John Galliano. A arte pode ser separada do artista ou só dizemos isto quando o artista nos convém?
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Francisca Salema
- 31 ago, 17:06
John Galliano já não será tema para a exposição da Met Gala 2027. Mas volta a ser tema de ControVERSA... e de outras tantas questões.
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Sou fã de John Galliano.
Talvez devesse começar por aqui, porque seria muito fácil escrever este texto fingindo que seria capaz de distribuir sentenças sobre arte, ética e redenção.
Não sou.
Eu olho para uma coleção de Galliano e vejo coisas que me continuam a parecer extraordinárias. Vejo imaginação, teatralidade, construção, pesquisa, humor, obsessão, narrativa. Vejo uma capacidade de reinventar a moda, algo que se aproxima de uma história, de uma personagem, de um delírio.
E é precisamente por gostar tanto do trabalho de Galliano que o caso me interessa.
Se eu não gostasse, seria tudo muito mais fácil.
Poderia olhar para o passado de Galliano, para as declarações antissemitas e racistas que fizeram implodir a sua carreira em 2011, lembrar a condenação em França e dizer: não se celebra isto. E o cancelamento hoje anunciado já chegou tarde.
Mas a vida — e sobretudo a arte — raramente nos oferece esse luxo (ou essa sensatez rígida).
Esta segunda-feira, dia 31 de agosto, o Metropolitan Museum of Art e John Galliano anunciaram, conjuntamente, que John Galliano: Horizons, a grande exposição que estava prevista para a primavera de 2027, não vai acontecer. Galliano reconheceu novamente a gravidade do que fez, afirmou que a responsabilização é um processo contínuo e admitiu que uma exposição dedicada ao seu trabalho poderia ser dolorosa para algumas pessoas.
E, de repente, temos uma pergunta que é muito maior do que Galliano:
Podemos continuar a admirar uma obra quando o seu autor fez coisas que consideramos moralmente imperdoáveis?
Ou, pior:
Só acreditamos verdadeiramente na separação entre a arte e o artista quando gostamos da arte?
Esta última pergunta é que me tira o sono.
Porque acredito numa teoria pouco simpática sobre nós.
Somos muito bons a separar a obra do artista. Apenas quando nos dá jeito. E acredito que seja humanamente impossível atingirmos qualquer imparcialidade nesse sentido.
A minha playlist não é o Met
Eu posso ouvir Michael Jackson.
Posso reconhecer a importância de Thriller sem, com isso, declarar que aprovo tudo aquilo que foi dito sobre o seu autor.
Até posso gostar de Woody Allen.
Posso olhar para um quadro de Picasso e não me sentir obrigada a fazer primeiro uma auditoria moral à sua vida privada.
Posso ver um filme de Roman Polanski.
Posso admirar a arquitetura de alguém com uma vida pessoal que me repugna.
Posso ler um livro de Louis-Ferdinand Céline e não achar detestável a sua obra-prima.
Podemos e devemos discutir cada caso individualmente.
Mas a questão de fundo permanece:
O prazer estético transforma-nos em cúmplices?
Se a resposta for sim, estamos todos com um problema. Se a resposta for não, temos outro problema: onde traçamos a linha?
E quem a traça?
Eu? Tu?
O Estado?
O algoritmo?
O departamento de marketing?
O Instagram?
O Metropolitan Museum of Art?
É aqui que Galliano deixa de ser apenas Galliano.
Porque uma coisa é aquilo que eu faço com uma obra. Outra é aquilo que uma instituição cultural faz com o artista que a criou.
Eu tenho uma playlist no Spotify.
O Met tem um pedestal.
E esta diferença é fundamental.
Eu posso gostar. Mas o Met pode celebrar?
Quando digo que gosto de Galliano, estou a falar da minha relação com a obra. Do meu prazer e da minha consciência, essa coisa livre e inquietante que me permite admirar e sonhar.
Quando o Met anuncia uma retrospetiva, não está simplesmente a dizer: “Olhem que roupa bonita.”
Está a fazer uma afirmação histórica.
Está a dizer: Isto é importante. Isto merece ser preservado. Esta pessoa ocupa um lugar na história cultural que vale a pena estudar.
É por isso que uma exposição num museu não é exatamente equivalente à minha decisão de comprar um bilhete para um concerto de Michael Jackson ou ver a última coleção de Galliano enquanto faço scroll no telefone.
Um museu não é uma playlist.
Um museu é uma máquina de canonização.
E aqui começa a real controvérsia:
Um museu pode separar o artista da obra?
Parece-me que sim.
Mas pode separar a celebração da pessoa que está a ser celebrada?
Aí já não tenho tanta certeza.
O problema do génio
Também precisamos de falar de uma palavra que talvez esteja no centro de toda esta história: Génio.
Nós adoramos génios.
Aliás, precisamos deles.
Gostamos da ideia de que existem pessoas excepcionais, capazes de fazer aquilo que mais ninguém consegue fazer. Precisamos de acreditar que, algures, existe alguém que vê o mundo de uma forma tão radicalmente diferente que consegue transformá-lo ou torná-lo no nosso melhor entretenimento.
