Na moda, universo que por aqui tanto exploramos, passamos o tempo a procurar novidade, a decifrar códigos invisíveis, a entender narrativas criadas por grandes Casas de moda. Cada coleção conta uma história, exige atenção, provoca, e por vezes rejeita-nos. O Natal tem exatamente a mesma narrativa: exige que a compreendas, que participes, que te rendas ao absurdo. A camisola com renas, feia e exagerada, pode fazer-te revirar os olhos, mas a sua existência é ritual, é riso coletivo e pertença silenciosa. A tradição de aceitar o ridículo, de rir do que nos incomoda, de participar mesmo sem vontade — tudo isso compõe a história que se repete, ano após ano, e que estranhamente nos une.
E há a família. O Natal não é só riso, exagero e excesso de comida; é feito de quem está connosco e também de quem já não temos. Muitos de nós sentiremos este ano a ausência de alguém que antes se sentava à mesa. A forma como escolhemos viver essa dor é um ato de rebeldia silenciosa: celebramos quem está, lembramos quem foi, aprendemos a integrar a ausência na tradição e as lágrimas na homenagem. Na moda, acontece o mesmo: criativos desaparecem, Casas reinventam-se, coleções acabam, e nós continuamos a admirar o legado, conscientes da ausência, tentando não a esquecer... Saudade e homenagem coexistem, repetidas, como uma estética de memória.
E, claro, há o exagero, o consumo quase satírico que tanto a moda como o Natal compartilham. Nas montras, as propostas das marcas prometem distinção; nas nossas salas, o mesmo Pai Natal de cerâmica surge ano após ano, orgulhosamente igual. É um contraste delicioso: a moda celebra o disruptivo, o inesperado; o Natal celebra o familiar, o consentido, o ridículo que nos conforta. Ambos provocam riso e reflexão, ambos nos obrigam a olhar para nós mesmos, e, acima de tudo, para quem nos rodeia.
Há beleza neste anti-trend. No gesto repetido, na camisola feia, na música que (quase) todos fingimos ouvir com entusiasmo. No brilho exagerado da árvore, no excesso de decorações, no tio que repete o mesmo comentário: tudo cria um quadro caótico e, ainda assim, cheio de sentido. Compreender este caos é compreender-nos a nós próprios, e às nossas memórias, presentes e ausências.
No fim, a ousadia verdadeira é aceitar que o esperado também é necessário. Que a camisola feia tem o seu papel, que a repetição cria laços, que o ritual — mesmo cínico para alguns — é, no fundo, amor. Como na moda, como na vida: o excesso, a repetição, a irreverência e a saudade coexistem, e todos eles são parte do mesmo código.
O Natal, como qualquer narrativa de moda bem construída, obriga-nos a perceber o mundo, a nós próprios e aqueles que já não estão connosco. E, mesmo para o Grinch que escreve estas linhas, isso é impossível de ignorar.
