Aqui pode-se e deve-se voltar onde se foi feliz. Bem-vindos ao MS Collection Mosteiro de Arouca
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Redação
- 25 ago, 09:28
Há hotéis que recebem cinco estrelas por classificação e outros que nos fazem senti-las no serviço, no conforto e nos pequenos gestos. O MS Collection Mosteiro de Arouca pertence, felizmente, aos dois grupos.
Instalado na ala sul de um mosteiro com mais de mil anos, tem 53 quartos, jardins, piscinas interior e exterior, spa, restaurante, campo de padel e uma localização difícil de melhorar. Basta atravessar a porta para estarmos no centro da vila de Arouca. E basta voltar a entrar para recuperarmos uma quietude que parece ter ficado guardada nas paredes desde o tempo das religiosas.
Visitámo-lo, experimentámo-lo e podemos confirmar: não é apenas um edifício histórico com uma placa dourada à entrada. É um verdadeiro hotel de cinco estrelas.
Um mosteiro mais antigo do que Portugal
O Mosteiro de Santa Maria de Arouca terá sido fundado entre os anos 915 e 925. Quando aquelas primeiras pedras começaram a organizar uma comunidade religiosa, Portugal ainda não existia enquanto país e D. Afonso Henriques estava a cerca de dois séculos de nascer.
Começou por ser um mosteiro dúplice, acolhendo homens e mulheres. Em 1154 tornou-se exclusivamente feminino e, no século XIII, ganhou a figura que ficaria para sempre associada à sua história: D. Mafalda, filha de D. Sancho I e neta de D. Afonso Henriques.
Mafalda foi Rainha de Castela por um período muito breve, através do casamento com Henrique I. A união não foi consumada e acabou anulada. Regressada a Portugal, recolheu-se no Mosteiro de Arouca, que recebera por legado do pai, levando consigo património, influência e uma capacidade de transformação pouco habitual.
Foi por sua vontade que a comunidade adotou a regra de Cister em 1226. As religiosas trocaram o hábito negro da Ordem de São Bento pelo branco cisterciense e o mosteiro, até então relativamente pobre, entrou num período de prosperidade. A presença de uma rainha atraiu filhas das famílias mais poderosas e abastadas do reino. Algumas chegavam acompanhadas pelas próprias criadas, porque até a vida de recolhimento tinha, ao que parece, diferentes categorias de conforto.
Há ainda uma curiosidade reveladora da personalidade de Mafalda. Apesar de ter vivido em oração, caridade e retiro, nunca professou formalmente. Ao fazê-lo, teria de abdicar de parte da sua autonomia, do título e da influência que exercia dentro e fora do mosteiro. Escolheu servir a vida religiosa sem entregar totalmente o poder que lhe permitia transformar a comunidade.
Em Arouca é conhecida como Rainha Santa Mafalda e continua a ser padroeira da vila. Foi beatificada pelo Papa Pio VI em 1792.
Das construções medievais restam poucos vestígios. As grandes intervenções realizadas entre os séculos XVII e XVIII deram ao conjunto boa parte da forma barroca que hoje conhecemos. Ainda assim, a continuidade do lugar sente-se. As épocas foram acrescentando camadas, mas nenhuma conseguiu apagar completamente a anterior.
MS Collection, história com serviço de cinco estrelas
O projeto pertence à MS Group, grupo português com atividade na hotelaria, restauração, imobiliário e desporto. Dentro do grupo, a MS Hotels reúne as marcas hoteleiras, incluindo a Moon & Sun, destinada às unidades de quatro estrelas, e a MS Collection, reservada aos hotéis de cinco estrelas.
A MS Collection assume como princípio a recuperação de edifícios históricos e a sua ligação à cultura das localidades onde se instala. Tem atualmente duas unidades: o MS Collection Aveiro, no Palacete de Valdemouro, e este MS Collection Mosteiro de Arouca.