O problema começa quando o génio passa de descrição artística a estatuto moral.
O génio pode ser difícil.
O génio pode ser excêntrico.
O génio pode ser instável.
O génio pode ser arrogante.
O génio pode ser um desastre humano.
É uma das nossas ficções culturais favoritas: o artista terrível que cria coisas sublimes.
E talvez devêssemos fazer uma pergunta muito simples:
Quanto talento estamos dispostos a perdoar?
Porque há outra pergunta escondida dentro desta...
Seríamos igualmente indulgentes se o talento fosse menor?
Se Galliano fosse apenas um designer competente, estaríamos hoje a discutir tão apaixonadamente a sua redenção? Ou parte da nossa disponibilidade para separar o homem da obra vem precisamente do facto de a obra ser extraordinária?
Talvez a nossa ética tenha, afinal, uma tabela de preços.
Quanto maior o génio, maior o desconto.
E agora sou eu que entro em território pantanoso....
Porque eu sou fã.
Isso pode afetar o meu julgamento? Claro. Seria ingénuo pensar o contrário.
Quando gostamos de alguma coisa, tornamo-nos excelentes advogados dessa coisa.
Arranjamos contexto.
Arranjamos nuances.
Arranjamos circunstâncias atenuantes.
“Ele estava alcoolizado.”
“Foi há quinze anos.”
“Ele já pediu desculpa.”
“Ele mudou.”
“Ele é brilhante.”
E, quando damos por nós, começamos por analisar uma obra e acabamos a defender uma pessoa.
É uma armadilha bastante humana.
Eu consigo dizer: “Aquela coleção de Galliano é extraordinária.” E também: “O que Galliano disse foi inaceitável.”
Não vejo nenhuma contradição obrigatória nestas duas frases.
Posso reconhecer a importância histórica sem transformar importância histórica em mérito moral.
Posso reconhecer que houve arrependimento sem concluir automaticamente que existe perdão.
E, sobretudo, posso não exigir que uma coisa apague a outra.
Talvez essa seja a parte mais adulta — e menos satisfatória — da conversa.
As pessoas podem ser contraditórias.
As obras também.
A história também.
Nós também.
Mas então o que deve fazer um museu?
Aqui a conversa fica mais complicada. Talvez a solução não seja simplesmente “cancelar todos os artistas problemáticos”. Nesse caso, boa sorte a encontrar génios.
O museu não tem de apresentar santos. Pode — e talvez deva — apresentar pessoas difíceis, contraditórias, moralmente incómodas.
Pode mostrar Galliano.
Pode mostrar Picasso.
Pode mostrar quem quiser.
Mas há uma diferença entre mostrar e celebrar. E talvez seja essa diferença que precisamos de discutir. Uma exposição crítica sobre Galliano poderia ser extremamente interessante.
Uma exposição que dissesse:
“Aqui está um dos maiores talentos da moda contemporânea. E aqui está também a pessoa que caiu, feriu, foi condenada, pediu desculpa, regressou e continua a ter de responder pelo que fez.”
Isso é história.
Mas uma retrospectiva corre sempre o risco de produzir outra coisa: redenção através do espetáculo.
O vestido entra pela porta. A controvérsia entra pela nota de rodapé.
E, no fim, o visitante sai a pensar: "Meu Deus, que génio". Talvez seja isso que o Met tenha percebido...
Talvez possamos acreditar na redenção sem achar que a redenção precisa de um red carpet. E esta é uma ideia particularmente importante no caso Galliano.
Porque ele não desapareceu. Voltou. Trabalhou. Criou. Foi celebrado pela indústria. A sua influência permaneceu. Não estamos perante um artista morto que precisa de ser recuperado pela história. Estamos perante um homem vivo que continua a trabalhar e que, hoje, decidiu que talvez um museu não seja o lugar certo para celebrar a sua história.
Isso é bastante diferente.
Então, talvez a pergunta seja outra.
Não é: “Podemos separar a arte do artista?”
É, sim: “Até onde estamos dispostos a separá-los?”
Eu posso separar. Tu podes separar. O Met pode separar... Mas não da mesma maneira.
Porque eu compro um bilhete. O Met escreve história.
E talvez a verdadeira responsabilidade de um museu não seja decidir quem é suficientemente puro para entrar. Talvez seja decidir como é que alguém entra sem que o museu transforme a sua complexidade numa absolvição (a palavra-chave... porque perdoar não será o mesmo que absolver... isso é coisa do vosso Deus).
Quanto a mim, continuarei a achar Galliano brilhante.
E isso não me parece um problema. O problema seria achar que, por ele ser brilhante, eu tenho de achar que está tudo bem.
Não está.
E talvez seja precisamente por isso que a obra continua a ser tão interessante... e agora, mais do que antes, obriga-nos a uma última questão:
O que fazemos com aquilo que amamos quando descobrimos que não conseguimos amar tudo à volta disso?
Boa sorte a encontrar resposta.
Como assim uma casa de luxo em Portugal a partir de 60 mil euros? E não falamos de modulares
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Margarida Ribeiro
- 31 ago, 15:48
