O caso de Lindsay Clancy está a dar que falar
O caso de Lindsay Clancy está a dar que falar | Getty, Boston Globe
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O que o caso de Lindsay Clancy nos ensina sobre o pós-parto? Psiquiatra explica

Maria Moreno, médica psiquiatra, assina este artigo sobre o caso mais comentado do momento, o de Lindsay Clancy, e o que acontece no pós-parto.

Maria Moreno
Maria Moreno, médica psiquiatra e autora do livro "Se Estou Bem, Porque Não Me Sinto Bem"

O caso de Lindsay Clancy voltou a colocar (e bem) a saúde mental no pós-parto no centro da discussão. Em janeiro de 2023, no Massachusetts, esta antiga enfermeira matou os três filhos e tentou depois suicidar-se. Hoje, em tribunal, a defesa sustenta que sofria de psicose pós-parto; peritos da acusação aceitam o diagnóstico de doença mental grave, mas contestam que estivesse psicótica. E esta diferença importa.

O pós-parto é uma espécie de tempestade perfeita. Há uma mudança de vida gigantesca, privação de sono, uma nova identidade e, acima de tudo, uma alteração hormonal muito rápida. Todas as mulheres atravessam esta mudança. Mas nem todos os cérebros reagem da mesma maneira.

Os baby-blues são muito frequentes. Aparecem no dia do parto e trazem consigo todas os sintomas de uma depressão pós-parto mas com uma diferença: passam. Habitualmente em dias e, no máximo, cerca de duas semanas. Não são considerados uma doença e não precisam de tratamento. Numa sala de um curso de preparação para o parto, sabemos que 8 em cada 10 mulheres vão ter estes sintomas.

Mas precisam que olhemos para eles sem os considerar à partida normais. Porque parte destas mulheres vão evoluir para depressão pós-parto. A depressão pós-parto é uma doença que carece de intervenção – neste ponto, não há dúvidas. Pode apresentar-se com mais tristeza, mais ansiedade ou mais irritabilidade. Pode ser a mãe que não consegue sentir ligação com o filho, mas pode ser aquela mãe que não deixa nenhuma visita aproximar-se dele porque lhe pode acontecer algo. Pode haver pensamentos intrusivos: a mãe que pensa em fazer mal ao bebe, mas este pensamento horroriza-a – isto é frequente. Pensar "tenho medo de fazer mal ao meu bebé" não é o mesmo do que querer fazê-lo. E não é o mesmo que, numa psicose, acreditar que fazê-lo é necessário. Pode haver pensamentos de morte ou suicídio. Aqui a mulher continua em contacto com a realidade. 2 em cada 10 mulheres daquela sala vão evoluir neste sentido. É uma doença diferente da depressão dita "normal", está mais em relação com a depressão sazonal e com a doença bipolar.

Há mais depressão pós parto em filhas de mães e tias e avós com depressão pós-parto e isto, muitas vezes, perpetua a ideia que todos estes sintomas são "normais".

A psicose pós-parto é rara. Em cada 1000 mulheres que passam numa maternidade, cerca de 2 vão ter psicose pós-parto. Aqui pode haver delírios, alucinações e alterações do comportamento. A mulher pode deixar de perceber que está doente porque perdeu contacto com a realidade. É uma emergência.

O pior que podemos fazer com um caso como este é fazer com que as famílias saiam desta entrevista a vigiar todas as mães cansadas ou assustar as mães e fazê-las esconder sintomas. Também não podemos normalizar tudo: "é cansaço", "são as hormonas", "todas as mães passam por isso". Às vezes passa. Outras vezes é uma doença e tratar cedo faz diferença.

Quando nasce um bebé, perguntamos sempre: "Como está o bebé?". Talvez esteja na altura de fazer, com a mesma seriedade, outra pergunta: "E a mãe, como está mesmo?"

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