Num contexto em que as dinâmicas familiares se tornam cada vez mais diversas, a maternidade independente através de tratamentos de Procriação Medicamente Assistida (PMA) surge como um fenómeno em crescimento e que desafia modelos tradicionais profundamente enraizados na sociedade. Mais do que uma tendência, trata-se de uma decisão consciente que reflete transformações sociais, avanços na medicina reprodutiva e uma redefinição do que significa construir família nos dias de hoje.
Contudo, surgem inevitavelmente novas questões: estaremos perante uma redefinição dos modelos familiares? Que desafios emocionais, sociais e clínicos atravessam estas decisões? E de que forma a medicina reprodutiva acompanha esta mudança?
Estas e outras questões são exploradas em entrevista com a Dra. Alexandra Grade Silva, psicóloga clínica da Ferticentro, e a Dra. Carolina Coimbra, ginecologista-obstetra da Ferticentro.
Dra. Alexandra Grade Silva, psicóloga clínica da Ferticentro
Quais são os principais motivos que levam cada vez mais mulheres a optarem pela maternidade independente?
Entre as principais motivações destaca-se um desejo profundo e duradouro de maternidade, que acaba por se sobrepor à expectativa de encontrar o parceiro ideal, sobretudo perante a perceção do avanço da idade e da diminuição do tempo fértil. De forma geral, a maioria destas mulheres não cresce com o objetivo de enfrentar a maternidade a solo. Pelo contrário, tende a idealizar inicialmente uma família nuclear tradicional. No entanto, perante as circunstâncias da vida, como a ausência de um parceiro compatível, o foco na carreira ou o avançar da idade, optam por este caminho como uma decisão consciente, ponderada e carregada de significado pessoal.
Como gerir os desafios emocionais e sociais durante o percurso?
A maternidade independente por escolha traz desafios únicos, como assumir responsabilidade parental exclusiva, depender de redes de apoio, lidar com restrições legais para realizar tratamentos a solo e escassez de dadores. Para gerir estes desafios emocionais e sociais, algumas estratégias podem ser fundamentais, tais como, construir e ativar uma rede de apoio sólida. Efetivamente, contar com familiares, amigos e grupos de mães que possam ajudar no dia a dia, nos momentos de cansaço ou em situações imprevistas e participar em comunidades de mulheres que vivem experiências semelhantes, para trocar experiências e reduzir sentimentos de isolamento, pode ajudar bastante.
Além disso, beneficiar de apoio psicológico pode ser vantajoso, dado que um profissional de saúde mental poderá ajudar a lidar com todas as emoções inerentes a este processo e ajudar a preparar emocionalmente para a parentalidade a solo.
Outro fator que pode ajudar é uma maior preparação e organização de questões mais práticas, como questões logísticas relacionadas com os tratamentos de PMA e ter estratégias financeiras para lidar com custos do setor privado, se necessário.
Acrescenta-se o autocuidado e gestão emocional diária, ou seja, reservar tempo para descansar, praticar atividades que reduzam o stress e manter hábitos saudáveis. Assim como, aprender a pedir ajuda quando necessário, sem culpa, reconhecendo que a maternidade a solo é exigente e requer recursos emocionais e físicos.
Gerir desafios emocionais e sociais da maternidade independente por escolha passa por planeamento, saber quando pedir ajuda, construção de redes sólidas e autocuidado.
Que impacto tem a maternidade independente na vida profissional e pessoal das mulheres, especialmente quando ocorre mais tarde na vida, entre os 38 e os 45 anos?
A maternidade numa idade mais tardia pode ser fisicamente e emocionalmente mais exigente, por existir um maior risco de fadiga e sobrecarga, especialmente por a mulher assumir sozinha a responsabilidade parental sem divisão diária de tarefas. Com frequência, estas mulheres apresentam formação superior, uma carreira profissional estável e independência financeira, o que por um lado, confere mais autonomia para esta tomada de decisão, por outro, torna a conciliação de vida profissional e parentalidade mais exigente, necessitando de ajustes, de apoio familiar e de redes de suporte sólidas. Apesar destes desafios, a maternidade independente tardia permite exercer autonomia, realizar o sonho da maternidade e construir uma família de forma consciente e profundamente significativa.
