Em Glion e Les Roches formam-se os futuros líderes da indústria da hospitalidade
Em Glion e Les Roches formam-se os futuros líderes da indústria da hospitalidade
Evasão

O meu exílio alpino entre príncipes árabes, milionários e a questão de ir à escola…mas na Suíça

Num mundo onde a Inteligência Artificial (IA) é quase uma commodity, o futuro da hospitalidade é Human Made. No Les Roches SPARK Start-Up Summit, na Suíça, pensei que a conVERSA seria sobre inovação e tecnologia, mas foi mais sobre pessoas, generosidade e o luxo da dimensão humana no serviço. Como insight: ser boa pessoa é, absolutamente, inovador.

Penso que não fui a única a crescer com a promessa austero-chique de acabar num exílio alpino por mau comportamento. Posso é ser das poucas que, décadas depois e de forma totalmente voluntária, viaja até ao “colégio interno na Suíça” e transforma uma memória de infância num trauma para a vida. Digo isto meio a brincar. Mas só meio.

Viajo durante a Watch and Wonders, a semana em que Genebra se torna na capital mundial da alta-relojoaria e vive num movimento mais acelerado. Ainda assim, o ritmo suíço é o de sempre. Os comboios continuam silenciosos, os horários obedecem a uma precisão endógena e a viagem ao longo do Lago Léman faz-se num tempo próprio, sem a urgência de chegar. A primeira paragem é Montreux, depois Crans-Montana, dois lugares obrigatórios quando se fala de tradição, legado e o futuro da indústria da hospitalidade.

A Suíça construiu a sua reputação à volta da precisão, um valor cultural e um selo de excelência reconhecido mundialmente, e que até hoje é preservada, das centenárias manufaturas relojoeira à indústria da hospitalidade. A mesma obsessão pelo detalhe, elegância e excelência que define um relógio suíço, moldou também hotéis, escolas e uma filosofia de serviço indissociável da ideia de swiss made. Nas várias viagens que fiz a Vallée de Joux, fui entendendo a arte e o lugar da alta-relojoaria na identidade do país. Mas é a primeira vez que visito o Glion Institute of Higher Education e o Les Roches, duas instituições suíças dedicadas a formar a próxima geração de líderes e empreendedores da hospitalidade.

No alto da montanha, como se Montreux estivesse aos seus pés, o Glion Institute of Higher Education ocupa um antigo hotel de luxo transformado em campus. Estudantes de mais de 100 nacionalidades dão-lhe uma energia que, num primeiro momento, se pode confundir com o lifestyle de um resort exclusivo. Parece desenhado para antecipar a própria experiência de hospitalidade, antes mesmo de ser ensinada. A arquitetura mantém a elegância clássica de um grande hotel alpino, os interiores prolongam a calma cinematográfica deste miradouro sobre o Lago Léman e as montanhas, e até o silêncio não será por mero acaso. Tudo comunica a mesma ideia: aqui, sentir-se bem recebido não é um detalhe, é parte do lugar. E não é um hotel, é uma escola.

Da elegância panorâmica de Glion para a inspiração alpina de Crans-Montana, a entrada no mundo do Les Roches Global Hospitality Education faz-se naturalmente, como se estivéssemos a seguir o mesmo fio condutor da hospitalidade suíça, apenas num registo diferente. Fundado em 1954, no coração do Alpes, o Les Roches é uma das instituições mais prestigiadas do mundo na formação da nova geração de líderes em negócios da hospitalidade, do luxo, do turismo e do desporto. Tal como o Glion, integra o grupo Sommet Education e combina a tradição suíça com uma visão profundamente internacional, materializada em campus que se estendem da Suíça aos Emirados Árabes Unidos e à China. Em 2026, ocupa o 2.º lugar mundial na área de Hospitality & Leisure Management no QS World University Rankings, reforçando o estatuto e o reconhecimento global que as escolas suíças continuam a ter nesta indústria.

Chego a Glion e a Les Roches com a curiosidade de quem nunca pensou muito a sério neste mundo. O único (pre)conceito que tinha era o ingénuo castigo suíço da minha infância, que se revela, afinal, uma versão académica de um hotel de cinco estrelas, onde há spa, restaurantes de fine dining e estudantes impecavelmente vestidos (fato/gravata masculino; blazer/salto alto feminino; casual só no refeitório/ténis apenas brancos) a debater o futuro da hospitalidade em salas com vista para os Alpes. É um estilo de vida de Campus, que via a ser o da minha vida (para sempre), ainda mais quando todos têm aquele ar de leveza de quem está bem consigo próprio e com o mundo. Sim, são alunos com contextos familiar/económico privilegiados. É verdade que o dinheiro não é tudo na vida, mas para estudar aqui (sem grande rigor, mas valor equivalente a de um automóvel de luxo), faz uma certa diferença. Também é verdade que o ambiente à volta muda tudo, ou muda muita coisa. O ritmo dos dias, a forma de pensar, a maneira de viver que parece mais presente, mais intencional.

