Existem histórias que se constroem com estratégia. Outras, com tempo. Já a da Mesh constrói-se com ambos — e com algo mais raro: continuidade. Nascida de um legado familiar com 75 anos na ourivesaria portuguesa, a marca afirma-se hoje com uma identidade própria, contemporânea e ambiciosa, sem nunca perder o fio que a liga às suas origens.
Tudo isto valeu o prémio na categoria de "Best Fashion Jewellery" na primeira edição dos VO Award, uma cerimónia inserida na Vicenzaoro, uma das mais relevantes feiras internacionais de joalharia, com o anel Lisa.
Por isso, a VERSA esteve à conversa com João Barbosa — cofundador da marca — para falar sobre a família, ambição global e o nó simbólico que une três gerações numa mesma visão.
Durante uma das mais importantes feiras internacionais de joalharia, a Vicenzaoro, a Mesh recebeu uma distinção. O que representa este prémio para a marca?
Representa uma validação muito importante do caminho que temos vindo a fazer. É o reconhecimento de que uma marca portuguesa, assente em 75 anos de legado familiar na ourivesaria, numa visão contemporânea e que pode ter relevância num palco internacional.
Para mim, é também a confirmação de que a nossa missão de democratizar a joalharia — tornando-a acessível sem comprometer qualidade — faz sentido. E senti-o como um reconhecimento do trabalho diário da equipa e da história que está por trás da Mesh.
O júri era composto por líderes da indústria o que ainda mais relevância dá maior ao prémio como Nicolo Rapone, COO da Bvlgari, Stéphanie Hernandez Barragan, CMO Galerias Lafayette ou Bijoux Review, editor-in-chief da Forbes Fine Jewellery. Além disso estavam 85 marcas globais líderes de merca a concurso (Ti Sento Milano, Nomination ou PDPaola).
Como foi apresentar a marca num contexto tão competitivo e internacional?
Foi exigente, mas muito enriquecedor. Nestes palcos internacionais somos obrigados a ter clareza sobre quem somos. Senti que a Mesh conseguiu afirmar-se com autenticidade, não só pelo produto, mas pelo projeto de marca como um todo — lifestyle, lojas, comunicação. Não fomos apenas apresentar uma peça, fomos apresentar uma visão.
É um orgulho enorme. Levamos connosco não só a Mesh, mas também uma tradição portuguesa de ofício, criatividade e capacidade produtiva. Para mim, tem também um lado pessoal, porque esta marca nasce de uma história familiar.
Como foi o momento em que souberam que tinham vencido os VO Awards na categoria "Best Fashion Jewellery"?
Foi um momento de surpresa genuína e de muita emoção.
Estávamos num contexto altamente competitivo, rodeados de marcas muito fortes. Ouvir o nome da MESH teve um impacto grande. O primeiro sentimento foi orgulho. O segundo foi gratidão — pensei imediatamente na equipa e na família que construiu esta base ao longo de décadas.
Só o facto de termos sido selecionados como finalista já tinha sido um momento de enorme surpresa e alegria.
Que impacto esperas que esta distinção tenha na projeção internacional da Mesh?
Espero que reforce confiança junto de compradores, distribuidores e parceiros. E já tivemos resultados concretos: nesta edição fechámos distribuição para a Grécia, Suíça e Croácia. Isso é importante porque mostra que o reconhecimento não ficou apenas na imagem — traduziu-se em negócio real e expansão internacional.
O prémio que conquistaram avalia critérios como sustentabilidade, inovação, excelência e diferencial de vendas. Qual destes melhor distingue a Mesh?
Diria excelência, entendida como melhoria contínua. Temos uma cultura muito forte de afinar detalhe, rever processos, melhorar produto e experiência. Trabalhamos com metodologias lean e uma lógica constante de otimização. A excelência, para nós, não é um estado — é um processo.
Além disso, o que facto de gerirmos e termos connosco toda a cadeia de valor (desde a produção à comercialização da nossa marca) é algo que nos distingue e muito raro de ver a nível mundial. Foi algo que construímos ao longo do tempo, fruto de muito trabalho. De facto, consideramos que para atingir a excelência a inovação e a sustentabilidade está intrínseco.