A recuperação patrimonial impressiona, mas é o serviço que confirma a categoria. Um cinco estrelas não se mede apenas pela dimensão do quarto, pela piscina ou pela qualidade dos materiais. Mede-se no modo como a equipa observa, antecipa e resolve, muitas vezes antes de o hóspede perceber que precisava de alguma coisa.
O silêncio também faz parte da decoração
O espaço é majestoso, mas nunca se torna frio. A pedra, as abóbadas e os corredores largos poderiam criar distância. Pelo contrário, a escolha do mobiliário, das tapeçarias, da iluminação e das obras de arte introduz calor sem retirar solenidade ao edifício.
Há tapetes que acompanham os percursos, quadros que interrompem as paredes de granito e móveis que parecem escolhidos para aquele recanto específico, não retirados de um catálogo para preencher metros quadrados. Da entrada aos claustros, tudo monstra atenção às proporções, às texturas e à história.
O hotel preserva também uma característica que não se compra facilmente: o sossego.
Num alojamento convencional, um corredor serve para ir de um lado ao outro. Aqui, os corredores obrigam-nos a abrandar, olhar para cima e aceitar que chegar ao quarto dois minutos mais tarde não constitui uma tragédia.
Num dos recantos encontramos uma pequena casa multifunções onde se pode escolher um livro, sentar a ler, jogar em família ou simplesmente conversar. No inverno, a lareira deverá transformar este espaço num perigo sério para qualquer plano que implique sair do hotel.
É fácil imaginarmo-nos ali num dia de chuva, com um livro aberto, uma bebida por perto e a firme intenção de não fazer absolutamente nada até à hora de jantar.
Também isso é luxo.
Dormir onde alguém se procurou a si próprio
O nosso quarto mostrava um equilíbrio magistral entre o desenho contemporâneo e a preservação do espaço original.
Os tetos, as janelas, as madeiras e as proporções antigas continuam presentes. O mobiliário é atual, as comodidades correspondem ao que esperamos de um cinco estrelas e a iluminação foi pensada para dar conforto sem esconder a arquitetura.
Nada parece ter sido colocado para imitar o passado. Também não houve a tentação de cobrir tudo com modernidade para demonstrar que o hotel pertence ao século XXI. As duas épocas convivem, cada uma segura do seu lugar.
Há algo de particular em dormir num espaço onde, séculos antes, outra pessoa também se recolhia. Procurava silêncio, resposta, sentido ou uma aproximação a algo superior, eterno e religioso.
Nós procurávamos descanso, o que talvez seja uma ambição menos elevada, mas não totalmente incompatível.
Ao fechar as cortinas e reduzir as luzes, o quarto ganha uma calma difícil de reproduzir num edifício novo. Não é apenas ausência de ruído. É a sensação de que aquelas paredes conhecem há muito o exercício de parar.
Uma piscina exterior a 30 graus e um eclipse quase total
Os antigos jardins do mosteiro foram recuperados e devolvidos à experiência do lugar. Há percursos entre a vegetação, zonas de descanso e até um campo de padel bem integrado na floresta, sem a habitual sensação de ter aterrado ali por engano.
Depois existe a piscina exterior.
É ampla, bonita e enquadrada pelo verde. Durante a nossa estadia, a água rondava os 30 graus, o que no verão pode parecer um excesso até entrarmos. A partir daí, todas as objeções térmicas desaparecem.
Junto à piscina, o hotel disponibiliza protetor solar e loção corporal como cortesia. É um gesto simples, mas útil, sobretudo para quem acredita que colocou o protetor na mala e só depois descobre que o deixou em casa, ao lado da escova de dentes suplente e de todas as outras coisas que jurava ter levado.
Durante a tarde, a equipa oferece ainda a limpeza dos óculos. Não pedimos, não procurámos e nem sequer sabíamos que precisávamos. De repente, o mundo ficou mais nítido.
Foi também nesta piscina que vimos o eclipse de 12 de agosto de 2026. Em Arouca não foi tecnicamente total, mas chegou muito perto, com cerca de 98% do Sol ocultado.
