Mercúrio Retrógrado | Fotografia: Pexels
Mercúrio Retrógrado | Fotografia: Pexels
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"Mercúrio Retrógrado tornou-se o bode expiatório ideal para tudo o que sai fora do plano"

Temos o hábito de temer a chegada do Mercúrio Retrógrado, mas, na verdade, não temos razão para isso. A astróloga Ana Tavares explica porquê.

Muito se fala sobre Mercúrio Retrógrado, que de vez em quando chega para, pensamos nós, desorientar a vida. Mas não podíamos estar mais enganados. 

Longe de ser um fenómeno meramente astrológico relegado ao imaginário popular, o Mercúrio Retrógrado pode e deve ser entendido como um convite à reflexão. Reflexão a que somos também convidados através do novo livro O Poder de Mercúrio Retrógrado, de Ana Tavares, editado pela Albatroz, chancela do Grupo Porto Editora.

Com mais de 15 anos de experiência no estudo dos astros, a especialista leva-nos a conhecer melhor o que é e qual o impacto real do Mercúrio Retrógado nas nossas vidas, sendo, na verdade, essencial para nos reencontrarmos e reorganizarmos. 

Porquê temer o Mercúrio Retrógrado quando tudo o que devíamos fazer é compreendê-lo? É o que explica Ana Tavares à VERSA antes do próximo, marcado para de 18 de julho a 11 de agosto. 

Astróloga Ana Tavares | Fotografia: D.R.

Porque tememos tanto o Mercúrio Retrógrado?

Porque tendemos a confundir o movimento retrógrado com retrocesso – e nada poderia estar mais longe da verdade. O medo nasce quando não compreendemos o que está a acontecer. E Mercúrio Retrógrado, é tantas vezes mal interpretado, tornou-se o bode expiatório ideal para tudo o que sai fora do plano. Mas este planeta não vem criar problemas – vem revelá-los.

O receio nasce de uma cultura que valoriza o fazer constante, a rapidez, o controlo. Mercúrio Retrógrado desfaz essa ilusão de controlo. Expõe falhas de comunicação, revela as distrações, desmonta as pressas, mas não para nos castigar, mas para nos despertar. É uma "travagem" simbólica no tempo para que possamos recuperar sentido.

Vivemos num tempo em que parar é cada vez mais desconfortável. Rever é visto como uma fraqueza. Refletir é considerado uma perda de tempo. E Mercúrio Retrógrado convida-nos a fazer exatamente isso: abrandar, voltar atrás, escutar o que foi ignorado, corrigir rotas e resgatar verdades. Não é fácil, mas é profundamente necessário.

Porque ele obrigar a rever, a tocar nos pontos onde nos custa olhar: nas conversas adiadas, nas decisões apressadas, nos detalhes esquecidos. Ele não atrapalha. Apenas mostra, com clareza, onde precisamos de ter mais consciência. E isso, para muitos, efetivamente é desconfortável. Mas para quem está disposto a crescer, é muitas vezes libertador.

Mercúrio Retrógrado ensina que é muitas vezes neste voltar atrás, que tantas vezes encontramos as respostas que faltavam. Mercúrio não nos trava, ele alinha-nos. Mostra o que precisa de ser ajustado, dito com verdade, pensado com clareza.

Este não é um tempo de evitar – é um tempo de estar. E quem aprende a escutá-lo deixa de temer o seu movimento para começar a colher os frutos da sua sabedoria.

Apresenta Mercúrio Retrógrado como uma oportunidade em vez de um obstáculo. Que benefícios pode este período trazer ao nosso crescimento pessoal?

Mercúrio Retrógrado é uma travessia interior. Um momento raro em que o cosmos nos convida a sair do ruído do mundo e voltar a escutar a nossa voz mais autêntica. Enquanto muitos o veem como um obstáculo, ele é, na verdade, um portal – um espaço entre o que fomos e aquilo que podemos vir a ser.

Durante este ciclo, somos chamados a revisitar ideias, ajustar escolhas, reavaliar rotinas, restabelecer diálogos e, sobretudo, a refletir sobre a forma como estamos a comunicar connosco e com o mundo. É um tempo fértil para perceber o que tem sido feito por hábito e não por verdade. E essa consciência, por si só, é profundamente transformadora. O que antes parecia atraso, revela-se oportunidade para refinar. O que parecia confusão, transforma-se em clareza quando olhado com paciência.

Mercúrio Retrógrado não impede o progresso – ensina a alinhar a direção. Porque crescer nem sempre é andar para a frente: muitas vezes, é parar, rever e, só depois, avançar com mais consciência. Este ciclo pede-nos maturidade. Convida-nos a escutar com mais profundidade, a falar com mais intenção, a pensar com mais verdade. Quem aceita esse convite, descobre que há uma inteligência maior a trabalhar nos bastidores – e que tudo o que parecia “contra” está, na realidade, a favor de uma versão mais lúcida e inteira de nós mesmos.

"O Poder de Mercúrio Retrógrado", de Ana Tavares

De que forma cada signo pode tirar partido das particularidades de Mercúrio Retrógrado, em vez de apenas sofrer os seus efeitos?

O Mercúrio Retrógrado não atua da mesma forma em todos nós. Cada signo, com a sua linguagem própria, recebe este ciclo de forma diferente. E é justamente aí que está a chave: reconhecer a qualidade única do nosso arquétipo e usá-la a favor do processo.

