In America: An Anthology of Fashion
Design e Artes

A nova exposição no MET de Nova Iorque é a moda americana a gostar dela própria

O Costume Institute do grande Metropolitan de Nova Iorque inaugura a dia 7 de maio a exposição In America: An Anthology of Fashion que é como quem diz que o que é nacional é bom. Conta a história da moda e dos interiores americanos para a delícia de todos nós, e com a ajuda de realizadores como Martin Scorcese ou Sofia Coppola.

É a parte dois da grande mostra do melhor que se fez, e faz, na moda americana, por isso já estávamos à sua espera. Se a primeira parte – In America: A Lexicon of Fashion – que ainda pode ser visto no Anna Wintour Costume Center até 5 de setembro, estabeleceu uma base do vocabulário da moda mais moderna e expressiva feita nos Estados Unidos, com o foco esclusivo no trabalho dos designers de moda. Esta segunda parte, In America: an Anthology of Fashion, dá um passo atrás, ao passado, para perceber onde tudo começou, politíca, cultural e historicamente, para ganhar perspetiva.  Assim, como disse o seu curador Andrew Bolton, e do Costume Institute a que preside: esta exposição quer contar histórias.

Ganha muita piada porque entra pelas salas da American Wing Period adentro, as mesmas que albergam a história da arquitetura doméstica e do mobiliário distintamente americanos e que, como sabemos, contam uma parte da história da Europa que se mudou para o novo continente. São vinte interiores que nos contam 300 anos de História e de histórias da vida privada, mas também política, ideológica, cultural e de estilo daqueles que habitaram estes espaços e estes objetos - ao mesmo tempo que exibem roupa feminina e masculina datada do século XVIII ao presente.

Assim, numa sala de repouso dos shakers, num salão de festas em Richmond, Virginia ou junto a um mural de Versailles, todos datados do século XIX, mas também numa sala de estar desenhada por Frank Lloyd Wright, entre muitas outros recantos de época, encontramos peças estrategicamente colocadas em vitrines. Também refletindo nas camadas de História destes ambiente, as suas narrativas ganham magia extra através de freeze frames, cinematográficas e a três dimensões, produzidas por nove realizadores americanos de renome que pensaram no papel da roupa na construção da identidade americana, desde os costureiros e alfaiates anónimos do século XIX até Oscar de la Renta.

A convite do curador Andrew Bolton, escolheu com luva e pinça cada um dos realizadores para uma sala diferente da American Wing do museu, de acordo com o universo de cada um, para que esta história da moda possa ter várias leituras e ritmos. São eles o grande Martin Scorcese, as nossas favoritas Sofia Coppola e Autumn de Wilde, o designer de moda tornado realizador de cinema Tom Ford, mas também Chloé Zhao, Radha Blank, Janicza Bravo, Julie Dash e Regina King.

Todos deixam a sua indelével marca naquelas salas. Martin Scorcese mergulhou no universo de Charles James, e no seu universo de vestidos de baile estruturados de inícios do século XX,  na sala Frank Lloyd Wright,  Coppola expõe na escadaria junto ao quarto de vestir Worsham-Rockefeller, quando está a filmar uma adaptação de The Custom of the Country de Edith Wharton, por isso alinevidencia Nova Iorque como o centro de moda e estilo dos Estados Unidos nos finais do século XIX. Disse à Vogue americana que "a ideia é dar vida ao museu", convidar o público a entrar e, "com sorte, perder-se no momento de cada espaço."

Já De Wilde, depois do sucesso da sua versão de Emma de Jane Austen, a mesma que catapultou Ann Taylor-Joy para a celebridade, ficou com a sala que remonta ao mesmo período, as salas Baltimore and Benkard. E se Regina King regressa aos seus temas da raça e do género numa das salas mais faustosas e de inspiração europeia desta ala do museu, a Richmond Room, dedicada a recriar a vida doméstica dos americanos ricos de inícios do século XIX. Assim, pode ser apreciado o trabalho de criadores negros entre móveis de mogno com tampos de mármore Rei da Prússia, comprados pelo advogado Clayton Williams para a sua casa nova, ou o papel de parede ilustrado com cenas de Paris numa reprodução da mesma época. 

Por seu lado, Chloé Zhao usa da sua conhecida subtileza na Shaker Retiring Room, uma sala de recolhimento e silêncio reminiscente de uma comunidade religiosa, os Shakers, estabelecidos no Mount Lebanon no estado de Nova Iorque, dirigidos durante quase todo o século XVIII pela líder Mother Ann Lee. Tinham uma vida minimalista e uma disciplina espiritual visíveis na austeridade da sua decoração, e preconizando uma sociedade ideal protestante que acreditava na igualdade social e de género, no celibato e no pacifismo.

No seu jeito intenso, Tom Ford não podia ser mais bem escolhido para agarrar a Vanderlyn Panorama rotunda, isto é, uma panorâmica circular do palácio e dos jardins do de Versalhes pintada em Nova Iorque em 1818-19 a partir de desenhos feitos in loco, em França (tinha sido pensado para a rotunda de Vanderlyn, mas acabou por se tornar numa curiosidade em tourné pelo país, até à morte do seu autor). Ford pegou no desfile histórico The Battle of Versailles, organizado para uma guest-list de luxo de 700 convidados com o intuito de angariar dinheiro para o palácio, e onde desfilaram, numa espécie de batalha, Yves Saint Laurent, Hubert de Givenchy e Pierre Cardin, entre outros franceses, e Oscar de la Renta, Halston ou Anne Klein, entre outros americanos, onde consta terem desfilado 11 modelos negras, um número sem precedentes no seu tempo.  

Ao longo da exposição, podem ser encontrados designers menos conhecidos, como a modista negra Fannie Criss Payne, assim como case studies de análise mais profunda, assim quis o seu curador, de algumas peças que tiveram um simbolismo particular para a história da moda, e da sociedade, os Estados Unidos. É o caso dos casacos Brook Brothers que vestiram Lincoln e outros 40 presidentes, mas também criaram uniformes para mulheres e homens escravos.

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