O céu perdeu luz, a temperatura pareceu mudar e as conversas foram diminuindo à medida que hóspedes e equipa olhavam para cima. Durante alguns minutos, pessoas que não se conheciam partilharam o mesmo espanto.
No nosso caso, com o corpo mergulhado na água quente e um copo na mão.
A ciência não exige desconforto.
Foi um daqueles momentos difíceis de planear e impossíveis de repetir exatamente. O mosteiro com mais de mil anos, um fenómeno celeste raro, a água aquecida e um grupo de desconhecidos reunido em silêncio. D. Mafalda talvez aprovasse o recolhimento. Quanto ao copo, não estamos tão certos.
O direito a não fazer nada
Ainda há uma piscina interior, integrada com grande sensibilidade no conjunto arquitetónico, ligada ao SPA. A água, a pedra, o cimento alisado e pintado de bege e a iluminação criam um ambiente protegido, quase suspenso, que prolonga o lado contemplativo do hotel.
Aqui surge o principal dilema de uma estadia em Arouca. Há muito para descobrir em redor, mas o hotel faz um trabalho bastante competente a convencer-nos de que nada disso precisa de acontecer naquele dia.
Se decidirem ficar entre o quarto, os jardins, as piscinas, os livros e o restaurante “Heritage 1220”, não será pecado. Num antigo mosteiro, admitimos que esta seja uma matéria sensível, mas estamos razoavelmente seguros da absolvição.
Sair do hotel e estar imediatamente na vila
Quando finalmente decidimos atravessar a porta, encontramos outra vantagem: o hotel está no centro da vila de Arouca.
Vila, sim. Embora por vezes seja tratada informalmente como cidade, Arouca mantém oficialmente essa categoria. A dimensão ajuda à experiência. Podemos sair a pé, atravessar a praça, observar o movimento local e entrar nas lojas sem transformar cada deslocação numa operação logística.
Depois há as pastelarias e confeitarias.
Basta olhar para as montras para acrescentarmos dois quilos por estimativa. Se entrarmos, a contabilidade deixa de ser teórica.
O pão de ló de Arouca é uma das tentações principais. Existe numa versão seca, em forma de bola, e na célebre versão húmida, vendida em fatias e envolvida por uma calda de açúcar. É difícil explicar a quem ainda não provou por que razão uma única fatia raramente resolve o assunto.
Depois chegam as castanhas doces, os charutos e as roscas de amêndoa, as barrigas de freira, as morcelas doces, o manjar de língua e a bola de São Bernardo. Há ainda cavacas e melindres, que não têm origem conventual, mas conquistaram por mérito próprio um lugar na tradição local.
Ovos, açúcar e amêndoa aparecem em múltiplas formas, como se as antigas religiosas tivessem decidido testar até onde seria possível levar três ingredientes antes de alguém pedir moderação.
Felizmente, ninguém pediu.
À noite, regressamos à terra dos avós
Para quem viaja com crianças, há outro detalhe que vale mais do que muitas atividades programadas. Junto ao centro encontra-se o Parque Municipal, com relvado, fonte e um campo de futebol sintético onde, ao fim do dia, miúdos de várias idades se encontram para brincar.
Depois do jantar, os adultos ficam com os pés debaixo da mesa e as crianças seguem para o jardim. Correm, jogam à bola, aproximam-se de quem nunca viram e, poucos minutos depois, parecem conhecer-se desde sempre.
Faz lembrar os verões na terra dos avós, quando os pais prolongavam a conversa e nós saíamos para descobrir quem estava naquela noite na rua. Não havia grupos de mensagens, calendários partilhados nem necessidade de marcar com três semanas de antecedência. Bastava aparecer.
A amizade tornava-se audível entre a fonte, o relvado e o som da bola. Algumas crianças reencontravam quem já conheciam. Outras construíam em poucas horas uma intimidade que os adultos demorariam meses a alcançar.
Quem sabe se não começa ali uma amizade para muitos anos. Ou uma paixão de verão, que costuma durar menos, mas produzir histórias melhores.
