Numa indústria que historicamente construiu na Semana de Moda de Alta-Costura o seu mito sobre o espetáculo do gesto criativo, vimos uma primavera/verão 2026 num movimento quase cético: a Alta-Costura quer, agora, aproximar-se do mundo real — e essa aproximação levanta questões sobre o próprio significado do luxo contemporâneo.
Durante décadas, a Alta-Costura existiu como território de exceção, onde o tempo desacelera e a funcionalidade se torna secundária perante a ideia de um sonho materializado, de uma utopia real. No entanto, os desfiles desta temporada trouxeram uma nova narrativa estética e quase filosófica. A palavra-chave não foi exuberância, mas leveza. E não apenas leveza têxtil — leveza conceptual. Uma Alta-Costura mais próxima de comuns-mortais como nós, e por isso próxima das nossas fragilidades. Mais vulnerável. Mais simples. Por isso, tão bonita quanto efémera. Para outros, aborrecida.
O caso da Chanel, sob a direção de Matthieu Blazy, exemplifica esta mudança com particular nitidez e merece, talvez, um reconhecimento pela precisão e sensibilidade com que executou e...criou. O designer (re)aproveitou o ADN da maison — tradicionalmente associado ao peso simbólico do tweed — numa coreografia de transparências, penas e sedas etéreas. A herança não foi negada, mas reinterpretada com maturidade, onde cada detalhe revelou um profundo respeito pela gramática histórica da Casa, sem cair na veneração óbvia. Blazy compreendeu que a verdadeira inovação na Alta-Costura não nasce da rutura gratuita, mas da capacidade de costurar um legado até este se tornar surpreendentemente contemporâneo. A coleção apresentou um equilíbrio irrepreensível entre técnica e emoção, entre estrutura e fluidez, revelando uma Chanel tão fiel quanto visionária. Mais do que uma simples evolução estética, o desfile pareceu reafirmar a relevância cultural da maison, provando que o luxo pode ser silencioso sem perder autoridade, e que a sofisticação pode mesmo viver da subtileza. A Chanel de Blazy surgiu menos imposta e mais sensorial, a destacar-se pelo gesto artesanal e não tanto pela demonstração de poder — um exercício de contenção que, paradoxalmente, ampliou o impacto da coleção.
Na Dior, Jonathan Anderson enfrentou um desafio igualmente simbólico: reinterpretar uma das Casas com códigos que fazem a história da moda. O seu desfile recorreu ao universo natural, transformando vestidos em pétalas, penas e outras formas orgânicas que sugerem uma Alta-Costura em metamorfose permanente. Uma homenagem inteligente ao legado floral da marca, em que Anderson quis, nitidamente, a reflexão sobre a transformação, mas este "florescer" foi óbvio... talvez demasiado óbvio. Ou certamente menos encantador na entrega... mas já não estamos a falar da Chanel.
Ainda assim, ambas as Casas optaram pela poesia da suavidade, ao contrário, claro, de Schiaparelli, que volta a reafirmar o papel da Alta-Costura como espaço de delírio artístico. Daniel Roseberry não tem dúvidas de que a Alta-Costura é performativa e assim o mostra desde 2019 quando assumiu a direção artística. Desta vez, construiu uma coleção que oscilava entre o surrealismo e o grotesco, apresentando criaturas entre o homem e o animal, e figuras mitológicas. A Moda, neste contexto, deixou de ser roupa para se tornar um espetáculo. A emoção volta a importar mais do que funcionalidade. Aqui, sim, houve desconforto estético, deliberado para uma provocação. Foi esperado e foi preciso.
Já Valentino, sob a direção de Alessandro Michele, apresentou talvez a interpretação mais teatral das suas propostas. Inspirando-se na estética cinematográfica das décadas de 1920 e 1930, o desfile trouxe uma nostalgia cuidadosamente encenada, plumas, veludos e bordados exuberantes criavam uma atmosfera de fantasia... histórica. Ainda assim, essa nostalgia deixou-nos um pouco inquietos: o curioso daquele cenário por vezes dava lugar ao desconforto. Parecia que estávamos a assistir ao filme Awakenings através de Robbie Williams, a observar pacientes que queremos desesperadamente diagnosticar...
Elie Saab, por sua vez, volta a mostrar a sua compreensão da mulher, mas, desta vez, mais leve. Explorou uma elegância quase old Hollywood, menos dramática, mais fluida, menos opulência, mais informal. Bolsos em vestidos de gala e sobreposições inesperadas sugerem um diálogo mais próximo do real e menos distante do sonho — como se o luxo tivesse de provar a sua relevância num quotidiano.
Já a estreia de Sylvana Armani na Armani Privé, após a morte de Giorgio Armani, carregou simbolismo. Parece querer suavizar a austeridade clássica da marca, principalmente na paleta de cores, isto é, mantém os tons suaves, mas dá lugar ao verde em vez do cinza. Trata-se de uma mudança subtil porque o respeito pelo legado é mais urgente, até nas escolhas de influência oriental que Giorgio tanto gostava surgem em apontamentos como leques. ADN prioridade com umas pinceladas de frescura.
Olhando para o todo, a Semana de Alta-Costura de Paris de 2026 parece ter colocado a indústria perante um dilema existencial. A Alta-Costura sempre viveu da distância — quer económica, quer simbólica ou cultural. Mas ao tornar-se mais leve, mais funcional e emocionalmente mais acessível, pode perder aquela aura inalcançável, do sonho que sustenta o ideal mítico.
Talvez possa vir a nascer uma nova definição de luxo, preso a uma narrativa mais íntima. E é curioso pensar que a utopia se aproxima de nós numa altura em que precisamos de estar com os pés bem assentes na terra. Bem próximos da realidade do que se passa ao nosso redor. Ainda assim...
... o suspense é inevitável: se a Alta-Costura se tonar demasiado próxima do real, transformar-se-à apenas num sonho que, infelizmente, saberemos distinguir da realidade?
