Anna Carvalho e Inês Dubini
Anna Carvalho e Inês Dubini
Design e Artes

São exemplos na natação artística e podem levar Portugal aos Jogos Olímpicos. Quem são Anna e Inês?

A natação artística não é um desporto ainda devidamente reconhecido em Portugal. Quem sabe Anna Carvalho e Inês Dubini o consigam ao chegar aos Jogos Olímpicos Los Angeles 2028.

Nem sempre é à primeira que se encontra o caminho certo e a história de Anna Carvalho e Inês Dubini prova-o. Foi preciso experimentar e, acima de tudo, seguir a intuição para que ambas descobrissem na natação artística não só uma modalidade, mas uma verdadeira paixão.

Hoje, formam uma dupla em sintonia dentro e fora de água, movida por uma amizade sólida, por desafios superados e por um sonho comum: levar Portugal aos Jogos Olímpicos.

Entre treinos intensos, lesões difíceis e a luta por maior visibilidade numa modalidade ainda pouco reconhecida no país, Anna e Inês constroem, todos os dias, um caminho feito de disciplina, criatividade e paixão. Nesta entrevista, revelam como tudo começou, o que as une e até onde querem chegar.

 

Anna Carvalho (esquerda) e Inês Dubini (direita) | Fotografia: D.R.

Qual o primeiro desporto que praticaram e com que idade?

Anna: O meu primeiro contacto com o desporto foi na natação pura, por volta dos 8 anos.

Inês: Comigo foi igual. Também comecei pela natação pura, mas um pouco mais cedo, aos 6 anos. Esse foi o ponto de partida.

Quando é que se apaixonaram pela natação artística? Alguém vos influenciou nessa escolha?

Inês: No meu caso, praticava natação pura, mas não gostava da modalidade. Só estava lá porque a minha mãe queria, e com toda a razão, que eu aprendesse a nadar. Ao fim de três ou quatro anos, percebi que aquilo não era para mim e decidi sair. Fiquei num impasse, porque adorava estar na água, mas não queria nadar de forma tradicional. Foi então que a minha mãe descobriu que o Clube Fluvial Portuense tinha natação artística. Fui assistir a um treino, adorei ver as raparigas mais velhas a fazer as coreografias e inscrevi-me. A partir daí, a paixão só cresceu.

Anna: Eu estava a praticar natação e, na pista ao lado, ao mesmo tempo, decorria o treino de natação artística. Tal como a Inês, eu não gostava de natação pura e passava o tempo a olhar para o lado, encantada. Um dia, ao sair do treino, a treinadora de artística chamou-me e perguntou se eu queria experimentar. Aceitei e nunca mais saír.

Como é que se conheceram?

Inês: Eu já treinava no Fluvial desde 2015. A Anna veio do Brasil em 2020 e os pais dela escolheram vir para o Porto precisamente porque o Fluvial era uma referência na natação artística e queriam que ela continuasse a praticar. Nos primeiros dois anos não treinámos juntas porque, como sou um ano mais velha, estávamos em escalões diferentes. Quando a Anna passou para júnior, a nossa treinadora percebeu que éramos muito parecidas fisicamente e tecnicamente. Decidiu juntar-nos e, desde então, formamos uma dupla.

A amizade e cumplicidade entre vocês é visível. De que forma isso influencia o desempenho e a rotina de treino?

Anna: Temos uma relação muito boa, tanto dentro como fora de água. Isso faz com que nos entendamos quase sem falar e que, às vezes sincronizemos movimentos de forma instintiva. Existe uma sintonia natural. Motivamo-nos mutuamente e é ótimo ter uma amiga ao nosso lado que passa exatamente pelas mesmas dificuldades e desafios.

Inês: Como estamos a viver a mesma realidade, puxamos muito uma pela outra. Esse apoio faz toda a diferença na nossa evolução.

O que têm de abdicar devido à dedicação ao desporto?

Inês: O que mais custa é que o tempo com a família e amigos acaba por ser muito reduzido. No entanto, eu defendo que há tempo para tudo se houver equilíbrio. Embora o nosso horário seja muito preenchido, especialmente agora que estamos ambas na vida académica, tentamos sempre encontrar momentos para estar com quem gostamos. O desporto exige muito, mas a vida tem de ser feita desse equilíbrio.