Que mitos ou preconceitos existem ainda em torno deste fenómeno?
Um preconceito sentido por muitas destas mulheres é a ideia de que filhos de mães solteiras têm mais dificuldades emocionais ou sociais do que filhos de famílias tradicionais, desvalorizando-se a noção de que o bem-estar da criança depende sobretudo da qualidade das relações que estabelece, do amor e do apoio seguro e estável recebido das figuras de vinculação, e não da composição/estrutura familiar.
Surge também o julgamento da sociedade para com mulheres que em idades mais avançadas escolhem serem mães, considerando este ato, irresponsável e egoísta. Contudo, a maioria destas mulheres planeiam antecipadamente e preparam cuidadosamente a vinda desta criança, assegurando muitas vezes estabilidade financeira e o apoio das redes de suporte. Por fim, persiste também o preconceito cultural de que famílias só são "completas" se existirem dois progenitores, por norma, homem e mulher, desvalorizando a diversidade das estruturas familiares e a legitimidade da maternidade independente por escolha.
Que apoio psicológico ou acompanhamento emocional está disponível para mulheres que escolhem a maternidade independente?
Em Portugal, o acompanhamento psicológico não é obrigatório para tratamentos de PMA, seja para maternidade a solo ou para casais. No entanto, é fortemente recomendado para ambos.
Pode ter um papel preventivo e de apoio ao longo de todo o percurso, antes, durante e após o tratamento, ajudando os indivíduos a sentirem-se mais acompanhados numa jornada tão exigente.
O apoio psicológico pode ajudar a reduzir a ansiedade e stress associados ao processo, trabalhar expectativas e medos, ajudar a reforçar e a ativar a rede de suporte, principalmente em momentos de maior crise, preparar para desafios futuros de parentalidade e fortalecer a confiança nas decisões tomadas. O acompanhamento psicológico pode funcionar como um espaço de reflexão, validação emocional e ativação de ferramentas já existentes, contribuindo para uma vivência do processo de fertilidade e parentalidade mais sereno e seguro. A Ferticentro, em Coimbra, disponibiliza acompanhamento psicológico para todos os que necessitarem, durante estas jornadas de fertilidade e futuras parentalidades.
Dra. Carolina Coimbra - Ginecologista-Obstetra da Ferticentro
Como funcionam as técnicas de procriação medicamente assistida para mulheres que decidem avançar sozinhas?
A maternidade independente é, muitas vezes, uma resposta pragmática às circunstâncias da vida, mas também uma decisão deliberada e empoderadora, que legitima novos modelos familiares. Para estas mulheres, as opções disponíveis na Ferticentro incluem a inseminação intrauterina com recurso a dador de esperma, fertilização in vitro (FIV) com esperma doado, dupla doação (óvulos e esperma, para criação de embriões), bem como transferência de embriões doados (criados previamente para outro casal, que decide altruisticamente doá-los). A evidência científica sugere que a maternidade independente através de técnicas de reprodução assistida está associada a dinâmicas familiares positivas. A ausência de um segundo progenitor não parece prejudicar a qualidade da relação mãe-filho nem comprometer o desenvolvimento infantil. Pelo contrário, a intencionalidade desta autonomia reprodutiva, aliada a elevados níveis de compromisso e preparação materna, bem como o apoio da rede social, são determinantemente importantes para os bons desfechos destas estruturas familiares.
Quais as taxas de sucesso atualmente?
Estes tratamentos têm taxas de sucesso que tendem a ser semelhantes ou ligeiramente superiores às observadas em casais heterossexuais, isto porque, tendo em conta que estes tratamentos implicam necessariamente o recurso a dador de esperma, o sucesso do processo de maternidade independente depende sobretudo de fatores femininos. O esperma doado é sujeito a uma seleção rigorosa, reduzindo a variabilidade associada ao contributo masculino.