Há um geoparque inteiro à espera
Grande parte de quem chega a Arouca vem atraída pelo território em redor.
Os Passadiços do Paiva percorrem cerca de oito quilómetros junto ao rio, ligando as zonas do Areinho e de Espiunca, com passagem pelo Vau. Entre escadas, madeira, rocha e água, permitem entrar numa paisagem que durante muito tempo esteve reservada aos mais aventureiros.
Junto ao percurso encontra-se a Ponte 516 Arouca, com 516 metros de comprimento e suspensa a 175 metros sobre o rio Paiva. O tabuleiro metálico permite ver o vazio debaixo dos pés, uma característica arquitetónica muito interessante para quem gosta de engenharia e completamente desnecessária para quem prefere fingir que está apenas a atravessar uma ponte normal.
Há também várias praias fluviais. O Areinho, o Vau e Espiunca acompanham o percurso dos passadiços. A Paradinha junta a água à beleza de uma aldeia tradicional, enquanto Meitriz oferece outro contacto próximo com o Paiva e com a paisagem rural.
Na Serra da Freita encontram-se a Frecha da Mizarela, as Pedras Parideiras da Castanheira, miradouros, trilhos e aldeias de montanha. Pode ainda visitar o Museu das Trilobites, explorar antigos complexos mineiros ou descobrir povoações como Drave, Paradinha e Meitriz.
Tudo isto faz parte do Arouca Geopark Mundial da UNESCO, um território onde a geologia não se limita a pedras com placas explicativas. Está nas montanhas, nos rios, nas cascatas, nos fósseis e na forma como as populações aprenderam a viver com a paisagem.
Pode fazer rafting, caminhar, atravessar pontes, procurar cascatas ou passar a tarde numa praia fluvial.
Ou pode voltar para a piscina do hotel.
Aqui não julgamos.
Veredicto VERSA
O MS Collection Mosteiro de Arouca é um verdadeiro hotel de cinco estrelas. Não apenas pela classificação, pelos imaculados quartos, pelo spa ou pelas duas piscinas, mas pela soma de cuidados que transforma uma boa estadia numa experiência memorável.
A recuperação da ala sul respeita o passado sem obrigar o hóspede a abdicar do presente. As abóbadas, os tetos, as janelas e os longos corredores preservam a identidade do mosteiro. O mobiliário, as tapeçarias, a arte e a iluminação acrescentam conforto sem tentar falar mais alto do que a pedra.
Depois há o serviço, que é onde muitos hotéis perdem estrelas invisíveis. Aqui, a equipa está presente, observa e antecipa. Disponibiliza protetor solar junto à piscina, oferece loção corporal e, a meio da tarde, limpa-nos os óculos sem que tivéssemos sequer pensado em pedir.
A localização permite sair a pé para descobrir a vila, visitar o mosteiro, passear pela praça e enfrentar as montras da doçaria local com a coragem possível. Em redor esperam os Passadiços do Paiva, a Ponte 516 Arouca, as praias fluviais, a Serra da Freita e um geoparque inteiro.
Podemos ficar entre os jardins, o quarto, a biblioteca, o spa e a piscina exterior aquecida. Podemos ler, conversar, dormir ou simplesmente olhar para as paredes que já assistiram a mais de mil anos de chegadas, partidas, orações e silêncios.
Gostámos da recuperação arquitetónica, do equilíbrio dos quartos, da calma dos espaços comuns, da piscina exterior aquecida e de um serviço que corresponde à promessa das cinco estrelas. Recomendamos também o restaurante “Heritage 1220”, mesmo a quem não esteja hospedado.
Se tiver de escolher entre o hotel e a descoberta da região, não escolha. Faça ambos, ainda que em visitas diferentes.
A ponte e os passadiços continuarão lá. O quarto também, esperamos. E os ovos Benedict em croissant são uma razão perfeitamente respeitável para regressar.
Pode-se voltar onde se foi feliz.
No MS Collection Mosteiro de Arouca, pode-se e deve-se.
Vê a Galeria de Imagens.
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Rafaela Simões
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