O supermercado é coisa do passado. Esta mercearia moderna tem cada pitéu...
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Rafaela Simões
- 9 jul, 12:02
Há uma nova mercearia em Lisboa que quer recuperar a qualidade dos produtos do passado e a arte de bem receber. Bem vindos ao Pitéu Transmontano.
Conhece a nova mercearia moderna em Lisboa, o Pitéu Transmontano
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Durante décadas, parecia inevitável que as mercearias de bairro desaparecessem, engolidas pela expansão dos supermercados. Mas, nos últimos anos, este pequeno comércio tem conhecido uma nova vida. Em vez de competir pelo preço ou pela quantidade, muitas mercearias conquistam os clientes pela proximidade, pelas histórias de cada produto e pela aposta em produtores locais e sabores autênticos.
E há uma nova morada no que toca ao bem receber e bem servir: o Pitéu Transmontano. Esta nova mercearia em Lisboa é dedicada aos sabores de Trás-os-Montes e trata-se de um projeto que foi feito pelas mãos de João Martinho, de 36 anos, engenheiro civil, e Sara Lopes, de 39, formada em Jornalismo. Conheceram-se numa pós-graduação em Gestão Empresarial no ISCTE e, depois de seguirem percursos profissionais distintos, decidiram trocar carreiras consolidadas por um negócio que os aproxima das suas memórias de infância.
João cresceu na pequena aldeia de Fradelos, perto de Braga, onde havia a mercearia Venda do Sr. Guedes, na qual a sua família comprava pão e encomendava a famosa Rosca minhota ao domingo. Mas não é só isso que recorda. "O Sr. Guedes e a esposa estavam sempre lá e tinham sempre uma história para cada cliente". Para além das histórias, a qualidade dos produtos era inagualável e nada com o que vemos hoje em dia. E é isso que quer recuperar: "Com este projeto pretendemos dar palco aos pequenos produtores que ainda privilegiam a qualidade dos seus produtos e garantem que levam até aos clientes os sabores autênticos que nos transportam para as nossas memórias".
Já as memórias de Sara transportam-nos até Meles, uma pequena aldeia perto de Macedo de Cavaleiros, onde passou muitas férias com a família da avó. Lembra-se de ajudar uma tia-avó a encher alheiras "junto à lareira nas madrugadas de inverno", de acompanhar a produção do azeite nos olivais da família e de crescer num lugar onde a partilha fazia parte do quotidiano. E hoje não é diferente. "Ainda é comum chegar à aldeia e, no dia seguinte, encontrar à porta baldes com batatas, ovos, presunto, alheiras... o que for da época", diz. "É um sentimento de muito carinho e conforto esta partilha do que se tem."
São essas recordações que hoje servem de inspiração ao Pitéu Transmontano. Vamos conhecer o projeto?
Porquê abrir uma mercearia em Lisboa?
Sentimos que em Lisboa é mais difícil de encontrar produtos verdadeiros e de qualidade. Também sabemos que há cada vez mais pessoas à procura de produtos originais, diferenciados e nacionais. A nossa mercearia vende esses produtos, vende as histórias por trás desses produtos e as gentes que os fazem. Fazemos questão de conhecer os nossos fornecedores e de saber quem, como e onde tudo é feito, isto obriga-nos a fazer visitas regulares pelo nosso belo país, a ter uma relação de proximidade e confiança com os nossos fornecedores e o nosso cliente sabe disto, sabe que pode confiar. Também nos orgulhamos de resgatar produtos com perigo de se extinguirem, produtos que se forem bem divulgados podem sobreviver, produtos que para muitos clientes sabem a memórias de infância e este lado emocional representa muito o nosso modelo de negócio.
Qual o produtor mais diferenciado que vos leva produtos?
É muito difícil escolher um, temos muitos. Podemos talvez referenciar a D. Isabel que faz os Cuscos de Vinhais. Só já há duas ou três pessoas que os fazem para venda e é uma pena. Felizmente são um sucesso de vendas na nossa loja e graças também a alguns chefs transmontanos que os incluem nos menus dos seus restaurantes acredito que não deixaremos morrer esta arte.
Que experiências é possível ter no Pitéu Transmontano?
Vir ao Pitéu é em si uma experiência, temos sempre produtos a degustar, adoramos contar as histórias dos produtos e das gentes que os fazem, temos livros de receitas antigos e recentes, livros sobre artesanato para consulta, que adoramos estudar com os nossos clientes e trocar experiências e histórias. É sobretudo um ambiente muito familiar e íntimo.
Porquê a aposta na gastronomia de Trás-os-Montes?
É um território riquíssimo e sub-explorado, as ligações da Sara a Trás-os-Montes são sem dúvida cruciais nesta aposta. E depois a qualidade e diferenciação dos produtos também o justificam. Tem produtos únicos que apenas se produzem ali como são os Pasteis de Chaves, os Folares transmontanos, o queijo terrincho, o Butelo, as Casulas, as Rabas tão apreciadas para acompanhar o bacalhau no Natal, entre muitos outros. Muitos destes produtos ainda são desconhecidos dos portugueses e estamos a fazer o trabalho de os divulgar para que todos os possamos provar e apreciar.
Por exemplo, o João, sendo minhoto e vizinho de Trás-os-Montes, nunca tinha sequer ouvido falar do Butelo e das Cascas e dos Folares Transmontanos. É motivo de grande satisfação para nós quando vemos clientes de outras zonas do país a experimentar e a tornarem-se clientes frequentes para estes produtos únicos. Além de trabalharmos e divulgarmos os produtos de Trás-os-Montes, também fazemos esse trabalho para os produtos típicos e pouco conhecidos de outras regiões, tais como a Muxama do Algarve, o Bucho e o Maranho da Sertã, o bolo de mel da Madeira, o bolo finto do Alentejo, entre muito outros. Queremos manter vivos os sabores de Portugal.
Que produto poucos conhecem e encontram na vossa mercearia?
Temos a chouriça doce, feita com pão, mel, amêndoa, canela e sangue. É um produto muito raro e até já tivemos clientes que choraram quando viram que vendíamos, por já não comerem desde que algum familiar fazia, a mãe ou a avó geralmente. Pensavam verdadeiramente que nunca mais iam voltar a comer…. É muito emocionante proporcionar isto às pessoas. A memória pode ser ativada por diversos sentidos, mas o palato ativa uma memória sempre ligada à infância e à família.
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