Não é difícil de perceber a reputação internacional destas duas instituições. Sente-se. Mas faltava-me uma peça. A precisão. “Para nós, o mais importante é formar boas pessoas. É possível ser-se boa pessoa, generoso e disruptivo. A tecnologia pode existir, podemos nos desafiar a inovar, mantendo a beleza das relações humanas no negócio. Esta é uma indústria feita por pessoas para pessoas”, explica-me Carlos Díez de la Lastra, CEO da Les Roches. E tudo fez mais sentido. E tem sentido. O mundo quer os melhores futuros líderes da indústria, mas daqui saem também com uma das mais importantes soft skill no futuro: humanidade.

Com um conceito que vive entre a escola internacional, o hotel de luxo e o hub global, os dias são vividos entre aulas formais, uma vida social com curadoria exigente e o ambiente é mais o de networking de elite do que o do tradicional mundo universitário. Do ski ao hiking; dos clubes de vinho, arte e gastronomia às viagens frequentes pela Europa (alguns parte do programa escolar); dos cocktails junto ao Lago Léman ao cartaz do Montreux Jazz Festival, o lifestyle dos estudantes vive para lá do campus.

Mas neste ambiente de luxury living, existe uma disciplina exigente: dress code inspirado na hotelaria de luxo, aulas práticas intensas e uma cultura académica centrada em serviço, detalhe e excelência. Um dos jantares é em Les Roches, entre as conversas e as histórias que vão sendo contadas ao longo da noite (os príncipes e os milionários não são ficção…), falo a Carlos Díez que venho da cultura informal, de provocação criativa e de experimentação estética do Central Saint Martins, em Londres, e da minha curiosidade de como integram a criatividade no programa, sobre o espaço e o lugar da imaginação num ensino mais formal, de disciplina e não de improvisos…”Essa é uma questão muito interessante. Aqui, os alunos inspiram-se e encontram esse estímulo criativo, por exemplo, nos clubes, há desde clubes de viagens aos de cultura, entre pessoas que partilham as mesmas paixões, entre as ideias que trocam, as experiências que vivem…” explica-me.

Em Glion e Les Roches, os estudantes têm uma espécie de treino intensivo para fazer da excelência profissão. Há quem traga títulos reais e chegue à Suíça com assistente pessoal (não permitido no Campus), há quem desde os 18 anos conduza Lamborghini e tenha um cartão gold…mas todos aprendem a fazer camas com a precisão de um hotel de cinco estrelas, a cozinhar o menu do dia, a servir colegas no refeitório ou a sugerir-nos um vinho no restaurante fine dining de Les Roches.

Reduzir estas duas instituições a cenários idílicos e a glamour académico é perder o essencial: o lugar que têm no processo de transformação da indústria. O setor já não se limita a quartos e a restaurantes, os desafios vêm de novos territórios como o bem-estar, o design emocional, a IA ou a hiperpersonalização do luxo. Glion e Les Roches são uma espécie de laboratórios do futuro, onde se estuda gestão e se treina sensibilidade: para interpretar o silêncio e o invisível, antecipar desejos, servir com excelência e criar uma experiências memorável ao cliente.

“Associa-se sempre Les Roches ao formalismo de uma das melhores escolas do mundo, mas podemos ser tradicionais e disruptivos” acrescenta o CEO. A visita coincidiu com o SPARK Start-Up Summit ,uma nova plataforma criada pela Les Roches para discutir o futuro da hospitalidade numa era marcada pela IA, pela transformação digital e pelas novas expectativas dos consumidores. Durante três dias, no campus de Crans-Montana, o evento reuniu startups, investigadores, executivos, estudantes e especialistas internacionais num cruzamento entre hotelaria, tecnologia, inovação suíça e experiência humana. “Esta primeira edição é apenas o começo de uma ambição muito maior. Com o SPARK, pretendemos posicionar Les Roches Crans-Montana de forma sustentável no mapa da inovação e tecnologia aplicados à hotelaria, avaliando continuamente o impacto real dos projetos e colaborações iniciados aqui”, explica Giovanni Odaglia, Diretor Geral de Les Roches Crans Montana.

O tom das conversas afastou-se, curiosamente, do discurso tecnológico expectável: apesar do protagonismo da IA e dos dados (desde revenue management inteligente até reputação online), a conclusão foi sobre o valor humano. Num setor cada vez mais automatizado, o verdadeiro diferencial competitivo continuará a ser profundamente humano: empatia, atenção ao detalhe, capacidade de criar experiências memoráveis e relações autênticas. “Com o SPARK, queremos demonstrar que é possível permanecer fiel à essência da hospitalidade, profundamente humana, enquanto promovemos a inovação, a criatividade e a transformação. Hoje, mais do que nunca, o nosso papel é educar líderes capazes de combinar todas essas dimensões” explicou Carlos Díez de la Lastra.

O summit terminou com a distinção de quatro startups que refletem estas novas prioridades da indústria. Mais do que um simples evento académico, o SPARK afirmou-se como um laboratório de ideias para perceber como será, e sobretudo quem irá construir, a próxima geração da hospitalidade global. “A convergência entre hotelaria e inovação tecnológica pode ter parecido inesperada em algum momento, mas tornou-se essencial. Os verdadeiros vencedores serão as organizações capazes de investir tanto em pessoas quanto em tecnologia” concluiu Spencer Coles, CEO da Sommet Education. A segunda edição do SPARK Start‑Up Summit terá lugar em fevereiro de 2027.

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