Quando temos um carro, uma casa, um emprego e família e amigos que gostam de nós à nossa volta, não pensamos muito sobre cada uma dessas conquistas. São como dados adquiridos. Mas é quando aparecem histórias como a de Valter que nos damos conta da sorte que temos.
Valter Fonseca dos Santos viveu durante 16 anos entre empregos precários e as ruas de Patos de Minas, no Brasil. Mas há 11 anos tudo mudou quando passou das ruas do Brasil para um emprego no serviço público, depois de conquistar o primeiro lugar num concurso para coveiro.
Quando tinha 41 anos concorreu a uma de três vagas disponíveis para assumir o cargo na Prefeitura de Patos de Minas e, entre 21 candidatos, terminou no topo da classificação, como contou na altura ao jornal brasileiro G1.
Mas antes dessa conquista, a vida não sorriu a este homem.
Valter nasceu numa favela de Ilhéus, no estado da Bahia, onde, segundo contou, as brigas e os crimes faziam parte do quotidiano. Apesar do ambiente em que cresceu, diz nunca ter desejado aquela realidade para si. Uma desilusão amorosa acabou por ser o impulso para deixar a cidade natal e tentar a sorte em Minas Gerais.
Chegou à cidade de Patos de Minas com a expectativa de encontrar trabalho e começar uma nova vida, contudo, a realidade revelou-se muito mais difícil do que imaginava.
Durante algum tempo, conseguiu trabalhar numa plantação de tomates, o suficiente para garantir a subsistência. Mas, quando terminou a colheita, ficou sem emprego e acabou nas ruas.
Sem uma morada fixa, encontrou dificuldades adicionais para conseguir um emprego estável, restando-lhe trabalhos ocasionais que lhe permitiam ganhar algum dinheiro para comer.
E à precariedade juntou-se o preconceito. Valter contou ao G1 que foi discriminado não apenas por viver na rua, mas também pela sua cor. Relatou abordagens policiais, perseguições e agressões por parte de populares. Num dos episódios mais duros, até o colchão que utilizava para dormir foi queimado.
A rua como sala de estudo
A grande oportunidade na vida de Valter surgiu através do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas), no qual foi acompanhado depois de ser identificado durante uma das ações de rua da instituição.
Foi aí que conheceu Maria Augusta de Lacerda Ferreira, diretora de proteção social especial, que, além de o encaminhar para um albergue e o ajudar a reformular o currículo, procurou várias vezes encontrar-lhe um emprego. Sem sucesso.
Quando surgiu o edital para o concurso público da Prefeitura de Patos de Minas, foi ela quem o incentivou a candidatar-se. Valter, porém, não estava convencido de que conseguiria.
"Pensava que não seria capaz, mas com o apoio que recebi resolvi tentar", contou.
A partir desse momento, os livros passaram a ocupar um lugar ainda maior na sua rotina. Maria Augusta conseguiu materiais de estudo e exercícios para o preparar para a prova. Valter estudava onde podia e, pelo menos quatro vezes por dia, voltava aos conteúdos.
A exigência da assistente social era clara: se aceitasse a ajuda, deveria tentar chegar ao primeiro lugar. E foi exatamente isso que aconteceu.
26 respostas certas em 30
O resultado definitivo da prova objetiva colocou Valter no topo da classificação. Em 30 pontos possíveis, conseguiu 26.
O próprio candidato admitiu ter ficado surpreendido. Pensava que os restantes concorrentes estariam mais preparados e não esperava terminar à frente de todos.
A prestação foi particularmente forte em raciocínio lógico, disciplina em que conseguiu a pontuação máxima. Errou apenas duas questões de português e duas de conhecimentos gerais, segundo Maria Augusta.
"Senti uma alegria enorme por esta conquista. Foi como ver o resultado positivo de um dos meus filhos", afirmou.
O primeiro salário já tem destino
A nova etapa da vida de Valter ainda dependia da convocação para assumir oficialmente o cargo de coveiro. A remuneração prevista era de 805,18 reais (pouco mais de €100), além de benefícios como vale-alimentação, vale-transporte e plano de saúde.
Mas Valter já sabia o que faria com o primeiro salário: alugar uma casa.
Depois de 16 anos a viver sem uma morada própria, ter um lugar para onde regressar representava muito mais do que uma despesa mensal: era o início de uma vida que durante muito tempo pareceu distante.
E os planos não ficam por aqui.
"Quero ainda construir uma família e ser feliz, pois acredito que eu mereço", disse.
Hoje Valter tem 52 e o que nunca pensou alcançar: uma oportunidade para trabalhar, uma casa e uma vida mais confortável.
Esta é uma história inspiradora, mas há muitas mais. Por exemplo, a de Chris Gardner, que durante anos foi sem-abrigo e tornou-se milionário depois de começar a construir uma carreira em Wall Street. Vê na galeria este homem que também inspira com a sua história.
