A Met Gala 2026 decorreu, como dita a tradição, no Metropolitan Museum of Art, em Nova Iorque, reunindo a elite da moda, do cinema e da cultura para celebrar o tema deste ano: “Costume Art”, com um dress code aberto à interpretação: “Fashion is Art”.
Mas, ao contrário de outras edições onde os vestidos extravagantes dominam a conversa, este ano a maior polémica não esteve na passadeira vermelha. Esteve, sim, na própria gala. A associação ao financiamento da Amazon, liderada por Jeff Bezos, desencadeou críticas, protestos e até apelos ao boicote por parte de várias figuras públicas e ativistas.
Apesar disso, a noite não ficou vazia: é verdade que houve ausências notadas, mas também uma forte presença de celebridades que decidiram marcar posição, ou simplesmente não abdicar do maior palco da moda mundial.
Mão portuguesa na passadeira vermelha
Entre os nomes mais elogiados da noite destacou-se Emma Chamberlain, que surpreendeu com um look criado pela casa Mugler sob direção do designer português Miguel Castro Freitas. O look partiu de uma ideia simples, mas poderosa: transformar o corpo da própria Emma numa obra de arte viva. E não foi apenas uma metáfora.
A peça foi inteiramente pintada à mão pela artista Anna Deller-Yee, num processo que demorou cerca de 40 horas, com dezenas de cores misturadas manualmente para criar um efeito pictórico complexo. O resultado foi um vestido que parecia saído de uma tela, com pinceladas visíveis, cores em transição – do amarelo ao azul profundo – e uma textura que evocava pintura a óleo e aguarela.
E há ainda um detalhe que poucos sabem: o vestido tinha uma forte componente autobiográfica, uma vez que Emma inspirou-se no trabalho do pai, pintor, e em artistas como Van Gogh ou Munch.
Outra presença incontornável foi Anna Wintour, figura central do evento e uma das co-chairs do Costume Institute Fundraiser desde 1995, que este ano terá tido um papel determinante em garantir que a gala avançava apesar da controvérsia. Vestida de Chanel por Matthieu Blazy, apostou num look bem recente, da coleção de verão 2026 da Maison.
E agora temos de falar de Georgina Rodríguez, uma das figuras que mais curiosidade despertou, não tanto pela extravagância, mas pela carga simbólica do seu look. Georgina surgiu com um vestido em tom verde-água assinado por Ludovic de Saint Sernin, que conjugava uma silhueta altamente estruturada, com corset marcado, com elementos etéreos e quase religiosos.
O detalhe mais marcante era o véu longo em tule, delicadamente bordado, que cobria parcialmente a cabeça e caía sobre a cauda do vestido. Este elemento remetia diretamente para a iconografia católica, reforçando a inspiração assumida em Nossa Senhora de Fátima.
Mas há ainda outros nomes a destacar. É o caso de Anne Hathaway – de novo na ribalta devido ao relançamento do filme O Diabo Veste Prada – que surgiu com um vestido Michael Kors adornado com uma pomba branca pintada à mão. Num contexto internacional marcado por conflitos, o símbolo de paz funcionou como uma das raras declarações políticas claras na passadeira vermelha.
Por fim, Sabrina Carpenter brilhou num vestido Dior feito literalmente a partir de tiras de película de cinema, numa homenagem direta ao filme de 1954 Sabrina, e Hunter Schafer destacou-se pela fidelidade ao tema com um look Prada inspirado no quadro Mäda Primavesi, de Gustav Klimt,.
Entre o glamour e o boicote
Ainda que o desfile de criatividade tenha cumprido o tema “Fashion is Art”, a gala ficou inevitavelmente marcada pelo debate em torno da sua associação a Jeff Bezos.
Algumas figuras optaram mesmo por não comparecer e entre as ausências mais comentadas estiveram nomes como Zendaya, presença habitual e muito aguardada na passadeira vermelha, e Billie Eilish, que nos últimos anos se afirmou como uma das vozes mais influentes na indústria da moda sustentável.
Também Timothée Chalamet, conhecido pelas suas escolhas arrojadas em eventos deste género, e Taylor Swift, frequentemente associada a momentos marcantes na gala, terão optado por não marcar presença este ano.
Uma gala que reflete o seu tempo
Sem vestidos verdadeiramente “escandalosos”, a Met Gala 2026 ficará na memória como a edição em que o foco saiu da roupa e passou para o contexto. A moda continuou a ser arte, mas, desta vez, a discussão maior foi sobre quem a financia, quem a representa e o que isso diz sobre o mundo atual.
