A atriz Marta Gil encontra-se numa fase particularmente autoral da sua carreira, em que a construção de personagem e a intensidade emocional parecem assumir um lugar central no seu trabalho. Em cena com A Velha Senhora, onde o registo oscila entre a sátira e a comédia, e no ecrã com a curta-metragem Matsutake, projeto no qual teve também um papel ativo como criadora e produtora, a atriz mergulha em universos distintos, mas unidos por uma mesma linha de profundidade e entrega artística.
Nesta etapa, Marta Gil explora com maior liberdade os contrastes entre géneros, transitando do drama à comédia com naturalidade, mas revelando uma preferência clara por personagens densas, marcadas pela dor, pela perda e por processos internos complexos.
Entre palco e câmara, Marta apresenta-se num momento mais maduro, mais consciente e também mais livre. Em entrevista à VERSA, fala sobre o seu processo criativo, as escolhas artísticas e o olhar que hoje lança sobre a sua própria carreira.
Entre o palco, com A Velha Senhora, e o cinema, com a curta-metragem Matsutake, qual destes mundos mais a fascina?
Gosto de ambos os mundos! O palco tem um processo diferente do cinema e da televisão. Na curta metragem Matsutake fui também criadora e produtora, portanto, o meu envolvimento foi muito profundo e a personagem era muito densa: uma mulher que perde o pai e vê o seu mundo desmoronar-se. O espetáculo A Velha senhora era uma sátira com momentos muitos cómicos. Eu gosto de ir do drama à comédia, gosto dessa versatilidade e, embora cada vez mais faça papéis cómicos, adoro emergir em personagens que são profundas e que carregam alguma dor.
O seu trabalho recente revela um foco muito claro na profundidade emocional e na construção interior das personagens. Como é o seu processo de preparação? Parte mais do texto, do corpo, da memória emocional ou da observação?
Faço aquilo que muitos atores dizem que não se deve fazer, mas, na verdade, por muito que haja técnica e método para muitas coisas acho que cada um tem o seu. Muitas vezes vou buscar dor interior de memórias que tenho e adapto à personagem. Ou seja, se estiver a fazer de alguém que perdeu um filho, eu nunca perdi, portanto, não sei que dor é essa. Primeiro, vou ao meu lugar de dor e, a partir daí, falo com quem já tenha passado por uma situação dessas, depois misturo um pouco as coisas e trabalho a emoção até chegar lá. Para isso gosto de contar com a direção. Gosto muito de criar, mas gosto muito de ser dirigida e ouvir o outro. Acho que vários olhares sobre a mesma personagem funcionam melhor do que apenas um.
Em A Velha Senhora, o teatro exige uma entrega contínua e uma presença física muito intensa. Já em Matsutake, o registo cinematográfico permite maior intimidade e detalhe. Como adapta a sua disciplina artística a estes dois ritmos tão distintos?
O teatro tem uma hora marcada, no meu dia a dia não penso naquilo, mas quando chego ao teatro duas horas antes do espetáculo esse tempo é muito importante para nos preparamos. Há dias em que meia hora chega, há outros que até precisávamos de mais tempo. Somos atores, não somos máquinas, então a fase de vida onde estamos muitas vezes também tem influência naquilo que damos. Ao longo do tempo vamos aprendendo a lidar com isso. Uma das grandes diferenças do palco para o registo cinematográfico é o olhar e a postura corporal, no palco tudo pode ser maior. Como eu comecei no teatro, tive de aprender muito mais a ser contida perante as câmeras, a limitar os meu movimentos, a trabalhar muito o olhar, que na maior parte das vezes diz tudo.
Fala-se muitas vezes de maturidade artística. Sente que esta fase da sua carreira lhe trouxe uma maior liberdade criativa ou, pelo contrário, uma maior responsabilidade nas escolhas que faz?
Não diria responsabilidade, acho que me traz uma maior liberdade no sentido em que acredito muito mais em mim e sei do que sou capaz e isso dá-nos uma confiança que antes não tinha. Hoje se recebo um não, encaro-o de uma forma muito mais leve, fico sempre triste, faz parte, mas já não faço um drama. Hoje sei aquilo que valho e também sei que muita coisa não depende do nosso talento e profissionalismo.
Olhando para o panorama cultural português, que tipo de histórias sente que ainda precisam de ser contadas?
Acho que a história portuguesa é muito rica. Temos livros incríveis que podiam ser adaptados para grandes histórias contadas em cinema ou televisão. Acho que o teatro é, sem dúvida, o meio que mais traz novidade e criatividade no meio artístico. A televisão vive das audiências e torna-se muitas vezes refém do que o público quer ver. O cinema português pode e deve continuar a crescer, mais co-produções, levar a nossa língua a interagir com outras e chegarmos a mais mundo.
Ao trabalhar personagens com maior densidade emocional, há sempre o risco de desgaste pessoal. Que mecanismos encontrou, ao longo dos anos, para proteger a sua própria identidade e manter um equilíbrio entre entrega artística e preservação interior?
O meu grupo de amigos chegados tem pessoas de todas as áreas e isso de certa forma ajuda me muito. Tenho sempre os pés muito assentes na terra e falamos sobre a minha profissão, mas também falamos de muitas outras coisas. Eu antes era muito viciada em trabalho, porque adoro o que faço, mas hoje sei – e esta conversa vem com a idade, mas é mesmo real –, que às vezes é bom parar, é bom dizer não, é bom viajar, ter tempo só para nós e pensar em tudo menos trabalho. Mais tarde este tempo compensa.
