Num momento em que a discussão sobre igualdade de género atravessa praticamente todas as esferas da sociedade, a Igreja – tradicionalmente uma das instituições mais conservadoras – começa também a dar sinais de mudança. E eis que surge uma figura que acaba de marcar um novo capítulo: Sarah Mullally.
Aos 63 anos, esta mulher fez história ao tornar-se a primeira mulher a assumir o cargo de Arcebispa de Canterbury, líder espiritual de cerca de 85 milhões de anglicanos em todo o mundo. A sua entronização, realizada a 25 de março de 2026 na Catedral de Canterbury, em Inglaterra, foi realizada perante cerca de duas mil pessoas, incluindo o príncipe William e a sua mulher, Kate Middleton.
Sarah Mullally cumpriu um ritual ancestral, batendo três vezes à porta oeste da catedral, pedindo entrada. Questionada por crianças locais sobre o motivo da sua missão, respondeu com simplicidade e firmeza: "Sou enviada como arcebispa para vos servir, para proclamar o amor de Cristo e, convosco, adorá-lo e amá-lo com todo o coração e alma, mente e força," respondeu ela.
O momento culminou com a sua tomada de assento em dois tronos distintos, representando a dupla responsabilidade do cargo, como bispa da diocese de Canterbury e como líder espiritual da Comunhão Anglicana global.
Da enfermagem ao topo da Igreja
O percurso de Sarah Mullally está longe de ser convencional no universo religioso. Durante mais de três décadas, trabalhou no Serviço Nacional de Saúde britânico, o National Health Service, onde chegou a ocupar o cargo de diretora de enfermagem para Inglaterra em 1999. Antes disso, foi ainda parteira.
A sua entrada no clero aconteceu apenas em 2002, quando foi ordenada sacerdotisa. Em 2018, tornou-se a primeira mulher a ocupar o cargo de bispa de Londres, apenas quatro anos depois de a Igreja de Inglaterra permitir oficialmente mulheres no episcopado, após décadas de debate interno.
Uma liderança sob escrutínio
A nomeação de Sarah Mullally surge num momento particularmente delicado para a Igreja de Inglaterra. O seu antecessor, Justin Welby, demitiu-se em 2024 na sequência de um escândalo relacionado com o encobrimento de abusos ocorridos nas décadas anteriores e, consciente desse contexto, Sarah Mullally já assumiu como prioridade tornar a Igreja “mais segura” e mais atenta às vítimas.
A chegada de Sarah Mullally ao topo da hierarquia anglicana não resolve, por si só, as tensões internas da Igreja, mas representa um avanço significativo, não apenas para as mulheres dentro da instituição, mas também para a sua imagem num mundo cada vez mais atento à igualdade e à representatividade.
Num cargo que existe desde o século VI, a sua nomeação como a 106.ª Arcebispa de Canterbury simboliza algo mais do que uma mudança de liderança: é um sinal de que até as instituições mais antigas podem, ainda que lentamente, reinventar-se.
Mostramos na galeria de imagens o momento marcante da entronização de Sarah Mullally.