O anel Lisa, da coleção The Knot Edit, foi a peça vencedora. O que torna este anel especial?
O Lisa tem uma presença forte, quase escultural, mas mantém uma elegância muito usável. Essa tensão entre impacto e simplicidade é algo que nos define. É uma peça que se afirma sem exagero, com intemporalidade. Nos dias de hoje fala-se muito da inovação sob o ponto de vista tecnológico. Quisemos provar que é possível inovar utilizando o nosso legado tradicional mas tornando-o moderno.
Há uma história ou inspiração particular por detrás do anel Lisa?
Sim, a The Knot Edit [nome da coleção em que o anel está inserido] nasce do símbolo do nó — união, continuidade, força. Mas também tem uma dimensão pessoal: representa ligação entre gerações. Sendo a terceira geração a criar marca própria, há uma leitura muito simbólica nesse gesto. Além disso, utilizamos máquinas que tinham sido criadas pelo meu avô para a criação da coleção mas adaptando as peças com a nossa visão para a mulher contemporânea.
Esta coleção é 100% feita à mão. Essa componente artesanal continua a ser central na identidade da Mesh?
Sem dúvida, a nossa base está no saber-fazer tradicional. A herança familiar traz-nos uma bagagem muito grande em termos técnicos, de conhecimento da matéria e respeito pelo tempo do processo.
Podemos ter uma linguagem contemporânea, mas o gesto artesanal continua no centro. Queremos joias intemporais, que transportem história e que sejam autênticas.
O conceito de joias a preços acessíveis é uma aposta clara da marca. Como equilibram design, qualidade e acessibilidade?
Não se trata de baixar preço, mas de criar valor acrescentado através de eficiência e decisões conscientes. Trabalhamos processos lean, melhoria contínua e controlo rigoroso de produção. Isso permite-nos oferecer joalharia com qualidade real e identidade própria a um preço acessível. Democratizar não é simplificar — é otimizar.
Sustentabilidade é hoje um critério determinante na indústria. Como é que integram práticas sustentáveis no processo criativo e produtivo?
Para nós, sustentabilidade é prática. Passa por usar prata reciclada, reduzir desperdício, otimizar processos e tomar decisões responsáveis ao longo da cadeia de valor. É um trabalho contínuo, não um argumento de marketing.
Inovação na joalharia pode significar muitas coisas — design, materiais, comunicação. Onde sentes que a Mesh está a inovar?
Está na combinação entre herança artesanal e linguagem contemporânea, mas também na transformação estratégica que fizemos: passámos de uma lógica mais focada em private label para construir uma marca com identidade própria, projeto de lifestyle e relação direta com o consumidor. Isso foi uma mudança estrutural importante.
O consumidor está mais exigente? O que mudou no mercado nos últimos anos?
Muito mais. Hoje o consumidor quer coerência entre produto, preço, valores e marca. Pesquisa, compara e questiona. Isso obriga-nos a ser mais consistentes e transparentes — o que é positivo para o setor.
A joalharia portuguesa tem vindo a ganhar notoriedade. Sentes que estamos a viver um novo momento no setor?
Acredito que sim. Vejo mais ambição, melhor posicionamento e mais consciência estratégica. Portugal sempre teve qualidade produtiva; agora começa a afirmar-se também em branding e identidade.
Quais são os próximos passos da Mesh após este reconhecimento?
Executar bem. Consolidar os mercados que abrimos, acompanhar os parceiros e continuar a investir em coleção, comunicação e estrutura. Queremos crescer com consistência, não apenas com velocidade.
Qual foi o maior desafio até aqui?
Crescer sem perder foco. Houve momentos em que foi preciso escolher e manter coerência. Construir marca exige paciência, clareza e resistência.
Quando criaste a Mesh, imaginavas chegar a este tipo de reconhecimento internacional?
Havia ambição, mas parecia distante. No início estamos focados em aprender e sobreviver. Chegar aqui prova que consistência ao longo do tempo cria resultados que, no início, parecem quase inalcançáveis.
