“Print is alive” tornou-se uma espécie de mantra. Repete-se um pouco por todo o lado. E talvez ainda bem que assim o é. Talvez o papel precise precisamente disso: de uma afirmação repetida até (voltar) a ganhar a força de evidência, até deixar de soar a resistência nostálgica e passar a ser lido como aquilo que é: uma forma de presença, de permanência no futuro e, em último caso, até de autoridade.
Porque, apesar de todas as virtudes do digital, há experiências que continuam a pertencer ao impresso. A moda é uma delas. Não há ecrã que substitua verdadeiramente o gesto de folhear uma revista, a pausa diante de um editorial, a forma como uma campanha se inscreve no papel com o tempo necessário para ser observada. O online trouxe velocidade, alcance, circulação, clique e um acesso de segundos, ou nanossegundos, à imagem. Mas o papel continua a oferecer aquilo que o digital raramente concede: contemplação, contexto e memória. E, além disso, uma permanência no tempo.
Em Portugal, o recente lançamento da Esquire é um sinal claro de que o investimento no impresso continua a fazer sentido quando vem acompanhado de ambição editorial, exigência gráfica e vontade de construir um objeto que se guarda, e não apenas se consome, como um objeto de arte. Mas, olhando para o panorama internacional, o que se percebe é que o regresso - ou, pelo menos, a resistência - das revistas de moda impressas está a acontecer de uma forma particularmente interessante. Cada vez mais, a moda parece encontrar no jornal um novo lugar de afirmação.
Não é apenas uma questão de distribuição, é antes uma mudança de ecossistema. As revistas de moda, lifestyle e luxo estão, em muitos casos, a surgir ou a consolidar-se como suplementos de grandes jornais, integradas em marcas editoriais robustas, associadas a públicos exigentes e a universos de influência, cultura e poder de compra. Num mercado em que a autonomia financeira das revistas se tornou mais frágil, o jornal oferece escala e contexto. Em último caso oferece legitimidade. A moda, por sua vez, oferece ao jornal um território de desejo, imagem, consumo e prestígio que hoje já não pode ser visto como periférico.
A WSJ. Magazine, distribuída com a edição de fim de semana do The Wall Street Journal, é um dos exemplos mais claros desta lógica. A revista move-se entre moda, design, cultura e lifestyle, mas fá-lo a partir de um jornal cuja identidade está profundamente ligada aos negócios, à economia e às elites globais. O mesmo acontece com a HTSI, do Financial Times, que fez do luxo, das viagens, da moda e do consumo informado uma extensão
quase natural do universo do jornal. Em ambos os casos, a moda não surge como um desvio face ao ADN editorial do título-mãe; surge, pelo contrário, como uma continuação sofisticada daquilo que esse jornal já representa junto do seu leitor.
Mas talvez o mais interessante seja perceber que este movimento não se limita à imprensa económica. O The New York Times detém a T, o Le Monde publica a M, e em Itália a D la Repubblica permanece como um dos casos mais reveladores desta transformação. Publicada com o la Repubblica desde 1996, a D é muito mais do que um suplemento feminino no sentido tradicional do termo. É um espaço onde a moda convive com cultura, sociedade e lifestyle, mostrando até que ponto o suplemento pode deixar de ser um apêndice do jornal para se afirmar como um título com identidade própria. (A escolha de Emanuele Farneti, antigo diretor da Vogue Italia, para dirigir a publicação reforça precisamente essa ambição).
Em Portugal, o fenómeno já tem alguma expressão. O Observador Lifestyle é um exemplo relevante desta aproximação entre jornal e revista, que nasce no seio do universo editorial do Observador. A publicação em papel foi pensada como uma revista de lifestyle dedicada à criatividade, ao design, à moda, às viagens e ao “bem feito” em Portugal.
A VERSA, por exemplo, é hoje um suplemento associado a um título de imprensa: a revista, editada pela Media Capital, passou a sair em papel com o semanário Nascer do SOL, assumindo-se como uma publicação de lifestyle, cultura, gourmet e sociedade.
A Ímpar entra também nessa conversa: mais do que uma revista de moda em sentido estrito, funciona como objeto editorial de lifestyle, tendências, cultura e consumo, e ajuda a mostrar como o território da moda em Portugal tende a surgir diluído em publicações mais amplas, em vez de se afirmar autonomamente como “fashion magazine” pura.
Este exercício serve apenas para perceber que a moda impressa não desapareceu; está a reposicionar-se dentro de grandes universos editoriais, muitas vezes como suplemento de jornais de referência. E isto revela que o print resiste, e que se tem vindo a reorganizar e a procurar as condições certas para continuar a ser relevante. E, olhando para o que acontece além-fronteiras, a resposta parece cada vez mais evidente. A moda impressa não desapareceu. Mudou de casa. E, em muitos casos, essa nova morada tem a solidez, a escala e a autoridade de um jornal.
