Constança Vasconcelos Dias
Constança Vasconcelos Dias | Fotografia: Instagram
Design e Artes

A parede da tua casa pode ser uma obra de arte: só tens de chamar a Constança

Constança Vasconcelos Dias mudou, sem querer, a vida na pandemia. Tudo começou com um pincel e hoje a sua vida é criar obras de arte em casa de outros (e não, os murais não têm de durar para sempre).

O trabalho de Constança Vasconcelos Dias é uma obra de arte em grande escala

Os Bordados da Carol e o véu de noiva especial

Uma casa com todas as paredes brancas é... coisa de antigamente. A cor, os padrões e as formas estão a ganhar espaço na decoração, transformando paredes em verdadeiras extensões da personalidade de quem lá vive.

E se não tivermos jeito para pintar, temos sempre a ajuda das mãos de Constança Vasconcelos Dias. A jovem de 30 anos começou no confinamento de 2020 a pintar murais por acaso e o que começou numa parede da casa dos pais rapidamente passou para casas de amigos, depois para conhecidos e, finalmente, para pessoas que nunca tinha visto.

Hoje, os murais são uma das suas principais formas de expressão, mas estão longe de ser a única: entre serigrafias, costura, madeira e objetos reinventados, Constança explora a criatividade sem grandes regras.

À VERSA, fala-nos sobre o percurso que a levou das paredes de casa a projetos em Portugal e além-fronteiras e de como, ao contrário do que se possa pensar, um mural não tem de ser para sempre.

Quem é a Constança Vasconcelos Dias para lá dos murais?

Tenho 30 anos, sou casada há 2 e sou designer de comunicação. Trabalhei em agências de comunicação como designer gráfica e depois trabalhei durante 6 anos na equipa de comunicação do Just a Change, uma ONG que reabilita casas de pessoas carenciadas em Portugal. Foi um desafio incrível e adorei trabalhar lá. Depois, decidi lançar-me como freelancer, que é o que faço hoje em dia. Tenho sempre mil projetos em simultâneo.

Quando era miúda, via o Art Attack e depois tentava replicar as coisas em casa. Isso não mudou. Estou sempre a fazer trabalhos manuais, a testar novas técnicas e inventar formas de trazer à vida os conceitos que me passam pela cabeça. No Just a Change, aprendi muito sobre obra, e isso abriu imensas possibilidades na minha mente.

A juntar a isto, o João (meu marido) tem uma paixão enorme por marcenaria e tem uma marca de móveis por medida (@aprendiz.ww), por isso temos este gosto conjunto de renovar e construir, e temos estado a renovar a casa onde vivemos, divisão a divisão (partilho tudo no meu Instagram!).

Como surgiu a ideia de começares a pintar murais durante o confinamento de 2020?

Na realidade, eu acho que isto começou quando eu era miúda. A minha mãe, apesar de não se descrever assim, é uma artista. A nossa casa (em especial os nossos quartos de criança), eram sempre super divertidos com pinturas feitas pela minha mãe. Quando a minha irmã mais velha e eu, que partilhávamos quarto, tínhamos para aí 10/12 anos, a minha mãe pintou uma flor havaiana gigante na parede – na altura as flores havaianas eram a coisa mais cool do momento, por isso nós tínhamos imenso orgulho de mostrar o quarto às nossas amigas! Para além disto, os meus pais sempre alimentaram as nossas veias artísticas e nós até tínhamos uma parede enorme de ardósia para desenharmos.

