Conversar com Martim Taborda é um pouco como ouvir o seu disco de estreia: há uma tranquilidade que nunca se impõe, uma espécie de calma elétrica. A conversa sempre flui — não por falta de rumo, mas porque o caminho importa mais do que o destino. Não é de fretes, tampouco “de aparências ou de modas”. É assim que se (re)conhece na música, e assim que todos o podem conhecer em VERDE. Falamos do seu disco de estreia, mas também de pressa, de silêncio, de amor e de amizades únicas, bem como de canções que se escrevem com tempo e que nos obrigam a amadurecer o ouvido. Talvez este jovem artista não seja assim tão VERDE...
Agora diz-me tu... quem é Martim Taborda, o músico por detrás deste álbum?
Filho, irmão, tio, amigo, a viver no Dubai desde janeiro de 2024 a trabalhar nas operações de uma empresa que fornece combustíveis para navios na África Ocidental. Nas horas vagas, para combater a monotonia e a solidão, músico. Nos dias que correm, quem me tira um bar com boa música, cerveja fresca, um cinzeiro, o meu caderno e um par de canetas (para o caso de uma se estragar) tira-me tudo.
VERDE é começo, frescura ou hesitação? Em que medida este álbum diz mais sobre onde estás ou para onde queres ir?
O começo, claramente. É uma sensação muito estranha realizar um sonho que nunca tive, mas, depois, durante o processo, fui descobrindo que escrever e compor são coisas muito positivamente transformadoras. Escrever livremente os nossos pensamentos, fazê-los rimar, dar-lhes um tempo, uma métrica, são uma terapia fantástica. E, depois, ir para um estúdio e dar forma ao que nos vai na alma é muito gratificante. Trabalhar em estúdio, com outros músicos e produtores, foi-me muito confortável e posso dizer, com toda a certeza, que o “bichinho” mordeu e fez-me ver que gravar um disco é, seguramente, uma das coisas que me faz sentir no meu habitat natural. Mas também tive sorte com as pessoas com quem trabalhei, por isso, e se calhar ao contrário do que diz José Régio, “não sei para onde vou", sei que vou por ai.
Há quem veja o álbum de estreia como o mais puro — mas também o mais inconsciente. Que tipo de “primeiro gesto” é este?
É o primeiro gesto de quem não faz a menor ideia do que está a fazer [risos]. Por isso, talvez, é uma mistura das duas coisas, mas está tudo bem… Mesmo não sabendo bem o que estou a fazer, estou contente com o resultado e, acima de tudo, estou muito contente com o processo, com o que aprendi e com o que me diverti. Pegando naquele cliché de “não é o destino, é a viagem”, sem dúvida. A viagem foi incrível e o destino é exatamente aquele que tinha idealizado e isso, claro, é muito gratificante.
Tanto o jazz como a Bossa Nova são influências nítidas. De que forma moldaram o teu processo de composição e arranjo neste disco?
O Jazz e a Bossa Nova e música popular brasileira (MPB) são sem dúvida as pedras basilares da minha forma de me exprimir na música. Não só na guitarra, que é o instrumento que melhor me percebe, mas na forma como todos os elementos e frequências que produzem se misturam na minha cabeça e depois os transmito cá para fora. Há uma ginga muito própria na Bossa Nova, MPB, que permitem traduzir versos mais profundos, até mesmo tristes, em cores alegres e ideias de movimento. “Tristeza não tem fim, felicidade sim” [do tema "A Felicidade"] ou o “Chega de Saudade” são exemplos claros disto mesmo para mim. Como gosto muito de tocar João Gilberto, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Chico Buarque, Elis Regina, Maria Bethânia, entre outros, é normal que o que componha com a guitarra beba muito daí. Se somos o que comemos… é normal que componha aquilo que oiço e, claro, o Jazz e as suas referências mais ácidas e dissonantes são muito mais interessantes ao ouvido e, por inerência, à voz e àquilo que escrevo e componho.
A tua música move-se com subtileza, mas há uma tensão emocional muito presente. A leveza é o teu abrigo ou uma forma de resistência?
Acho que uma mistura das duas coisas. É tudo sério. O mundo é tão sério. Os nossos trabalhos são tão sérios. As nossas relações são tão sérias. Os nossos problemas são tão sérios. Qual é o mal de darmos alguma leveza a isso tudo? Desde há uns tempos que percebi que só vale a pena fazer as coisas se estivermos a aprender e nos estivermos a divertir… seja no trabalho, nas relações… o que seja. Não me faria sentido chegar ao fim de um poema mais pessoal, ou que me custou a escrever, e não lhe dar a volta… chegar ao fim da estrofe e não encontrar um verso ou uma palavra que me faça rir à gargalhada. Portanto, e agora que me fazes pensar nisso, esse meu abrigo é uma forma de resistência perante aquilo que se me apresenta tão sério.
Quem são os teus “fantasmas musicais”? Aqueles que teimam em não sair do teu sistema ou que te fazem ser melhor artista?
Esta pergunta tem várias respostas. Porque a nível de composição vou beber muito ao Brasil – João Gilberto, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Elis Regina, Erasmo Carlos, Roberto Carlos, Caetano Veloso, Maria Betânia, Chico Buarque – pela profundidade, mas também pela beleza das letras. Miguel Araújo é, sem dúvida, um dos meus mestres, pela capacidade de observação das coisas corriqueiras do quotidiano e, noutro espectro bem diferente (isto pode parecer estranho) O Sam The Kid, pela postura de “isto é a minha música e eu faço-a para mim e por mim. Se gostarem, fantástico. Se não gostarem, estarei no sítio do costume, com o meu caderno, a rabiscar o que eu quiser”. E não há mal nenhum nisso, antes pelo contrário. E, para além destes todos, o meu grande amigo Duarte Cordeiro de Sousa, um dos grandes culpados disto tudo.
