Todos os caminhos vão dar a Lisboa nos próximos dias, pelo menos no que diz respeito à moda, claro. É na capital que está a acontecer, até domingo, 15 de março, a 66.ª edição da Lisboa Fashion Week, o evento que dá palco ao melhor da moda de autor feita em Portugal.
Sob o conceito Pebbling, o evento leva conversas, apresentações e desfiles, a espaços como o MUDE - Museu de Design, o CAM - Centro de Arte Moderna Gulbenkian e o Pátio da Galé, o epicentro da programação.
Nomes como Luís Carvalho, Gonçalo Peixoto, Luís Onofre e Nuno Baltazar estão em destaque e esperam-se dias de agenda cheia, mas, mais do que uma forma de apresentação de novas coleções, o evento afirma-se como uma plataforma de reflexão sobre o papel da moda num mundo marcado por transformação tecnológica, desafios ambientais e novas formas de relação entre criadores, indústria e sociedade.
Para entender as intenções desta edição, a VERSA conversou com a diretora executiva da ModaLisboa. Joana Jorge falou-nos sobre o significado de pebbling, a importância da plataforma no contexto atual da moda portuguesa e internacional, mas também sobre a forma como a ModaLisboa continua a reinventar os seus formatos e a explorar novas formas de apresentar moda.
De que forma se posiciona o conceito desta edição perante o atual clima social, político e económico, e que leitura crítica propõe sobre o momento que a moda atravessa?
O nosso tema pebbling surge de uma reflexão. Quisemos fazer uma coisa interativa que fosse dialogando com a sociedade. Falamos muito sobre o digital e sobre como todos os dias nos monitorizam, muitas vezes, sem termos essa consciência. Foi a partir daí que chegámos ao pebbling, uma palavra que vem do digital e de pequenos gestos no online, seja quando enviamos um meme ou uma reação a alguém.
E, na realidade, um pouco se calhar em contraciclo, este tema não pretende ser uma crítica nem ao sistema da moda, nem ao que acontece hoje em dia no contexto social e político — um contexto difícil, temos essa consciência.
Quisemos fazer algo humano, solidário e com um lado de partilha para reforçar a ideia de que estamos todos em ecossistema e que fazemos parte da mesma rede, mas também de que este ecossistema tem mais-valias.
Daqui surgiu a ideia de trabalhar uma imagem com os ZABRA que fizeram a direção criativa da campanha. Fizemos uma publicação no Instagram em que lançámos um call [to action], recolhemos contributos de várias pessoas da nossa comunidade e, a partir daí, através de um algoritmo de Inteligência Artificial, acabamos por traduzir isso em coordenadas, num volume tridimensional dimensional e, depois, numa textura.
É uma mensagem que não deixa de ser política, mas de diálogo e de trabalho em rede.
Num período marcado por incerteza económica, pressão ambiental e transformação dos modelos de consumo, como pode a Moda Lisboa contribuir para repensar os desafios estruturais da indústria da moda em Portugal?
É sim, as questões ambientais e sociais estão na génese do nosso trabalho, ou seja, a ModaLisboa, sendo uma associação sem fins lucrativos com mais de 30 anos de existência e de trabalho continuado, acaba por ter sempre uma preocupação em promover a moda de autor e independente em Portugal.
Estamos sempre a falar de moda e de trabalhá-la com a sua dimensão criativa, com a sua dimensão autoral, mas também com a sua dimensão de produção responsável em escalas que são relativamente pequenas, muito nesta valorização do saber fazer e da qualidade.
Promovendo, assim, um diálogo junto dos profissionais da moda, mas também do público mais alargado e da sociedade. Realçando que todos podemos ter melhores hábitos de consumo, consumir local e menos.
É um trabalho de fundo que fazemos ao longo do ano e não são só nas edições da Lisboa Fashion Week. Também organizamos exposições, conversas e fazemos parte de muitas redes internacionais de diálogo e de debate.
Temos consciência de que hoje em dia a moda, pela escala e velocidade que tem, precisa de ser repensada. Procuramos responder a isso com as coleções dos designers que são embaixadores de uma outra forma de fazer, mas também com os nossos momentos em que temos conversas, na oferta de conteúdos para a cidade e sempre numa perspetiva de dialogar e de informar a sociedade em geral.
Esta edição propõe-se ir além da apresentação de coleções? Que provocações, discursos ou dimensões mais experimentais podem desafiar a forma tradicional de pensar e apresentar moda?
Nesta edição, destacaria que temos dois momentos de conversas. Começamos com as Fast Talks, integradas na parceria entre a ModaLisboa e o CAM, numa lógica de pensar em conjunto a moda e as artes visuais, o futuro, a tecnologia, a criatividade e o diálogo entre disciplinas.
Temos ainda as Moda Portugal Talks que acontecem no MUDE, onde acontece um painel muito interessante que nos leva a refletir sobre a ponte entre o design de autor e a realidade industrial de Portugal. Dá a conhecer melhor os esforços que estão a ser feitos pelos designers e pela indústria de aproximação para reforçar este ecossistema.