– Carneiro: podemos usar este tempo para rever decisões tomadas por impulso e perceber que agir com consciência é tão poderoso quanto avançar com coragem;

– Touro: somos convidados a reavaliar a rigidez das rotinas e a abrir espaço para novas formas de pensar o conforto e a segurança;

– Gémeos: regido por Mercúrio, encontra aqui a oportunidade de desacelerar a mente, aprofundar as ideias e escutar mais do que falar;

– Caranguejo: podemos revisitar memórias, curar a forma como comunica as emoções e libertar padrões familiares que já não servem;

– Leão: desafia-nos a repensar a expressão do ego e a alinhar o que diz com aquilo que sente e vive na intimidade;

– Virgem: também regido por Mercúrio, pede refinar os detalhes, rever as rotinas, os sistemas de organização e trazer mais leveza à autocrítica;

– Balança: é a oportunidade de clarificar relações, renegociar acordos e reequilibrar a forma como escuta e partilha;

– Escorpião: pode ser um tempo para investigar verdades internas, revisitar promessas silenciosas e comunicar o que estava guardado;

– Sagitário: convida-nos a rever crenças, questionar certezas e reavaliar os caminhos que escolheu seguir;

– Capricórnio: é tempo de repensar as responsabilidades, reestruturar prioridades e abrir espaço para uma comunicação mais autêntica;

– Aquário: é um convite a escutar com mais presença e a rever a forma como transmite ideias inovadoras sem perder o vínculo humano; 

– Peixes: podemos aprofundar a escuta da intuição e clarificar aquilo que antes parecia difuso ou apenas sentido.

No fundo, cada signo encontra em Mercúrio Retrógrado um espelho diferente, mas todos recebem o mesmo convite: parar, rever e alinhar. Quando escutamos esse chamamento de forma consciente, deixamos de sofrer o ciclo… e começamos a cooperar com ele.

Propõe estratégias práticas para lidar com os imprevistos típicos desta fase. Pode partilhar alguns exemplos simples que qualquer pessoa possa aplicar no dia a dia?

No Mercúrio Retrógrado não exige dramatismo, exige consciência. Pequenos gestos diários, quando feitos com intenção, podem fazer toda a diferença. Eis três práticas simples e eficazes que qualquer pessoa pode adotar:

– Rever antes de reagir: seja numa conversa, num e-mail ou numa decisão importante – respirar, reler, rever. A maioria dos mal-entendidos durante este ciclo nasce da pressa e da resposta automática. O silêncio, por vezes, é mais sábio do que uma resposta imediata;

– Confirmar tudo o que parecer “óbvio”: horários, moradas, datas, compromissos. Não assumir, mas verificar. O Mercúrio Retrógrado é mestre em expor lapsos de atenção. O que parece pequeno pode ter impacto se não for cuidado;

– Organizar antes de começar algo novo: em vez de iniciar projetos de raiz, aproveitar para concluir o que ficou pendente, reorganizar ideias, repensar estratégias. Este é um tempo fértil para limpar ruído e alinhar intenções.

O livro está repleto de sugestões práticas como estas, adaptadas à vida real e aos ritmos de quem deseja viver este ciclo com mais consciência e menos resistência. Porque o Mercúrio Retrógrado não se evita, aprende-se a atravessar com sabedoria.

O livro desmistifica muitos dos alarmismos comuns nas redes sociais. Que mitos considera mais prejudiciais e como este livro os desconstrói?

Um dos mitos mais nocivos é a ideia de que, durante o Mercúrio Retrógrado, tudo corre mal. Esta visão exagerada e simplista transforma um ciclo natural num inimigo cósmico, alimentando o medo e afastando as pessoas da verdadeira essência da astrologia. Quando se acredita que "nada deve ser feito", que "tudo falha", ou que "é melhor esperar que passe", o livre-arbítrio fica paralisado e o entendimento e as oportunidades perdem-se.

Outro erro comum é tratar o Mercúrio Retrógrado como um fenómeno igual para todos, ignorando os mapas natais, os signos envolvidos e os contextos individuais. Esta visão generalista empobrece a leitura astrológica e afasta-nos da subtileza que este ciclo exige.

O livro desconstrói estes alarmismos com conhecimento sólido, linguagem acessível e propostas conscientes. Em vez do medo, oferece clareza. Em vez da superstição, ensina observação. Através de explicações simbólicas, orientações práticas e exemplos reais, o leitor é guiado para uma nova forma de viver o Mercúrio Retrógrado, sem dramatismo, sem rigidez, e com mais poder pessoal.

Desmistificar é devolver às pessoas o direito de confiar nos ciclos, e acima de tudo, em si mesmas. É isso que este livro faz e é isso que o diferencia.

Acredita que uma abordagem mais consciente deste fenómeno pode transformar a forma como encaramos os nossos desafios e processos de decisão enquanto estamos sob o efeito do Mercúrio Retrógrado?

Acredito profundamente. Quando nos relacionamos com Mercúrio Retrógrado de forma consciente, deixamos de viver este ciclo como uma ameaça e passamos a reconhecê-lo como uma ferramenta poderosa de realinhamento interior.

Este não é um tempo para parar a vida, é um tempo para viver com mais lucidez. Quando aceitamos o convite que este período nos faz, para rever, repensar, refinar,  as decisões tornam-se mais sábias, os diálogos mais autênticos e os desafios, oportunidades de clareza.

Uma abordagem consciente não elimina os imprevistos, mas transforma a forma como os atravessamos. Em vez de resistir, escutamos. Em vez de reagir, observamos. E é nesse espaço de pausa e presença que ganhamos margem para escolher com mais verdade.

O Mercúrio Retrógrado não vem para nos confundir, vem para nos devolver ao essencial. E quando o vivemos com consciência, ele deixa de nos atrapalhar... e começa a revelar o que já estava a pedir transformação. 

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