Há sempre amor em VERDE — mas também saudade, destino, melancolia, e até silêncio. Que histórias escreves e quanto de ti contam?
Uma das coisas de que gosto no disco, e nas letras, é que é tudo verdade: “Vens de barco ou autocarro, eu vou-te buscar à Gare do Oriente” ou “Podia ter ganho o jogo” são situações que aconteceram mesmo ou coisas que senti de verdade. E quem (canta) a verdade não merece castigo, não é? Manter-me fiel ao que sinto e traduzir isso numa música pode ser doloroso, mas, depois junto uns pozinhos de leveza e rio-me disso… ou pelo menos tento. Claro que sendo episódios e pensamentos tão pessoais é normal que só quem me acompanha diariamente e pessoalmente consiga perceber tudo de fio a pavio. Se quem não me conhece, e não faz ideia de nada da minha vida, consegue identificar-se, gosta e canta as minhas músicas, claro que isso me traz um alento e um calor no coração. Quer dizer que não estou sozinho naquilo que sinto e, consequentemente, no que escrevo e canto.
És de letra ou de som primeiro? A palavra nasce do ouvido ou a melodia vem depois do verso?
Ora, como não faço ideia do que estou a fazer [risos], não posso dizer que tenha um processo definido. Vou fazendo conforme me apetece e, se gostar, excelente. Se não gostar, guardo para outro dia. Já tive músicas que comecei com a melodia do refrão… outras em que estava aborrecido com a guitarra e saiu-me um verso… outras em que escrevi o poema só pelo poema, que não era para ser uma música, mas acabou por ser. Tento não levar o processo muito a sério e ir fazendo se, como e quando me apetecer. Mas, claro, quem me dá um bar com boa música, cerveja fresca, um cinzeiro, um caderno e um par de canetas (para o caso de uma se estragar) dá-me tudo.
O que aprendes ou sentes quando ouves o teu próprio disco do princípio ao fim? És “tu” ali, ou apenas uma versão de ti? E, talvez mais importante, o que esperas que sinta quem te ouve?
Essa é fácil [risos]. Eu não oiço o meu disco! Já ouvi muito durante a composição, produção, mistura… e, agora que saiu, não oiço. Mas, sim, claro que sou eu nos acordes, nos tempos, nas pausas, 1000%. E gostava que quem ouve sinta isso e se identificasse com as músicas e as letras. Sentir que não estamos sozinhos através da nossa arte é muito aconchegante e dá-me alento para o que vem depois.
"Brisa Coisa Leve", o teu tema favorito, parece um hino à fugacidade. Tens medo do efémero ou há conforto em saber que tudo passa?
Achas um hino à fugacidade? Eu acho que fala das coisas mais importantes da vida, pelo menos para mim, que é o que eu quero. E o que eu quero é muito simples e começa logo ao ir dormir. Se o que eu quero é o resultado de uma brisa que passou por mim de uma forma breve, e se isso se traduz numa música com a qual as pessoas se identificam, fantástico. Já valeu a pena a brisa por muito que tenha sido breve. A parte da fugacidade… é só um mecanismo de defesa.
Acreditas em ti tanto quanto acreditam os que te rodeiam? Quem teve uma séria influência no teu caminho e ajudou-te em todo o processo?
Zero. Sou, seguramente, o meu pior inimigo e estou constantemente a duvidar do que faço e do que quero fazer. As coisas vão aparecendo e aparecendo… e vou navegando à vista a ver se chego a bom porto. Mas aprendi a fazer as pazes com esse processo, embora seja trabalhoso e, no fim de contas, não acho que me tenha safado mal, seja a nível profissional ou artístico. Claro que tive os meus comigo. Tenho muitos amigos que acreditam em mim e puxam muito por mim, muito embora eu duvide muito de mim próprio. Mas, de todos, o Duarte foi de longe o grande impulsionador da minha escrita e da minha capacidade. Quando tens alguém constantemente a dizer-te que és capaz… chegas a um ponto em que acreditas que és capaz. Sendo capaz, fazes. O que é facto é que se não fosse o Duarte, eu nunca teria pegado no caderno e na guitarra. Sem o Duarte, não estaríamos aqui a ter esta conversa.
Nas tuas redes sociais, partilhaste uma música nascida de uma conversa entre amigos e "escrita de rajada". É uma canção que guarda a leveza de um momento ou a promessa guardada que vislumbra um próximo disco?
Mais uma vez, e desculpa se for caso disso, é uma promessa guardada que vislumbra um próximo disco e que, ao mesmo tempo, guarda a leveza de um momento. Esta música foi escrita e improvisada pelo Duarte, numa noite muito efémera. Foi mais fruto do acaso do que de um momento planeado ou coisa que o valha, e isso é fantástico. E só demonstra a capacidade que o Duarte tem de escrever e de cantar coisas de improviso, de contar histórias com que as pessoas se identificam. O Duarte e eu temos muitas músicas escritas e feitas de rajada e gostava muito que o meu segundo disco fosse o resultado desses momentos, porque nos dizem muito pela escrita, pelo improviso e pela forma como nos relacionamos com a guitarra. Mas o futuro a Deus vosso Senhor pertence… por isso, vamos ver.
Que pergunta não te fiz, mas gostavas que soubessem a resposta?
A quem dedico este disco: oficialmente, aos meus pais, porque me ofereceram uma guitarra quando tinha 14 anos. Ao Duarte, por ter acreditado em mim, em momentos em que eu próprio não acreditava.
