Ricardo Andrez | Fotografia: Alexandre Azevedo
Ricardo Andrez | Fotografia: Alexandre Azevedo
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Entre memória e inovação, na ModaLisboa os designers portugueses mostraram que o futuro também se faz à mão

A ModaLisboa continua e no passado sábado, 14 de março, estiveram em destaque vários designers portugueses desde Gonçalo Peixoto, a Ricardo Andrez e Dino Alves. Contamos-te tudo diretamente da primeira fila.

No sábado, 14 de março, a ModaLisboa começou fora do Pátio da Galé, o centro do evento, com a apresentação de Béhen que ocupou a Brotéria - Associação Cultural e Científica, na zona de Alcântara, com uma coleção cápsula de womenswear. Como sempre, Joana Duarte, a fundadora da marca, mostrou o que melhor sabe fazer: dar protagonismo aos materiais e a técnicas manuais. 

Mais tarde, o público regressou, então, ao Pátio da Galé para os desfiles e apresentações de designers como Bárbara Atanásio, Arndes, Gonçalo Peixoto, Carlos Gil e Dino Alves. Pelo meio ainda esteve em destaque uma performance especial da Portuguese Soul by APICCAPS e um desfile de Ricardo Andrez no MUDE - Museu do Design. 

Gonçalo Peixoto

Como sempre, a sala estava cheia para o desfile de Gonçalo Peixoto, com várias digital influencers e atrizes no público, como Margarida Corceiro que já estava a usar um fato da nova coleção de outono/inverno, contou à VERSA o designer.

Ninguém quis perder a oportunidade de conhecer a nova coleção que nos levou a pensar (ainda) mais no papel da Inteligência Artificial (IA) nos dias de hoje e, ao mesmo tempo, a recordar "o passado e a parte mais humana e tradicional", explicou o designer em entrevista à VERSA. 

Num cenário diferente do habitual e que nos transportou para um "escritório megalómano numa multinacional" — com secretárias espalhadas pela passarela e detetores de metais, identificados com o nome do designer, claro — Gonçalo apresentou coordenados que realçam a dualidade, cada vez mais significativa, "entre o passado muito manual e o futuro muito mecânico". 

Rendas, lantejoulas e penas estiveram em destaque, uma tentativa de realçar a importância, assim como a beleza do trabalho manual que continua a ser uma das melhores mais-valias da indústria da moda no nosso país. "Existem tantas empresas e senhoras em Portugal que têm o dom disto que é o manual", acrescentou. 

Entre os coordenados, está um blazer, usado com um vestido curto pela modelo, e que acaba por  representar na perfeição o tema da coleção porque mistura "uma silhueta moderna" que combina "um material que pode remeter ao passado [com um estampado em xadrez]", com peças bordadas à mão no fundo, "um trabalho muito manual".  

Para além desta peça, o designer também mencionou a que encerrou o desfile, um vestido num tom ácido de verde, construído totalmente com penas que foram "colocadas uma a uma à mão". "Estou muito feliz com essa peça e o resultado dela", contou. 

Esta coleção de outono/inverno tinha muitos casacos interessantes e compridos ideais para os dias mais frios, mas não faltaram transparências e silhuetas elegantes, até porque, tal como diz o próprio criador, "não seria" uma coleção de Gonçalo Peixoto sem estes elementos.

"É imprescindível", comenta. Porquê? "Porque ninguém — e quem disser que isto não é verdade está a mentir — tem o mesmo mood durante seis meses", ou seja, acabamos por querer peças diferentes e com esta coleção, o designer acredita que as pessoas se vão sentir completas. 

Portuguese Soul by APICCAPS 

Entre apresentações, a sala e encheu e, desta vez, não para ver um desfile tradicional. Para esta edição da ModaLisboa, a Portuguese Soul by APICCAPS decidiu inovar e dar-nos um momento em que a dança e o calçado coexistem de uma forma perfeita e harmoniosa. 

