"Print is alive": a moda como suplemento num universo editorial em mutação
"Print is alive": a moda como suplemento num universo editorial em mutação | Fotografia: Mondadori, Getty (1966)
Coolhunting

"Print is alive": a moda tem um novo mantra

A moda como suplemento num universo editorial em mutação. Cláudia Pinto, diretora de comunicação da APICCAPS, assina este artigo de opinião.

Cláudia Pinto, diretora de comunicação da APICCAPS

“Print is alive” tornou-se uma espécie de mantra. Repete-se um pouco por todo o lado. E talvez ainda bem que assim o é. Talvez o papel precise precisamente disso: de uma afirmação repetida até (voltar) a ganhar a força de evidência, até deixar de soar a resistência nostálgica e passar a ser lido como aquilo que é: uma forma de presença, de permanência no futuro e, em último caso, até de autoridade.

Porque, apesar de todas as virtudes do digital, há experiências que continuam a pertencer ao impresso. A moda é uma delas. Não há ecrã que substitua verdadeiramente o gesto de folhear uma revista, a pausa diante de um editorial, a forma como uma campanha se inscreve no papel com o tempo necessário para ser observada. O online trouxe velocidade, alcance, circulação, clique e um acesso de segundos, ou nanossegundos, à imagem. Mas o papel continua a oferecer aquilo que o digital raramente concede: contemplação, contexto e memória. E, além disso, uma permanência no tempo.

Em Portugal, o recente lançamento da Esquire é um sinal claro de que o investimento no impresso continua a fazer sentido quando vem acompanhado de ambição editorial, exigência gráfica e vontade de construir um objeto que se guarda, e não apenas se consome, como um objeto de arte. Mas, olhando para o panorama internacional, o que se percebe é que o regresso - ou, pelo menos, a resistência - das revistas de moda impressas está a acontecer de uma forma particularmente interessante. Cada vez mais, a moda parece encontrar no jornal um novo lugar de afirmação.

Não é apenas uma questão de distribuição, é antes uma mudança de ecossistema. As revistas de moda, lifestyle e luxo estão, em muitos casos, a surgir ou a consolidar-se como suplementos de grandes jornais, integradas em marcas editoriais robustas, associadas a públicos exigentes e a universos de influência, cultura e poder de compra. Num mercado em que a autonomia financeira das revistas se tornou mais frágil, o jornal oferece escala e contexto. Em último caso oferece legitimidade. A moda, por sua vez, oferece ao jornal um território de desejo, imagem, consumo e prestígio que hoje já não pode ser visto como periférico.

A WSJ. Magazine, distribuída com a edição de fim de semana do The Wall Street Journal, é um dos exemplos mais claros desta lógica. A revista move-se entre moda, design, cultura e lifestyle, mas fá-lo a partir de um jornal cuja identidade está profundamente ligada aos negócios, à economia e às elites globais. O mesmo acontece com a HTSI, do Financial Times, que fez do luxo, das viagens, da moda e do consumo informado uma extensão

quase natural do universo do jornal. Em ambos os casos, a moda não surge como um desvio face ao ADN editorial do título-mãe; surge, pelo contrário, como uma continuação sofisticada daquilo que esse jornal já representa junto do seu leitor.

Mas talvez o mais interessante seja perceber que este movimento não se limita à imprensa económica. O The New York Times detém a T, o Le Monde publica a M, e em Itália a D la Repubblica permanece como um dos casos mais reveladores desta transformação. Publicada com o la Repubblica desde 1996, a D é muito mais do que um suplemento feminino no sentido tradicional do termo. É um espaço onde a moda convive com cultura, sociedade e lifestyle, mostrando até que ponto o suplemento pode deixar de ser um apêndice do jornal para se afirmar como um título com identidade própria. (A escolha de Emanuele Farneti, antigo diretor da Vogue Italia, para dirigir a publicação reforça precisamente essa ambição).

Em Portugal, o fenómeno já tem alguma expressão. O Observador Lifestyle é um exemplo relevante desta aproximação entre jornal e revista, que nasce no seio do universo editorial do Observador. A publicação em papel foi pensada como uma revista de lifestyle dedicada à criatividade, ao design, à moda, às viagens e ao “bem feito” em Portugal.

A VERSA, por exemplo, é hoje um suplemento associado a um título de imprensa: a revista, editada pela Media Capital, passou a sair em papel com o semanário Nascer do SOL, assumindo-se como uma publicação de lifestyle, cultura, gourmet e sociedade.

A Ímpar entra também nessa conversa: mais do que uma revista de moda em sentido estrito, funciona como objeto editorial de lifestyle, tendências, cultura e consumo, e ajuda a mostrar como o território da moda em Portugal tende a surgir diluído em publicações mais amplas, em vez de se afirmar autonomamente como “fashion magazine” pura.

Este exercício serve apenas para perceber que a moda impressa não desapareceu; está a reposicionar-se dentro de grandes universos editoriais, muitas vezes como suplemento de jornais de referência. E isto revela que o print resiste, e que se tem vindo a reorganizar e a procurar as condições certas para continuar a ser relevante. E, olhando para o que acontece além-fronteiras, a resposta parece cada vez mais evidente. A moda impressa não desapareceu. Mudou de casa. E, em muitos casos, essa nova morada tem a solidez, a escala e a autoridade de um jornal.

Gourmet

É a 2 horas do Porto que encontras um dos "restaurantes mais mágicos da Europa"

Há quem faça viagens longas para comer em sítios incríveis, mas, na verdade, só precisas de andar duas horas de carro a partir do Porto para conhecer um restaurante que muitos consideram mágico.

Coolhunting