Especificamente sobre o mural que fiz em 2020: a minha família não sabe estar parada – temos sempre planos e estamos sempre em programas fora de casa. Por isso, quando percebemos que possivelmente íamos ficar confinados, mas antes dessa regra ser instaurada, fomos comprar tinta suficiente para pintar a casa toda – se íamos ficar presos, então ao menos ficávamos entretidos! E fomos mesmo a tempo, porque acho que no dia a seguir fecharam as lojas todas. Pintámos as divisões todas da casa de branco, ficou impecável. Mas só tinham passado dois ou três dias – e, como sabemos, o confinamento foi "ligeiramente" mais longo que isso – então, ao 4.º dia, eu peguei nuns restos de tinta de outro projeto qualquer da minha mãe e pedi aos meus pais para pintar uma parede na cave. Depois de prometer que, se ficasse mal, voltava a pintar de branco, lá comecei.

Esse mural na parede da cave ainda existe?

Ainda existe! Hoje em dia está parcialmente tapado com um armário, mas ainda lá está. É bastante simples: só tem uma cor, tem umas plantas e um poema de Ron Padgett, traduzido para português por Rosalina Marshall, que diz “Primeiro, acalma-te. Depois, fica assim para o resto da vida”. Continuo a adorar este haiku, e ainda hei de fazer um mural na minha casa (já que hoje em dia já não moro com os meus pais), com esta frase.

Sentes que o confinamento acabou por mudar o rumo da tua vida?

De certa forma, sim. Eu descubro novas formas de expressão artística todas as semanas, porque gosto mesmo de explorar técnicas que não conheço. Mas os murais tiveram um impacto que poucas outras técnicas tiveram, como serigrafia e a costura, que me trazem imensa paz e sentido de realização. Posso encontrar algumas coisas em comum entre as três que justifiquem a minha ligação – são processos relativamente demorados, nos quais há muita margem para erro, sendo preciso planear quatro ou cinco passos à frente constantemente –, mas, por outro lado, são técnicas em que não há regras, a invenção é rainha, e nas quais é possível resolver todos os erros que possam surgir.

Como passaste de pintar as paredes de casa para receber pedidos de amigos e conhecidos?

Os primeiros cinco ou seis murais que fiz foram todos em casas de amigos e familiares que me ofereceram as suas paredes. Eu estava numa fase muito de exploração, de perceber que tipo de desenhos gostava de fazer, como funcionavam em diferentes espaços e, acima de tudo, de ganhar confiança a trabalhar numa escala tão grande. À medida que ia fazendo os murais, ia partilhando o processo e o resultado nas redes sociais. Acho que isso ajudou muito, porque as pessoas conseguiam imaginar melhor como um mural podia transformar um espaço e começaram a surgir mais convites. Primeiro de amigos, depois de conhecidos, e depois de pessoas que eu nunca tinha visto na vida.

Lembro-me de receber um pedido de uma pessoa que era amiga de amigos de amigos e pensar: “Ok, espera lá... isto já não é só um hobby que faço para me divertir aos fins de semana.” Foi um daqueles momentos em que percebi que havia interesse real e que talvez valesse a pena levar esta paixão um pouco mais a sério. O mais engraçado é que tudo aconteceu de forma muito natural. Nunca houve um grande plano nem uma estratégia para me tornar muralista. Foi mais uma sucessão de oportunidades, de pessoas que gostavam do que viam e que me iam recomendando a outras pessoas. Acho que é isso que me dá confiança para continuar a investir tempo, energia e criatividade nesta área e vontade de perceber até onde é que posso ir.

Os teus murais têm uma identidade muito própria. Como a caracterizas e onde vais buscar inspiração para cada projeto?

Acho que tenho um estilo muito próprio de desenho, independentemente do suporte. Ou seja, nota-se quando uma peça é da minha autoria, quer seja um mural, um abajur, uma serigrafia ou um tote bag pintado. Vou buscar inspiração ao que me rodeia: às plantas que tenho em casa, às que vejo pelo caminho quando dou os meus passeios matinais e às que encontro em caminhadas. Diria que a grande característica que vejo no meu desenho (e na natureza), é que não há certos nem errados. Na natureza, quando um elemento não corresponde diretamente à nossa expectativa de como deveria ser, nunca consideramos que está mal: não julgamos uma folha por ser “torta”, isto simplesmente não acontece. Trazer essa liberdade para o desenho é um exercício e uma lição enorme que depois transporto para a vida. Tudo se faz, tudo se resolve, e no fim, tudo fica como deve ser.

