Fotografia: Marco Fonseca
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Nuno Baltazar: A cor (na adversidade) pode salvar um mundo do avesso

A ModaLisboa dita tendências, é uma mostra de criadores nacionais e é um espaço de reflexão. E Nuno Baltazar juntou tudo num só desfile.

O mundo não tem tido descanso. Depois de uma pandemia e quando já se pensava mais em moda e no que vestir  para se aproveitar o que não se viveu em dois anos, surge uma guerra e todas as suas consequências. A associação entre este cenário e a coleção South Garden, apresentada por Nuno Baltazar na ModaLisboa, não é imediata, até porque na passerelle vimos tanta cor, que mais parecia uma coleção de celebração. Mas não. É um colete anti balas. 

A ideia de fazer da moda um escudo de proteção para os tempos que vivemos surgiu no dia em que Nuno Baltazar assistiu a um documentário de 1975 sobre Edith Beale.  

“É uma mulher que vive num universo completamente decadente e muito pobre, mas que tem quase uma atitude esquizofrénica perante a vida. Portanto, reage de uma forma oposta à adversidade. Isto é: projeta-se com grandiosidade, com cor”, começa por explicar Nuno Baltazar à VERSA. 

A pensar “no que se passa no mundo inteiro, na Europa em particular”, o designer decidiu então fazer o mesmo que Edith, de modo a fazer frente ao momento que vivemos. "Quis agarrar-me à cor como uma forma de reação", refere.  

Percebemos que a cor é, sem dúvida, a principal tendência de Nuno Baltazar para a primavera/verão 2023, mas não só.

É também o tafetá, o “contraste entre telas mais secas, de algodão” e os “elementos com brilho, que apareceram praticamente só em duas peças de forma integral, mas depois aparece muito nos acessórios, como as luvas”.  

Salva-nos a moda — e Nuno Baltazar  

O mundo em geral encontra-se numa fase sombria e o da moda não é exceção.  

“Vejo-o bastante negro e reajo com bastante relutância a bastantes coisas que têm acontecido. Não gosto nada de ver figuras públicas a assinar coleções”, reflete Nuno Baltazar, que dá como exemplo marcas internacionais. “As marcas não precisam de Kardashians para sobreviverem, acho eu. Vejo com bastante tristeza essas associações a acontecerem internacionalmente, sinceramente”, continua.  

Mas, mais do que a forma como as marcas tentam chegar ao público, o designer português questiona a forma como o público olha para os criadores.

Há uma enorme desvalorização do trabalho do designer. É uma luta que tenho e acho que é muito importante. Os designers da moda de autor são diferentes dos outros e devem ser respeitados por isso e conhecidos pelo seu valor e trabalho”.

Apesar de tudo, a luta de Nuno Baltazar é feita de sucessos que o têm levado desde 1999 à ModaLisboa. “Estar aqui, em família, a lutar para que a moda de autor em Portugal seja apresentada com dignidade, é uma força coletiva e eu quero fazer parte dessa força. E sinto-me grato por estar aqui e poder contribuir com o meu trabalho”.  

Num mundo que mais parece a preto e branco, vale-nos o designer que o veste com cor. Na galeria está uma coleção que quer trazer ânimo para os próximos tempos. 

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