Sabes o que é o lipedema? | Fotografia: Unsplash
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Lipedema: muito mais do que apenas "pernas gordas"

Cada vez mais se fala em lipedema e num diagnóstico que chega tardio, mas a tempo de atuar. Um artigo educativo pela Dra. Joana de Carvalho, cirurgiã vascular especialista em lipedema.

Dra. Joana de Carvalho, cirurgiã vascular especialista em lipedema

Muitas vezes confundido com obesidade ou com a vulgar retenção de líquidos, o lipedema é uma doença crónica e inflamatória que afeta maioritariamente as mulheres, caracterizando-se por uma acumulação desproporcional de gordura nos membros inferiores e, em cerca de 30% dos casos, também nos braços. Ao contrário da gordura comum, esta acumulação não responde às dietas hipocalóricas, nem ao exercício físico intenso, criando a sensação frustrante de se viver com "dois corpos separados": um tronco magro e umas pernas volumosas que parecem não pertencer ao resto do corpo.

É fundamental compreender que não se trata de desleixo ou falta de força de vontade, mas sim de uma condição médica que, se não tratada, pode evoluir, comprometendo a qualidade de vida das pacientes e até mesmo a sua mobilidade.

O diagnóstico do lipedema é essencialmente clínico, baseando-se na observação e na história da paciente, uma vez que não existem análises de sangue ou exames de imagem específicos que confirmem a doença. Os sinais de alerta são claros e distinguem-no de outras patologias: a gordura distribui-se de forma simétrica e bilateral, tipicamente "poupando" os pés e as mãos (criando o efeito de "garrote" no tornozelo ou punho), e a zona afetada apresenta dor ou hipersensibilidade ao toque e uma tendência marcada para a formação de equimoses (nódoas negras) espontâneas ou com traumatismos mínimos. Além disso, as pacientes relatam frequentemente sensação de peso, cansaço extremo nas pernas e alterações na textura da pele, semelhante a "casca de laranja" ou com nódulos palpáveis.

Embora não exista uma cura definitiva, há tratamento eficaz focado em controlar a inflamação e melhorar a qualidade de vida, assentando em pilares conservadores fundamentais: a alimentação anti-inflamatória (evitando processados, muitas vezes glúten e laticínios – mas estes “gatilhos” alimentares são muito individuais), o uso de contenção elástica (meias de malha plana adequadas e individualmente prescritas) e a prática de exercício físico de baixo impacto, como atividades aquáticas, que favorecem a drenagem sem sobrecarregar as articulações. O objetivo primordial desta abordagem não é apenas estético, mas sim a redução da dor e a prevenção da progressão da doença, sendo crucial evitar o ganho de peso, que atua como um gatilho inflamatório.

Nos casos em que o tratamento conservador não é suficiente para controlar os sintomas ou a desproporção corporal, pode considerar-se o tratamento cirúrgico através de lipoaspiração especializada para a doença (técnicas como WAL ou PAL), desenvolvidas para remover o tecido adiposo doente preservando os vasos linfáticos. Contudo, a cirurgia não deve ser vista como um "milagre" isolado, mas sim como parte de um processo que exige compromisso contínuo com um estilo de vida saudável e anti-inflamatório para manter os resultados a longo prazo. O mais importante é reconhecer que existe uma solução e que é possível voltar a sentir leveza e fazer as pazes com o próprio corpo, recuperando a qualidade de vida.

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