Durante muito tempo, a menopausa foi considerada um assunto tabu e escondida rodeada de ideias erradas, como se fosse uma espécie de fase final para as mulheres, mas, ao longo dos anos, as coisas mudaram e o tema começou a ser falado. Quebraram-se mitos, ideias falsas e muitos passaram a ver a menopausa como apenas mais uma fase da vida, sem desvalorizar a sua importância.
Mesmo assim, ainda existem muitas coisas para esclarecer para os outros, assim como para as próprias mulheres que sentem os efeitos na pele. Há uma nova plataforma que promete facilitar (e melhorar) os dias de muitas. Chama-se Vera.
Falámos com Cláudia Carvalho, empreendedora tecnológica, criadora de plataformas digitais baseadas em Inteligência Artificial (IA) e cofundadora da Webaround AI, um AI Studio que desenvolve ecossistemas digitais autónomos, entre eles a Vera. Ainda em versão beta, esta aplicação promete vir a ser a companheira de que muitas mulheres precisam.
Como surgiu a ideia de criar esta plataforma?
Não li sobre este problema. Vivi-o. Durante três anos tive insónias, ansiedade, brain fog, e a resposta foi sempre "é stress". Andei de médico em médico, gastei dinheiro em consultas que não davam em nada. Três anos para chegar a um tratamento que existe, funciona e é recomendado por todas as grandes sociedades de menopausa.
A parte que me deixou verdadeiramente furiosa veio a seguir, quando comecei a estudar a ciência: a saúde das mulheres quase nunca foi estudada a sério. Até 1993, as mulheres eram praticamente excluídas dos ensaios clínicos, por isso grande parte dos medicamentos que tomamos hoje foi testada sobretudo em corpos de homens.
Faltam dados sobre a qualidade de vida das mulheres ao longo da vida, faltam medicamentos pensados de raiz para elas, e falta informação científica e médica básica sobre os seus próprios corpos. Um exemplo que diz tudo: o Zolpidem, um dos soníferos mais usados do mundo, foi vendido durante cerca de 20 anos na mesma dose para homens e mulheres. Só em 2013 é que a FDA, nos EUA, mandou reduzir para metade a dose recomendada às mulheres, ao perceber que elas eliminam o medicamento mais devagar. Durante duas décadas, milhões de mulheres podem ter tomado o dobro do que precisavam deste medicamento.
A Vera nasce desta necessidade urgente de termos dados para que a ciência e a medicina possam dar respostas às mulheres.
Como define o conceito da plataforma Vera?
A Vera são duas coisas ao mesmo tempo. Para quem a usa, é uma companheira que ajuda a perceber o que se passa no corpo durante a peri e a menopausa: a registar os sintomas ao longo do tempo e a chegar à consulta preparada, com a tua história organizada em vez de "acho que ando mais cansada". Para a ciência, é a camada de dados que a investigação em saúde da mulher nunca teve. De cada vez que registas como te sentes, ajudas-te a ti e, com consentimento e de forma anónima, ajudas a construir a evidência que faltou durante décadas.
Neste momento estamos em beta, com uma versão web em vera-menopause.app, e acabámos de lançar a versão em português. A versão final, já em app, sai no verão.
As ferramentas que as mulheres vão ter na Vera são:
- Registo de sintomas com histórico;
- Respostas com base em evidência;
- Deteção de padrões ao longo do tempo: a Vera mostra-te a tua evolução;
- Preparação para a consulta: um resumo organizado dos teus sintomas e histórico para levares ao médico, com as perguntas certas a fazer;
- Ferramentas SOS: apoio nos momentos difíceis, uma onda de calor, uma noite em claro, um pico de ansiedade;
- Conteúdo educativo: informação clara sobre menopausa e opções de tratamento, sem mitos.
O beta já tem o essencial a funcionar. A versão de verão traz a app e mais profundidade de personalização e comunidade.
Que tipo de mitos e ideias erradas sobre a menopausa pretendem esclarecer?
