Memórias | Fotografia: Unsplash
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"Da minha infância não me lembro de nada": sabes o que é memória genética?

Talvez nunca tenhas ouvido falar no termo memória genética, mas faz parte de todos nós. Francisca Silva Ferreira, psicóloga clínica do Núcleo CASA no Porto, assina este artigo que educa sobre o tema.

Dra. Francisca Silva Ferreira, psicóloga clínica do Núcleo CASA no Porto

Há algo de misterioso em saber que não começamos do zero. O que em nós parece não ter explicação, mas insiste em repetir-se? Trazemos connosco uma história que não temos memória o que não nos permita evocá-la, mas que se manifesta no corpo, nos sonhos, nas repetições da vida. A memória genética é esse fio invisível que liga o que fomos ao que somos: um eco antigo que o corpo escuta mesmo quando a mente procura calar.

O corpo sabe de coisas que a mente desconhece. Será que algumas emoções que sentimos não são totalmente nossas? A ciência chama-lhe epigenética: o estudo de como as experiências de vida deixam marcas químicas no ADN, influenciando a forma como os genes se expressam, sem alterar a sequência genética. Em 2013, um estudo da Universidade de Emory mostrou que ratos expostos a um cheiro associado a um choque elétrico tiveram filhos e netos que também reagiam com medo ao mesmo odor, sem nunca o terem experienciado. Em humanos, a investigação de Rachel Yehuda (Mount Sinai, 2015) encontrou alterações epigenéticas em descendentes de sobreviventes do Holocausto, nos genes ligados ao stresse e ao cortisol. A vida parece escrever nas margens da biologia: herdamos não apenas genes, mas tonalidades emocionais, modos de reagir, silêncios aprendidos antes de nascermos. Há, em cada um de nós, a memória de uma sobrevivência antiga.

“Da minha infância não me lembro de nada.”

“O meu corpo reage antes de eu perceber porquê.”

“Tenho a sensação de já ter vivido isto noutro lugar.”

Talvez o corpo se recorde do que a mente não pode lembrar. Podem existir sintomas que são formas antigas de falar. A psicossomática reflete que o corpo é o palco onde o invisível se torna visível: nas dores sem causa médica, nas insónias que guardam medo, nas alergias ou sintomas que surgem quando a alma não tem voz. Estudos na neurobiologia do trauma (Bessel van der Kolk, 2014) revelam que experiências traumáticas alteram a forma como o corpo regula as emoções e armazena as memórias. O sintoma torna-se então uma linguagem: um pedido de legenda. O que nos dói sem razão aparente poderá ser uma história à espera de ser escutada e traduzida?

A ciência é prudente. Confirma a transmissão de marcas epigenéticas, mas não fala de memórias conscientes. Ainda assim, a psicanálise há muito reconhece essa herança invisível - os segredos, as culpas e os medos familiares que atravessam gerações. Como dizia Françoise Dolto, “o que não é simbolizado numa geração é vivido na seguinte.” Entre a epigenética e o inconsciente relacional parece existir uma mesma linguagem: a do indizível que procura forma. Quantas vezes o corpo fala quando as palavras não chegam?

Talvez o futuro da compreensão humana esteja em unir o que antes parecia separado: a biologia e a emoção, o gene e a história, o corpo e a consciência. A memória genética poderá revelar até que ponto o nosso comportamento é moldado não apenas pelas experiências que vivemos, mas também pelas marcas emocionais e biológicas herdadas. Mostra-nos que cada pessoa é um ponto de encontro entre o passado e o presente – entre o que o ADN escreve e o que a vida pessoal reescreve.

O corpo é a nossa primeira casa, e a infância (a nossa e a dos antepassados) – mesmo quando não nos lembramos dela – é a casa a que voltamos sempre. Perceber essa herança pode transformar a forma como entendemos as emoções, os traumas e os padrões que se repetem. Ao reconhecer as histórias que o corpo traz consigo, abrimos espaço para uma psicologia mais integrada: aquela que acolhe tanto o que é vivido como o que é herdado. Escutar a memória genética e afetiva é aprender a ler o corpo como se lê um diário antigo: com respeito, paciência e curiosidade. Porque só quando reconhecemos o passado que vive em nós é que podemos ter a liberdade de escolher um futuro verdadeiramente novo. No futuro, talvez compreender e curar o humano passe por escutar essa memória silenciosa e transformar o que herdámos em consciência, para que o que antes era repetição se torne, finalmente, escolha.

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