Com a sala escura, vários bailarinos, "a maioria portugueses, segundo explicou Cláudia Pinto do departamento de comunicação da APICCAPS em entrevista à VERSA, apareceram um a um para uma performance que salientou "as obras de arte" que são os sapatos portugueses.

Todos os sapatos usados durante a performance são de marcas portuguesas, claro, e feitos em couro, um material que "é a melhor matéria-prima para fazer sapatos". 

Porquê uma performance assim? Segundo Cláudia, "a dança precisa dos pés e os pés são o nosso sustento para caminhar e para dançar. Por isso, achamos que tudo isto em conjunto fazia sentido". 

Ricardo Andrez 

Mais tarde, Ricardo Andrez levou-nos ao MUDE, a poucos metros do Pátio da Galé, onde apresentou a sua nova coleção. No piso dois do edifício, numa sala comprida e com um estilo inacabado, assistimos, acima de tudo, a um desfile de texturas de veludo a jacquard passando pelas plumas e lantejoulas. 

Tendo como ponto de partida "esta obsessão pela nostalgia que estamos a viver", explica à VERSA, o designer decidiu pensar no futuro da sua marca, apostando sempre "na construção e no acabamento das peças exímios".

Por exemplo, uma das peças favoritas do criador foi mesmo uma sweatshirt, com um estampado colorido feito de plumas bordadas à mão pelo próprio, assim como todas as outras peças com o mesmo efeito. Este padrão tem como base uma fotografia antiga que foi manipulada, conta. 

Outros detalhes muito interessantes na coleção são os botões de vidro vintage usados nas peças que o próprio Ricardo foi comprando em retrosarias antigas, no Porto, muitas das quais "estão a fechar", algo que também fez para as plumas. Queria sobretudo que existisse "um equilíbrio" entre o futuro e o passado.

Já no que diz respeito a cores destacaram-se os rosas pálidos, cinzentos e os pretos, mas como ainda estava a faltar uma "cor realmente interessante e rica", adicionou à paleta o azul Klein, um tom que está a aparecer nas coleções de muitas outras marcas nos últimos tempos. Também não poupou em estampados: flores e animal print foram os mais usados. 

Ricardo queria sobretudo criar uma coleção que podemos ter "o ano todo". Confessa que "a obrigatoriedade que a máquina exige", em relação a temporadas e estações, "não faz sentido". Por isso, optou por dividir a coleção em partes e descreve o último bloco como "assumidamente verão". 

Muitos dos coordenados era finalizados com um laço no pescoço feitos com gravatas. "Decidimos desconstruir um bocado a gravata e assumir o laço", algo que nos fez lembrar a primeira coleção de menswear de Jonathan Anderson para a Dior. Ricardo tomou isso como um elogio e confessou que considera o designer irlandês "o melhor da atualidade". 

Dino Alves 

A noite terminou com o desfile de Dino Alves que estava dividido em duas partes. Primeiro, o criador apresentou a sua coleção cápsula com a Humana, cadeia de lojas de segunda mão, UP – Upcycling Collection Dino Alves X Humana.

E, sim, upcycling foi mesmo a palavra de ordem. Estiveram em destaque casacos e camisas que apareceram transformados em saias e vestidos; mas também, as jeans desconstruídas com tecidos além da ganga. Para o styling da coleção, o designer apostou no layering de peças com diferentes cores, texturas e recortes.

Já a parte dois da apresentação, a coleção "Eu Não Sou Perfeito" abordou os defeitos, erros e enganos, assumindo a imperfeição. Foram aparecendo na passarela mais peças de alfaiataria construídas na perfeição, assim como outras em tecidos originais e interessantes, como a organza.

Preto dominou o desfile, e nos últimos coordenados, acabou por ser a única cor usada. Várias modelos usaram vestidos pretos que pareciam ter a mesma base, mas que brincava com proporções, volumes e drapeados.

No fim, Dino Alves foi recebido com um aplauso caloroso e muito amor do público ao som de Heart of Glass dos Blondie.

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