Majo Castorina já tinha o seu público enquanto atriz e criadora de conteúdos, mas foi um momento simples que a levou mais longe do que qualquer projeto profissional. Num vídeo gravado ao sol, numa conversa tranquila, surge ao lado da avó Porota — uma presença tão importante na sua vida que Majo tem duas tatuagens em sua homenagem. A intenção era apenas partilhar um diálogo carinhoso, mas a reação que se seguiu foi inesperada.
No vídeo, Majo recorda-lhe pequenos detalhes que o tempo foi esbatendo — entre eles, a própria idade. “Tens 98 anos”, diz-lhe. Porota fica em silêncio por um segundo, arregala os olhos e responde incrédula (e com alguns palavrões pelo meio), como se estivesse a ouvir aquilo pela primeira vez. A reação repete-se em vários vídeos e é sempre a mesma: genuína, espontânea e cheia de humor.
A avó insiste que não se sente velha. Diz que o corpo pode ter envelhecido, mas ela não; que não lhe dói nada e que se sente uma eterna jovem.
Foi essa leveza que conquistou milhões. O primeiro vídeo soma já quase 18 milhões de visualizações e mais de 36 mil comentários.
A partir daí, as conversas tornaram-se uma espécie de diário partilhado. Recordaram viagens, folhearam fotografias antigas, recordam histórias que, por vezes, precisavam de ser contadas mais do que uma vez, mas que nunca perdiam a graça. Uma das mais marcantes foi a ida a Paris para celebrar o aniversário de Porota. A família hesitou — quase 100 anos, uma viagem longa, receios naturais. Mas ela foi clara e desarmante: “Se for para morrer, morro em Paris. Depois trazem-me de volta. Mas não vou deixar de viver.” Majo encontrou uma solução prática: comprou-lhe uma cadeira elétrica para que pudesse percorrer a cidade sentada, confortável, sem se cansar. Assim, explorou, passeou pelas ruas com calma, celebrou o aniversário como sempre quis.
Mesmo com demência e perda de referências temporais ou episódios recentes, Porota preserva memórias profundamente enraizadas. A música é uma delas: continua a recordar letras inteiras de canções que marcaram diferentes fases da sua vida e mantém uma rotina ativa, participando num coro. Este tipo de preservação é frequente em quadros demenciais, nos quais a memória emocional e musical tende a permanecer intacta por mais tempo do que a memória factual.
Nos comentários, multiplicam-se as reações emotivas, mas também reflexões sobre o envelhecimento e o cuidado familiar. Muitos destacam a forma paciente e respeitosa com que a neta repete explicações e histórias, adaptando-se às limitações cognitivas da avó sem a infantilizar. Já vários são os especialistas que sublinham que esta abordagem — baseada na empatia, na repetição tranquila e na validação emocional — contribui para reduzir a ansiedade e preservar a dignidade.
Entre as mensagens deixadas pelos utilizadores, sobressaem ideias recorrentes: a importância do apoio familiar, a humanização do envelhecimento e a identificação coletiva com a figura de Porota, que vários seguidores passaram a descrever como “a avó da internet”.
Quando lhe perguntam o que fez para envelhecer tão bem, Porota encolhe os ombros e responde: “Nada. Sou feliz. Não olho para trás”
O que mais mobiliza quem assiste não é apenas a reação bem-humorada ao número 98, mas a forma como mantém sentido de humor e disposição apesar das limitações associadas à idade e ao declínio cognitivo.
