Marcos Rodríguez Pantoja
Marcos Rodríguez Pantoja | Fotografia: Facebook
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Morreu o "menino lobo" que viveu 12 anos sozinho na serra e encontrou nos lobos a sua família

Marcos Rodríguez Pantoja morreu aos 80 anos depois de uma vida de sobrevivência. Ficará para sempre conhecido como "menino lobo" pela história que até chegou ao cinema.

A história inspiradora do "menino lobo"

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Há histórias de vida que podiam dar um filme e a de Marcos Rodríguez Pantoja chegou mesmo ao grande ecrã em 2010. Nesse ano, o realizador Gerardo Olivares levou para o cinema o filme Entrelobo, que narra a vida do homem que ficou conhecido como "menino lobo de Sierra Morena".

Infelizmente, sabe-se agora que a história de Marcos Rodríguez Pantoja chegou ao fim. O eterno "menino lobo" morreu aos 80 anos no dia 15 de agosto na aldeia de Rante, em San Cibrao das Viñas, na província espanhola de Ourense, onde tinha encontrado nas últimas décadas uma espécie de porto de abrigo.

Mas para quem não viu o filme ou nunca ouviu falar de Marcos Rodríguez Pantoja, contamos o percurso de vida deste homem, marcado pelo abandono, pela sobrevivência e por uma extraordinária dificuldade em adaptar-se ao mundo dos humanos.

Marcos nasceu em Añora, na província de Córdoba, a 7 de junho de 1946. Ainda criança, perdeu a mãe e acabou entregue pelo pai a um cabreiro, que o levou com 7 anos para uma zona isolada da serra, onde vivia com um pastor mais velho numa gruta.

Era ali que o rapaz deveria ter aprendido a cuidar dos animais e a sobreviver, mas, cerca de dois anos depois e já com 9 anos, o homem morreu e Marcos ficou, novamente, sozinho. E, em vez de regressar à sociedade, ficou na serra.

Foi então que começou a parte mais extraordinária da sua vida. Durante mais de uma década, Marcos viveu praticamente sem contacto humano, aprendendo a retirar da natureza tudo aquilo de que precisava para sobreviver. Pescava, caçava, recolhia alimentos e procurava abrigo. Os animais que o rodeavam deixaram de ser apenas parte da paisagem e tornaram-se a sua companhia. Sobretudo os lobos.

Marcos contou várias vezes que uma loba acabou por desempenhar um papel fundamental na sua sobrevivência.

"Ela viu-me e olhou para mim com ar feroz. A loba começou a despedaçar a carne. Uma das crias aproximou-se de mim e tentei roubar-lhe a comida, porque também tinha fome. A mãe deu-me uma patada. Eu recuei. Depois de alimentar as crias, atirou-me um pedaço de carne. Não queria tocar-lhe porque pensei que me ia atacar, mas ela empurrava a carne com o focinho. Peguei nela, comi-a e pensei que me ia morder. Mas pôs a língua de fora e começou a lamber-me. A partir desse momento, passei a fazer parte da família", conta na BBC.

Isto não significa, naturalmente, que Marcos tenha sido literalmente "criado" por uma alcateia no sentido que a expressão popular sugere. O que os relatos e os estudos sobre o caso permitem perceber é algo mais complexo: uma criança abandonada conseguiu adaptar-se a um ambiente selvagem e estabeleceu uma relação invulgar com os animais que ali encontrou. E assim foi durante 12 anos: sem humanos, só com animais.

Só em 1965 Marcos Rodríguez Pantoja foi encontrado pela Guardia Civil espanhola, que o levou para um recomeço de vida nada fácil.

Na altura já com 19 anos, teve de reaprender coisas que para qualquer outra criança seriam elementares: falar, caminhar de forma diferente, vestir-se, comer com talheres e viver segundo regras sociais que lhe eram praticamente desconhecidas. A adaptação foi lenta e dolorosa.

Também descobriu rapidamente que regressar ao mundo humano não significava necessariamente encontrar a segurança que lhe tinha faltado em criança. Ao longo da vida, foi alvo de burlas e de vários episódios de exploração, em parte porque desconhecia o valor do dinheiro e as regras sociais que os outros davam como adquiridas.

Trabalhou como pastor, cumpriu o serviço militar e passou pela hotelaria. Viveu também períodos de grande precariedade, incluindo em Fuengirola, antes de acabar por se fixar na Galiza.

Os últimos anos do "menino lobo"

Em setembro de 2001, Marcos chegou a Rante, uma pequena aldeia de San Cibrao das Viñas. Ali encontrou, finalmente, uma comunidade que o acolheu. Durante anos viveu com Manuel Barandela Losada, um antigo polícia, que se tornou uma das figuras mais importantes da sua vida. Depois da morte de Manuel, continuou a contar com o apoio dos vizinhos.

Nos últimos anos, apesar da idade e de problemas de saúde, Marcos continuava a falar dos lobos e da sua infância. Em janeiro de 2026, uma reportagem do jornal galego La Región descrevia-o como um homem que continuava a considerar os animais a sua família e recordava que falava daqueles anos como o período em que se sentira mais feliz e livre.

Aos 80 anos, Marcos acabou numa pequena aldeia galega, longe da Sierra Morena onde tudo começara. E ficará para sempre associado ao título "menino lobo", que parece uma ficção, mas é pura realidade.

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