Narcisismo | Fotografia: Unsplash
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Ele é Narcisista? – a resposta que ninguém te dá

O que define, afinal, um narcisista? O termo tem estado nas bocas dos portugueses. Maria Moreno, médica psiquiatra, assina este texto educativo, esclarecendo o termo que, como refere, já parece integrar o "o vocabulário comum".

Dr.ª Maria Moreno, médica psiquiatra

Hoje em dia, toda a gente é narcisista. O termo entrou no vocabulário comum. E teima em explicar todas as relações que correm mal e comportamentos difíceis.

Basta uma relação correr mal, uma pessoa não corresponder, desaparecer e voltar como se nada fosse, dar muito e depois não dar nada ou não dar o que esperamos, não ter empatia nos momentos certos, fazer-nos sentir que estamos sempre a pedir demais — e o diagnóstico aparece. “É narcisista.” Parece que explica tudo e encaixa que nem uma luva. Mas — e esta não é uma ideia popular — explicarmos mais não significa, necessariamente, que estejamos a explicar melhor. Nem tudo é narcisismo.
 
Uma pessoa pode ser egoísta, distante, inconsistente, não corresponder às (nossas) expectativas — e ainda assim não ser narcisista. Pode simplesmente não saber estar numa relação ou não nos queres ou saber dar o que precisamos. E isto é muito mais comum do que parece.
 
O problema do rótulo é este: é fácil e alivia. Organiza a dor, rapidamente mas, no final, impede-nos que a compreender verdadeiramente. Em vez de dizermos: “Isto é complexo e dói”, preferimos dizer: “Ele é narcisista”. E seguimos.

Mas rotular não resolve. O que interessa não é tanto o nome. É o impacto que isto tem em nós.
Como é que aquela relação nos faz sentir? Confusa. Desvalorizada. Insegura. Isso chega. Isso tem de chegar. Não é preciso um diagnóstico para reconhecer que algo não está bem.

E há outro ponto importante: relações tóxicas não são sinónimo de narcisismo. Não tem de haver sempre um claro “vilão”. Pode haver uma dinâmica que não funciona. Uma pessoa que não sabe relacionar-se ou corresponder à expectativa. Outra que insiste, que tenta mais (ou demais), que espera incessantemente que tudo mude para melhor. E vamos ouvindo sempre as mesmas frases que mantêm tudo: “não é sempre assim.”. Ou: “vai melhorar.” Ou: “também não é assim tão grave.”. E é neste lugar-comum que a relação fica. Envolta na dúvida se estamos a exagerar, na tentativa permanente de percebermos o que fizemos de mal, na necessidade contínua de nos ajustarmos.

Porque a esperança prolonga o que já não está a funcionar. É esta parte que prende. Não é o pior da relação. É o melhor — intermitente. Isto cria uma dependência emocional. O cérebro agarra-se ao pico, não à média. E ficamos.

E isto não é só sobre o outro. É também sobre o que toleramos e o conhecermos – ou não – os nossos limites. O que precisamos. E o que não queremos permitir. Temos dificuldade em ver isto.

Muitas vezes não vai mudar. Estamos dispostos a aceitar isso?
 
E há ainda uma parte menos confortável, mas essencial: a nossa. Porque, se não soubermos olhar para nós, o risco é repetirmos — não uma, mas várias vezes. E acabar a concluir “tenho azar ao amor” ou “só me aparecem pessoas assim”.

Nem sempre é assim. Há padrões que se repetem também do nosso lado: o que toleramos, o tempo que demoramos a reconhecer que algo não está bem, a dificuldade em sair, a tendência para esperar que mude, a esperança no “potencial” da pessoa ao nosso lado. Não é por falta de inteligência ou “ingenuidade” que isto acontece a maioria das vezes. Mas porque há coisas ali que nos são familiares. E tendemos sempre a aproximar-nos do que reconhecemos — mesmo quando não é o que nos faz bem. E é aqui que reside a verdadeira margem de mudança. Reconhecermos padrões para ganharmos a possibilidade de escolher.
 
O narcisismo, enquanto diagnóstico clínico, existe. Mas é raro. É um padrão rígido, marcado por falta de empatia, necessidade constante de admiração e dificuldade em reconhecer o outro.

Não representa a maioria das relações que correm mal.

Não quero que desvalorizem os sinais que devem ser levados a sério. Mas quero que saibam que, mesmo aqui, o foco mantém-se: não é o rótulo. É o impacto que tem em nós. E, isso, não é menos importante.

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