Há vários e que prejudicam as mulheres. O primeiro é que menopausa é "uns calores", quando na verdade são dezenas de sintomas: sono, humor, ansiedade, dores nas articulações, alterações cognitivas, saúde óssea e cardiovascular. O segundo é que a terapia hormonal é perigosa, uma ideia que vem da leitura errada de um estudo de 2002 e que ainda hoje faz com que se negue cuidado a mulheres que beneficiariam dela. É uma decisão individual, que se toma com o médico, mas que ainda hoje é tratada como tabu sem razão científica.
E depois há o mais silencioso de todos: a ideia de que isto "é da idade" e que se sofre calado. Que se uma mulher tem palpitações às 3 da manhã, a culpa é dela por estar stressada. Não é. É biologia e merece explicação, não um encolher de ombros.
A isto junta-se uma coisa que poucas pessoas percebem: a peri e a menopausa são de uma complexidade enorme. Não são dois ou três sintomas. A Vera acompanha 74 sintomas diferentes, organizados em 15 domínios clínicos. Para se ter uma ideia, a escala que os médicos usam normalmente acompanha 11. É precisamente por ser tão vasto e tão confuso que as mulheres precisam de uma forma de organizar, perceber e dar sentido a esta fase, em vez de andarem a juntar as peças sozinhas. Num estudo nos EUA, apenas cerca de 7% dos médicos residentes se sentiam preparados para tratar a menopausa, e 1 em cada 5 não teve uma única aula sobre o tema durante a especialidade. E, no entanto, até 2030, estima-se que haja 1,2 mil milhões de mulheres em peri e menopausa no mundo.
Que tipo de informações têm de fornecer as mulheres que usam a vossa plataforma?
O que pedimos é feedback sobre aquilo que sabemos serem os sintomas da peri e da menopausa, através de check-ins rápidos. E essa lista é muito maior do que as pessoas imaginam: vai dos muito comuns, como os calores, o sono ou as alterações de humor, até aos mais inesperados, como comichão nos ouvidos, boca ardente ou zumbidos. São sintomas reais, ligados à descida de estrogénio, que quase ninguém associa à menopausa. Pedimos também a fase em que estás, o teu histórico básico e, se quiseres, os tratamentos que fazes. É isso que permite à Vera perceber os teus padrões, em vez de te dar conselhos genéricos.
E há uma coisa importante na forma como tudo isto é recolhido. O onboarding e os check-ins não foram pensados como um diário de sintomas qualquer. Foram desenhados de raiz com estrutura científica, com escalas padronizadas e sempre da mesma forma para todas as utilizadoras. É isso que permite usar os dados em estudos longitudinais, ou seja, acompanhar as mesmas mulheres ao longo de meses e anos, e como evidência de mundo real, a chamada RWE, o tipo de evidência que reguladores como a FDA e a EMA já aceitam para decisões sobre medicamentos.
Então usam sempre evidências científicas para sustentar os insights da app? E que outros tipos de recursos utilizam?
A orientação assenta nas guidelines das principais sociedades científicas de menopausa, como a The Menopause Society, a EMAS e a Endocrine Society, além da OMS e de literatura revista por pares. A diferença para um chatbot qualquer é importante: a Vera não inventa respostas. Vai primeiro buscar a informação a fontes curadas e fiáveis e só depois responde. É a diferença entre ciência e o que se ouve num reel.
E há uma camada que está em movimento constante: os modelos de IA evoluem de semana para semana, e nós adaptamo-nos a isso. Há aqui, inclusive, uma oportunidade que me entusiasma. Com o aparecimento de modelos de IA portugueses, como o Amália, abre-se a hipótese de construirmos um modelo de dados para investigação verdadeiramente “made in Portugal”. Seria poderoso fazer isto a partir daqui.
Há médicos ou especialistas envolvidos no desenvolvimento?
Acabámos de lançar o beta e, por agora, sou eu sozinha à frente do projeto, mas a credibilidade científica é a próxima prioridade. Estou a procurar uma co-fundadora científica, com formação em epidemiologia ou investigação em saúde da mulher, e em conversas para parcerias com instituições públicas e privadas que tragam essa camada clínica e de validação.
