem brasileira, de 24 anos, transformou um telemóvel no seu principal instrumento de aprendizagem e fez da estação rodoviária de Ponta Grossa, no estado do Paraná, uma sala de estudo improvisada. Sem casa, sem computador e sem livros, conseguiu alcançar o primeiro lugar no curso de Letras da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), dando um passo decisivo para concretizar o sonho de ser professora.
E, se o início da vida adulta não está a ser fácil, a infância de Vanusa também não foi. Apenas aos 11 anos perdeu a mãe, vítima de um acidente de mota, numa altura em que os pais já estavam separados. Anos mais tarde, em 2018, voltou a enfrentar uma tragédia: o pai, proprietário de um bar em Ponta Grossa, foi diagnosticado com um cancro em estado avançado e morreu pouco tempo depois.
Sem o apoio dos pais e com uma relação difícil com outros familiares, Vanusa acabou por viver em situação de sem-abrigo na cidade de Londrina. Durante o dia, fazia pequenos trabalhos para sobreviver, distribuindo panfletos e, mais tarde, vendendo paçocas (um doce tradicional brasileiro à base de amendoim).
Em 2022 regressou a Ponta Grossa, onde permaneceu alguns meses num abrigo de funcionamento permanente. Posteriormente foi encaminhada para outro espaço que apenas abria ao final da tarde, obrigando-a a passar os dias na rua.
Sem um local fixo onde pudesse estudar, Vanusa encontrou na estação rodoviária de Ponta Grossa um espaço onde tinha acesso gratuito à internet. O telemóvel tornou-se o seu único recurso para procurar conteúdos educativos, assistir a explicações e resolver exames de anos anteriores. E seguia uma rotina exigente.
"Saía do abrigo para vender paçocas na rua. Quando acabava, ia logo para a rodoviária. Procurava um cantinho e começava a estudar. Não tinha livros, mas foi a tecnologia que me fez aprender o que foi necessário até hoje", recordou Vanusa.
O objetivo inicial era preparar-se para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), uma das principais portas de entrada no ensino superior brasileiro.
Apesar das dificuldades, Vanusa sempre revelou um elevado desempenho escolar desde o ensino secundário, o que lhe abriu as portas da universidade. O processo de candidatura valorizava as classificações obtidas durante o ensino secundário e Vanusa conseguiu a melhor classificação entre todos os candidatos ao curso de Letras da Universidade Estadual de Ponta Grossa.
Para a jovem, o resultado teve um significado muito maior do que uma simples entrada na universidade.
"Foi uma emoção muito grande. Escolhi Letras por causa do meu sonho de ser professora. Português era a disciplina de que mais gostava. Este resultado prova que estou no caminho certo. A educação vai tirar-me da rua."
Além da vaga em Letras na universidade pública, Vanusa recebeu uma bolsa de estudos para frequentar uma licenciatura em Pedagogia, em regime de ensino à distância, numa instituição privada.
Os planos não ficam por aqui. Depois de concluir a formação na área da educação, pretende ainda estudar Direito, ampliando as suas possibilidades profissionais.
A história de Vanusa evidencia como ferramentas hoje consideradas banais – um telemóvel com acesso à internet e uma ligação Wi-Fi – podem representar muito mais do que simples meios de comunicação. No seu caso, foram a ponte entre uma vida marcada pela exclusão social e a possibilidade de construir uma carreira académica. Hoje, inspira milhares de pessoas através do Instagram, plataforma na qual soma mais de 51 mil seguidores.
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