Pastor percorre 600 km com 1.500 ovelhas para manter viva a tradição que em Portugal está a desaparecer
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Rafaela Simões
- 25 mai, 12:25
Mesmo num tempo em que a transumância já quase não parece caber no mundo moderno, um grupo de pastores mantém viva a tradição. E percorrem um dos percursos mais longos.
Por onde passa a mais longa rota de transumância em Espanha
Será esta a aldeia mais isolada de Portugal?
Há profissões que sobreviveram durante séculos associadas a tradições que estão a desaparecer. A transumância (deslocação sazonal de rebanhos de ovelhas ou cabras entre diferentes zonas de pasto) é um desses exemplos.
Em Portugal, a tradição da transumância está em decadência porque muitos percursos tradicionais (“canadas”) desapareceram ou perderam uso – mantendo-se apenas nas regiões de montanha, como a Serra da Estrela ou a Serra do Montemuro, através de eventos como a Festa da Transumância e dos Pastores, em Seia; a Última Rota da Transumânciae, Castro Daire; e a Grande Rota da Transumância, que cruza vários concelhos –, mas em Espanha a tradição é mantida por pastores como o sevilhano Juan Daniel Díaz.
A história de Juan Daniel Díaz
Todos os anos Juan Daniel Díaz participa numa longa viagem a pé de mais de 600 quilómetros, conduzindo um rebanho com cerca de 1.500 ovelhas ao lado de outros seis pastores e nove cães mastins que mantêm vivo este património humano e natural com milhares de anos.
A travessia, considerada a mais longa rota de transumância em Espanha, presta homenagem a Paco Morgado, proprietário do rebanho e um dos participantes da viagem, que este ano se despede da atividade após 51 anos dedicados à vida transumante. Descrito pelos companheiros como “o transumante mais antigo de Espanha”, segundo a ABC Sevilla, Paco Morgado é visto como uma referência viva deste conhecimento tradicional, acumulado ao longo de décadas passadas nos caminhos pecuários do país.
O grupo atravessa as províncias de Cáceres, Toledo, Ávila, Valladolid e Leão, sempre utilizando vias pecuárias públicas, antigas rotas destinadas ao gado, como canhadas reais, veredas e cordéis.
“Cruzar meia Espanha ao passo do gado é espectacular”, descreve o pastor Juan Daniel Díaz, encantado com as paisagens que encontra pelo caminho: montados, campos agrícolas, zonas de pastagem e florestas que mudam de cenário a cada dia. A viagem deste ano começou a 11 de maio e não há uma data exata para a chegada. Afinal, quem dita o ritmo são as ovelhas.
As jornadas começam pelas sete da manhã, depois de noites passadas ao relento ou em tendas de campismo, e um veículo de apoio acompanha o grupo, transportando mantimentos, roupa e equipamento. Uma hora depois, inicia-se o movimento do rebanho, protegido durante a noite por um redil portátil.
Ao meio-dia, fazem uma pausa para comer e deixar o rebanho descansar e ruminar. Ao final do dia, chegam os gestos simples da vida quotidiana: tomar banho em ribeiros ou polidesportivos municipais e montar novamente o acampamento.
Ao longo do percurso, os pastores enfrentam obstáculos constantes: atravessar ribeiros, cruzar estradas ou lidar com mudanças repentinas do tempo. Logo na primeira noite, uma tempestade intensa caiu sobre o grupo. Ainda assim, todos continuam.
A recepção nas aldeias por onde passam tem sido calorosa. Habitantes locais ajudam frequentemente com água, comida ou apoio logístico, conscientes de que estão perante uma tradição rara, cada vez menos comum na Europa contemporânea.
Embora a transumância tenha um enorme valor cultural e ambiental, Juan Daniel admite que atualmente “não é economicamente viável”. Manter sete pastores durante mais de 40 dias consecutivos, sujeitos às exigências físicas da caminhada e às condições meteorológicas, seria financeiramente difícil sem o forte espírito de missão e voluntariado que une o grupo.
Ainda assim, os participantes acreditam que esta prática deve continuar. Para eles, a transumância representa uma ligação ancestral entre os seres humanos, os animais e o território. Uma forma de vida que imita as antigas migrações dos grandes rebanhos selvagens e que acompanhou a humanidade durante milhares de anos.
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