Às vezes é preciso alguém dar o primeiro passo. Ter a visão, a iniciativa e construir o suficiente para mostrar que isto é possível. É muito difícil conquistar as pessoas com uma ideia no papel. Com algo real à frente delas, que já funciona, é outra conversa. Foi por isso que li a ciência e percebi exatamente porque é que estes dados não existem e daí construí o protótipo sozinha. Primeiro, queria mostrar que é possível. E é assim que espero trazer as pessoas certas.
Como evitam dar recomendações mais genéricas (um problema comum nestas apps)?
É talvez a parte que mais me importa. A Vera não é uma app de bem-estar geral, tudo o que está dentro da app tem uma fonte científica por trás. As respostas vêm da evidência. E depois há a parte que muda tudo: a Vera regista e aprende contigo. À medida que vais usando, percebe os teus padrões, os teus sintomas, as tuas circunstâncias, e as respostas deixam de ser para “as mulheres” em geral e passam a ser para ti. Informação científica individualizada. Conselhos de nutrição, de atividade física, de gestão de sintomas, pensados a partir do que tu sentes e da tua situação concreta. Quanto mais usas a app, melhores ficam as respostas.
E há ainda um ponto que considero essencial: a Vera não finge ser médica, mas ajuda-te a chegar à consulta com as perguntas certas.
Propõem conversas de grupo na plataforma. Que tipo de benefícios podem ter para as mulheres que participarem?
A menopausa é absurdamente solitária. Muitas mulheres sentem que estão a enlouquecer, têm vergonha, acham que são as únicas. A coisa mais poderosa que podem ouvir é: não és só tu. Isto está a acontecer a milhões de mulheres.
O que esperamos que ganhem é validação (não estou maluca), conhecimento prático de quem já passou por isto, e menos vergonha à volta de um tema que ainda se sussurra. Em saúde da mulher, a confiança constrói-se em comunidade, não em folhetos. É essa dimensão de partilha que estamos a construir, um espaço onde a experiência de uma mulher ajuda a próxima a sentir-se menos sozinha e mais informada.
É uma plataforma apenas para mulheres que estão nesta fase de vida? Ou pode servir para as mais novas saberem mais sobre a menopausa?
A Vera foi pensada sobretudo para mulheres em peri e menopausa. Mas há uma ambição maior: não ficar só por aqui. A saúde e o corpo das mulheres foram tão pouco estudados ao longo do tempo que faz todo o sentido olhar para isto de forma global. A endometriose, a síndrome dos ovários poliquísticos, a infertilidade, a saúde cardiovascular são apenas alguns dos temas que afetam milhões de mulheres e onde também faltam respostas, faltam dados, falta ciência. Começamos pela menopausa, mas a missão é a saúde das mulheres, inteira.
Como esperam que a plataforma evolua? Já têm ideias para os próximos tempos?
O próximo passo concreto é a versão final, em app, no verão, e fazer crescer a comunidade e a base de dados com qualidade. A médio prazo, a camada científica amadurece e começam as primeiras parcerias de investigação. A longo prazo, a ambição é a Vera tornar-se a infraestrutura de dados em que a investigação em saúde da mulher passa a apoiar-se. Já se fez isto na oncologia, podemos fazer o mesmo aqui.
Em paralelo, estamos em processo de angariação de investimento e a concorrer a programas internacionais de referência.
Se tivesse de a descrever de uma forma simples para convencer alguém a usar, o que diria?
A peri e a menopausa são uma fase particularmente difícil. Sentimos que estamos a enlouquecer, que o corpo já não é nosso, que já não somos nós. E é isto que eu diria a qualquer mulher: não, não é da tua cabeça, não é imaginação tua. Existe uma explicação científica e médica para aquilo que sentes. A Vera ajuda-te a perceber toda esta complexidade de sintomas e a recuperar o controlo sobre o teu corpo e sobre a tua vida. Não tens de passar por isto sozinha e confusa. Estamos nisto juntas.