Para além disso, no CAM, acontece a apresentação da Kolovrat que além de convidados privados, estará aberta para a cidade. Depois a coleção vai estar disponível até segunda-feira em formato de instalação. Qualquer pessoa pode visitar este espaço para conhecer a moda de outras formas. Não é só em desfile. Há que olhar para o vestuário, o conhecimento e a investigação conceptual que está por trás de uma coleção.
No MUDE também temos duas apresentações de designers — do Ricardo Andrez e da Roselyn Silva — e depois temos a nossa programação habitual de desfiles e apresentações.
Que novidades estruturais ou criativas distinguem esta edição das anteriores — seja ao nível dos formatos de apresentação, parcerias estratégicas ou experiências pensadas para o público?
Diria, a pop-up, no Museu do Design, o nosso convite à cidade para ficar a conhecer em mais detalhe os nossos designers, o talento e a criatividade que existe no seu trabalho. Porque todos fazem parte desta conversa, não é só para as pessoas que são interessadas em moda. É para todos.
Temos obviamente uma aposta muito grande no streaming. Para além do streaming na RTP, contamos com o streaming em alguns pontos da cidade de Lisboa, o resultado de uma parceria com a MOP. Também vão estar disponíveis live streams dos desfiles no exterior do evento, onde está uma instalação de grande escala de moda portuguesa, criada em diálogo com o CENIT/ANIVEC e, por isso, com uma lógica industrial.
Tudo nesta ideia de abrir o evento à cidade e de fazer com que os dias de Moda Lisboa sejam para celebrar a moda, o talento e a criatividade deste nosso ecossistema.
Há alguma estreia a destacar no programa deste ano?
Destacaria a Roselyn Silva que se apresentou pela primeira vez na Moda Lisboa na última edição, mas com um formato mais performativo e mais pequeno, na Fashion House. Já nesta edição vai apresentar com grande prestígio no MUDE.
É uma designer com quem nós temos iniciado este diálogo e por quem temos muita admiração. Vemos com muito orgulho essa integração em calendário.
Como poderá esta edição refletir as tendências internacionais sem perder a identidade da moda portuguesa?
Temos vindo a fazer esse trabalho ao longo dos anos para diferenciar a Moda Lisboa das restantes fashion weeks. Obviamente, que mostrar moda em Lisboa é diferente de fazê-lo em Milão, Londres ou Paris.
Trabalhamos a partir do nosso ecossistema, a partir da nossa cidade e tendo como coorganizador a Câmara Municipal de Lisboa. Temos muito orgulho em dar oportunidade ao nosso público e aos nossos convidados internacionais para descobrirem Lisboa em situações diferentes. Queremos dar a conhecer a cidade e o talento da melhor forma.
Sendo a Moda Lisboa uma das poucas plataformas consistentes de promoção da moda portuguesa, que responsabilidade cultural e industrial assume hoje na construção de novas oportunidades para criadores, marcas e para a projeção internacional do setor?
A ModaLisboa faz esse trabalho de uma forma continuada. Estamos em diálogo permanente com várias instituições e associações. Fazemos pontos entre os designers e a indústria de uma forma frequente.
Nós acreditamos que isso faz parte do nosso trabalho: criar oportunidades, estabelecer pontos entre os vários pontos deste ecossistema. Quer seja na parte do negócio, no saber fazer, na produção, na distribuição. É algo que fazemos no dia a dia, nos eventos, obviamente em momentos de aproximação de networking, mas que fazemos ao longo do ano de uma forma privada, monitorizando as necessidades dos vários designers, parceiros. Procurando sempre responder a essas necessidades, potenciar e ganhar ferramentas para o ecossistema.
Já devem estar a pensar na próxima edição da ModaLisboa. O que podemos esperar do futuro do evento?
Temos consciência de que a moda está numa fase de transformação que acontece globalmente. Há uma mudança no consumidor e no que as pessoas procuram. Por isso, como direção procuramos novos formatos e, se calhar, além dos desfiles, segmentar mais e ter mais ofertas diferenciadas. Seja isso em termos de exposições, conteúdos mais informativos, pedagógicos e culturais; seja a trabalhar um lado mais experimental e multidisciplinar da moda, no qual sempre acreditamos.
No fundo é isso. Trabalhar a moda de uma forma holística porque não é só a roupa, nem são apenas os desfiles, são várias referências. É por isso que os jornalistas internacionais que nos visitam têm alguma fidelização connosco. Sabem que além de termos uma equipa excecional, acabam por vir sempre descobrir algo diferente.
A nossa aposta também é os jovens designers. Há uma dimensão livre e criativa de Lisboa que outras cidades maiores não têm. É isso que nos distingue. É isso que procuramos continuar a trabalhar para conseguirmos crescer e evoluir.
