Luís Carvalho | Fotografia: Alexandre Azevedo
Luís Carvalho | Fotografia: Alexandre Azevedo
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Entre contrastes, noivas, memórias e até lágrimas: assim se despediu a ModaLisboa

A ModaLisboa chegou ao fim, mas não sem antes dar a conhecer as novas coleções de Roselyn Silva, DuarteHajime, Luís Onofre, Nuno Baltazar e Valentim Quaresma. Quais os destaques? A VERSA esteve à conversa com os criadores e conta-te tudo a partir da primeira fila.

Chegámos ao último dia de ModaLisboa, no passado domingo, 15 de março, com muito sol e uma agenda recheada de apresentações que começou com Roselyn Silva — designer que participou no evento pela segunda vez. Já pela tarde e, eventualmente, noite dentro, aconteceram os desfiles de DuarteHajime, Luís Onofre, Nuno Baltazar e Valentim Quaresma. 

Roselyn Silva

Regressamos ao segundo piso do MUDE - Muse do Design para conhecer as novidades de Roselyn Silva que surpreendeu todos ao apresentar uma coleção a preto e branco. Isto porque a designer, nascida em São Tomé e Príncipe e criada em Portugal, usa, na maioria das suas peças, tecidos africanos, muito coloridos e cheios de personalidade.

Em conversa com a VERSA, a criadora explicou que encontrou na utilização de apenas duas cores uma forma de "inovar", mas também que a escolha acaba por ser o tema da coleção em si Find Love, realçando a importância de encontrar amor "no meio de contrastes e no meio da dualidade".

"Hoje em dia, vivemos numa era em que há intolerância, as pessoas estão carentes de empatia e de amor", explica. Confessa ainda que ao apostar em apenas duas cores acaba por ser uma forma de não "distrair". 

É uma coleção a preto e branco, mas, mesmo assim, os coordenados tinham vários tecidos africanos aplicados em saias, vestidos e pequenos acessórios. "Foi muito difícil encontrar tecido preto e branco", contou. Tinha estes armazenados há algum tempo, mas nunca os usou e quando surgiu a ideia de criar uma coleção apenas nestes tons, a designer aproveitou. "Estava destinado."

Já na passarela, o desfile continuou com diferentes looks de menswear e de womenswear compostos por saias, algumas drapeadas e todas cheias de detalhes, vestidos, a maioria com texturas interessantes, e alguns fatos.

Foi, aliás, um fato que a designer escolheu para a sua modelo mais velha, a Dona Rosalina, "mãe de uma amiga", e que fez parte do alinhamento para dar "um calor que faltava ali na coleção".

Quando o desfile terminou o ambiente de festa fez-se sentir porque família e amigos de Roselyn estiveram a assistir. Entre os convidados, estava a mãe, mas também um nome surpreendente: Francisca Van Dunem, a Ministra da Justiça do XXI Governo. É verdade, Van Dunem não quis perder a oportunidade de conhecer a nova coleção de Rosalyn, o que deixou a criadora surpreendida. 

Também aproveitamos para falar com Rosalyn sobre a chegada da sua marca a Nova Iorque, nos Estados Unidos, e a Paris, em França. Segundo a designer, a marca está a trabalhar "muito no sentido da internacionalização e da distribuição" para lojas. 

Nuno Baltazar

Há quem diga que as noivas chegam sempre atrasadas e as de Nuno Baltazar não poderia ser exceção. Depois de cerca de uma hora e meia de atraso, entramos finalmente na sala para assistir ao primeiro desfile da coleção bridal do designer.

Porquê noivas? "É uma realidade que faz parte do meu cotidiano", conta o designer em entrevista à VERSA. Nuno trabalha com noivas em ateliê e passou mais de um ano a desenvolver uma coleção especial, apesar de nunca ter pensado em apresentá-la aqui. 

Confessa que  a coleção — por ter sido pensada agora para ser apresentada em desfile — ficou "muito mais rica". "Ganhou muito mais personalidade. É muito mais Nuno Baltazar."

Para a sua apresentação, não quis fazer "um desfile de noivas dos anos 80", mas sim algo mais autoral e performativo que "levanta o véu sobre momentos que normalmente as noivas passam, mas não contam", como "as dúvidas, as desistências, as angústias sobre o corpo, sobre a idade". 

Durante o desfile, as modelos foram-se reunindo no centro da sala para falar ao microfone, muitas vezes ao mesmo tempo, numa mistura de palavras, em que algumas faziam referência a essas hesitações, usando frases como "I don't want to" (não quero, em português) e repetiam o nome da coleção: I Do. Do You? 

Na passarela escura, mas com pequenos pontos de luz espalhados pela sala, as modelos foram surgindo com diferentes propostas que desconstroem o conceito de vestido de noiva de uma forma mais "provocatória", conjugando tecidos distintos, uns mais tradicionais, como a renda, e outros menos habituais, no que fiz respeito a noivas, como as lantejoulas.

Já outros vestidos tinham técnicas como o patchwork com retalhos de rendas de noivas que usaram as suas criações ao longo do tempo. "Sei perfeitamente de quem são", conta. 

O styling foi importante aqui e, para essa tarefa, o designer teve a ajuda de Dino Alves. Luvas cobertas de lantejoulas, collants opacos vermelhos, sapatos azuis — quase uma referência à expressão something blue (algo azul, em português) associada aos looks de noivas. Tudo isto para mostrar que as noivas precisam de se divertir no processo e que "não pode ser um pesadelo". 

Luís Carvalho 

Mais uma vez, Luís Carvalho ficou com a responsabilidade de encerrar o evento. Com uma sala cheia dos amigos, as luzes foram apagadas e as primeiras notas de Memória, a música de Rosalía e Carminho, começaram a fazer-se ouvir  — o que provocou imediatamente uma reação do público. 

Depois do desfile, em conversa com a VERSA, o designer explicou a importância que a escolha da música tem para si porque pode ser uma forma de "contar uma história e transmitir emoções". "Queria emocionar as pessoas, eu próprio chorei quando começou [a música]", o que aliviou quase imediatamente o stress, confessa. 

Memória foi o tema da coleção e teve como ponto de partida a criação de texturas nos tecidos que acabam por ficar marcados, como se guardassem, lá, está, memórias. Tecidos aparecem enrugados, com o que parecem pinceladas de tinta ou com pregas, criando diferentes formas, elementos como strass também ajudam a reforçar essa ideia. 

Como não poderia deixar de ser, a coleção concentra-se muito nas peças de alfaiataria que aqui aparecem com cinturas marcadas e ombros mais largos, uma referência ao tema e aos anos 50 — algo que ficou ainda mais evidente com os lenços que diferentes modelos usaram no cabelo durante o desfile. 

Refere ainda que muitos dos coordenados tinham bolsos, um detalhe que pode passar despercebido, mas que serve quase como uma metáfora por ser um local "onde guardamos memórias e sonhos". 

Já a paleta de cores concentrou-se muito no cinzento e no preto, mas, o vermelho forte começou eventualmente a aparecer para "contrastar". 

Não podemos (mesmo) esquecer as costas... Sim, as costas das peças que por vezes pareciam ainda melhores do que a parte da frente, algo que o designer faz por ser "inesperado" e muito interessante.

A noite terminou com um coro composto pelo público que cantava Forever Young de Alphaville. Com isto, Luís sentiu que tinha conseguido transmitir a mensagem que queria e, se no público estavam a cantar em plenos pulmões, no backstage as vozes não ficaram nada atrás, conta o designer. 

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