Infertilidade é um problema global que afeta, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), aproximadamente 1 em cada 6 pessoas. As causas são multifatoriais e complexas, muitas delas já bem conhecidas como o adiar da parentalidade, os estilos de vida englobando a fraca nutrição e a exposição ambiental.
O recurso à Procriação Medicamente Assistida (PMA) tende a ser cada vez mais frequente e o nosso papel como profissionais de saúde deve ser baseado nas melhores evidências científicas disponíveis, integradas à experiência clínica e aos valores dos doentes.
É também fundamental que a sociedade tenha um papel cada vez mais ativo. Um bom exemplo é o movimento + Fertilidade liderado pela Sociedade Portuguesa de Medicina e Reprodução (SPMR), Ordem dos Médicos e a Associação Portuguesa de Fertilidade (APFertilidade), que tem como objetivo atenuar a problemática da fertilidade e constituir uma frente comum em prol de uma sociedade mais inclusiva e menos discriminatória.
A missão deste movimento é mobilizar a sociedade para a urgência de políticas e práticas que valorizem a saúde reprodutiva e a natalidade em Portugal, através da criação de um ecossistema empresarial de apoio à fertilidade e parentalidade.
Causas da infertilidade
O adiar da parentalidade tem implicações negativas para a fertilidade mais evidente na mulher, mas também há um impacto na fertilidade masculina. Tem havido uma preocupação em alertar a população para as consequências da idade na fertilidade e na gravidez futura, incentivar a que a gravidez ocorra em idades mais jovens e disponibilizar técnicas como a criopreservação de ovócitos que embora não sejam um garante de gravidez futura podem aumentar as possibilidades daquela mulher vir a engravidar com os seus próprios ovócitos. No Centro de PMA do Hospital Lusíadas temos tido uma procura cada vez maior deste tipo de técnica de PMA.
Campanhas informativas sobre estilos de vida saudáveis são extremamente importantes e têm sido realizadas com foco numa dieta equilibrada, na manutenção de um peso saudável, na prática de exercício físico regular (sem excessos). É fundamental deixar de fumar, reduzir a cafeína e evitar o álcool e drogas ilegais. É importante alertar para o uso de alguns medicamentos e suplementos nocivos para a fertilidade como por exemplo o impacto negativo do uso da testosterona na fertilidade masculina. Evitar fatores ambientais, como exposição a poluentes e desreguladores endócrinos. O uso do preservativo para evitar futuras infeções sexualmente transmissíveis é fundamental.
Não posso deixar de referir as enormes conquistas que se conseguiram na área da fertilidade fruto do trabalho em equipa. Uma abordagem multidisciplinar é fundamental com o envolvimento de várias especialidades médicas, embriologistas, enfermeiros, psicólogos, administrativos e auxiliares, assim como dos doentes que têm cada vez um papel mais ativo, da indústria farmacêutica, dos professores, advogados, políticos e da comunicação social.
Temos tratamentos cada vez mais patient friendly e com menos riscos (foi uma vitória a diminuição das gravidezes múltiplas e do síndrome de hiperestimulação ovárica). O estigma associado à infertilidade tem felizmente vindo a desaparecer e o nosso quadro legal é um dos mais progressistas da Europa. Portugal encontra-se num patamar técnico-científico semelhante ao dos países mais desenvolvidos, os medicamentos são comparticipados em 90%, existem direitos laborais associados às técnicas de PMA, há maior acessibilidade aos tratamentos tanto no setor público como privado.
No futuro iremos eventualmente ter medicamentos por outras vias de administração substituindo as injeções, o uso de Inteligência Artificial (sempre com supervisão humana) pode ser útil em algumas áreas, mas devemos sempre focar-nos numa medicina personalizada.
Gâmetas criados a partir de células cutâneas e úteros artificiais assim como a edição genética embrionária vão ser um desafio. O objetivo será alcançar taxas de sucesso mais altas, custos mais baixos e tratamentos mais amigáveis mas nunca descurando as questões éticas, regulatórias e sociais.