Anna: Sem dúvida, concordo totalmente. Abdicamos de momentos importantes, mas com esforço e organização, conseguimos conciliar tudo.

Quais foram os maiores desafios que enfrentaram até agora e como os superaram?

Anna: Diria a falta de visibilidade da modalidade, a escassez de apoios e, mais recentemente, as lesões. Mas acho que faz parte da vida de um atleta conseguir superar estes e outros obstáculos. Temos um sonho muito claro e sabemos que o percurso não é linear, tem altos e baixos.

Inês: Falando de visibilidade, recentemente temos tido um grande apoio através do projeto Heróis Betano, que nos proporcionou oportunidades que nos abriram portas a oportunidades que, até há pouco tempo, pareciam impensáveis. A natação artística tem muito pouca visibilidade em Portugal, as pessoas não têm noção do quão difícil e exigente este desporto é. O apoio da Betano permitiu-nos ir a provas internacionais que o clube, por si só, não conseguiria suportar, dado o elevado número de atletas que tem na estrutura.

Anna: Sem dúvida. Além disso, o contacto com treinadoras internacionais é também fundamental para a nossa evolução técnica.

Inês: Sim, esses estágios foram muito importantes. Além da aprendizagem, trouxeram-nos visibilidade. Atualmente, o nosso maior obstáculo é recuperar de duas lesões complicadas que surgiram subitamente. Foi difícil aceitar que tínhamos de abdicar de uma das poucas provas internacionais da época, mas estamos focadas na recuperação. No desporto de alta competição é vital saber ouvir o corpo e parar quando necessário, mesmo quando a nossa vontade é continuar a lutar pelos nossos objetivos.

Representar Portugal nos Jogos Olímpicos Los Angeles 2028 seria histórico. Como é que se estão a preparar para atingir esse objetivo?

Inês: Ultimamente o foco tem sido a recuperação das lesões, mas o plano passa por muito trabalho e muitas horas de treino. Precisamos de competir fora, de marcar presença internacional. Neste desporto, a visibilidade conta muito: quanto mais um país aparece, mais os juízes começam a olhar para nós de forma diferente. O apoio que temos agora é crucial para conseguirmos competir mais vezes e sermos postas à prova, já que a nível nacional temos poucas competições.

Anna: É isso: resume-se a muito, muito treino.

Como equilibram a preparação física com a criatividade artística? Quem pensa nas coreografias?

Anna: É um equilíbrio constante, porque se trata de um desporto muito complexo. Precisamos de combinar a força física com a sensibilidade artística. A Sílvia, a nossa treinadora, é a grande responsável. Ela é extremamente criativa e está sempre à procura de novos temas e formas de tornar o nosso dueto mais afinado e profissional.

Inês: Sim, a treinadora pede-nos sempre opinião. Quando chegamos a um consenso sobre o tema, montamos a música. A Sílvia tem muito jeito para a edição e a Anna, que agora está a estudar nessa área, também dá uma ajuda preciosa. A criação da coreografia acaba por ser um trabalho das três: a Sílvia traz as ideias e nós adaptamo-las dentro de água para perceber o que é exequível e confortável para nós. Embora o trabalho na água seja o foco principal, temos uma grande componente que é realizada fora de água, principalmente relacionada com força, ballet e flexibilidade. Depois, na água, trabalhamos a natação para ganhar velocidade e a técnica específica da modalidade. Atualmente, a impressão artística tem um grande peso na pontuação, tanto como a dificuldade técnica. É um desporto muito completo que exige que todas estas componentes funcionem em simultâneo.

Olhando para o futuro, que mensagem gostariam de deixar para jovens atletas que sonham em seguir o vosso caminho?

Anna: É uma pergunta difícil, mas diria para acreditarem sempre que tudo é possível. Independentemente do que os outros digam, se têm um sonho, lutem por ele até ao fim.

Inês: É um caminho atribulado e com muitos obstáculos, mas o segredo é confiar no processo e nas pessoas que nos rodeiam. Não é um percurso fácil, mas é tão difícil quanto bonito. No final, as recompensas superam os momentos maus. O desporto torna-nos pessoas melhores, mais completas, confiantes e seguras.

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