Qual foi o mural mais desafiante que já fizeste e porquê?

Diria que os que foram fisicamente mais exigentes: fiz um mural num teto, que adorei, mas chegava ao fim do dia a ver estrelas, cheia de dores no pescoço por estar sempre a olhar para cima! Outro tinha 3,5 m de altura, e eu não tinha andaimes, por isso fiz tudo com um escadote: os meus pés chegavam ao fim do dia completamente desfeitos. E agora o último que fiz, na Sardenha, em que passava muitas horas ao sol, com dias de muito calor. Mas por mais duros que sejam os dias, mesmo que chegue ao fim dorida e cansada, estou sempre bem disposta e pronta para voltar no dia a seguir.

Um mural tem de ser para sempre?

Um mural não tem de ser para sempre. As pessoas mudam, as casas mudam, e a decoração pode mudar também. Se um dia fizer sentido seguir noutra direção, é tão simples como pintar por cima e começar uma nova história. Digo isto especialmente para quem adora a ideia de ter um mural, mas fica com receio de se fartar ou de mudar de gostos daqui a uns anos. Está tudo bem. Não é uma decisão irreversível nem um compromisso para a vida. Tudo se resolve. Por isso, se estão na dúvida, falem comigo.

Como concilias esta paixão pelos murais com a tua vida profissional e pessoal?

Tenho a sorte de trabalhar como freelancer, por isso os meus dias são geridos por mim própria. Antes disso, pintava os murais geralmente ao fim de semana e, quando não dava, tinha a sorte de estar rodeada por uma equipa que acreditava imenso em mim e que me apoiava nesta vertente da minha vida. Acabava por conseguir ter um horário flexível o suficiente para trabalhar fora de horas para o meu emprego “normal”.

Já pensaste em dedicar-te aos murais a tempo inteiro ou preferes que continuem a ser uma atividade que fazes sobretudo pelo prazer de criar?

Adoro poder explorar várias formas de expressão artística, por isso acho que qualquer atividade que ocupasse 100% do meu tempo acabaria por perder um pouco da magia. Para mim, é mesmo importante poder mudar de registo e de linguagem criativa consoante os projetos. Essa diversidade mantém-me motivada, desafia-me constantemente e acaba por enriquecer bastante o resultado dos próprios murais. Por isso, neste momento, gosto de os encarar como uma parte importante do que faço, mas integrada num universo criativo mais amplo.

Que outras obras de arte crias? Podemos ter acesso a elas?

De forma regular, faço serigrafias, que são uma espécie de prints com stencil. Depois, de forma um bocadinho mais espontânea, faço de tudo um pouco: pinto abajures, bordo, costuro, faço candeeiros com pasta de papel, fiz há pouco tempo umas peças com pasta de moldar e faço algumas coisas em madeira. Agora estou a transformar uns espelhos que encontrei no lixo ao pé de minha casa. Ou seja, não há grande regra e adoro um desafio. Partilho os processos e os resultados nas minhas redes sociais, e é por lá que podem ver, comprar e até propor/encomendar novos projetos. Talvez um dia faça uma exposição com várias peças que fui fazendo, quem sabe?

Como encomendar um mural teu?

É muito simples! Podem enviar-me uma mensagem pelo Instagram ou um e-mail para constancavd.work@gmail.com. O processo é super colaborativo: mostrem-me o espaço que gostavam de transformar e partilhem referências, ideias ou inspirações que tenham. Depois disso, vou fazer-vos um montão de perguntas para perceber melhor o ambiente, a casa e aquilo que procuram. A partir daí, vamos afinando o desenho em conjunto até chegar à versão certa. Com o desenho aprovado, é altura de o levar para a parede e dar vida ao espaço.

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