Ou o que nos espera é um guarda-roupa bege, aprovado por influencers que falam de self-care como quem recita mantras?
Em 2006, a moda era uma ópera — e O Diabo Veste Prada foi o seu solo mais afinado. Andy Sachs trocava os seus cardigans depressivos por botas Chanel, e cada mudança de roupa tinha um enredo. Transformação. Drama. Desejo. Muito desejo. A personagem de Anne Hathaway não se vestia: declarava-se. Fazia parte de uma mitologia editorial onde cada saia plissada era uma narrativa. E sim, às vezes era ridículo — mas gloriosamente ridículo. Um delírio consciente. Uma ode ao excesso com propósito.
Vivíamos numa era em que Anna Wintour levantava uma sobrancelha e fazia tremer as Semanas de Moda. Era uma época em que o risco era celebrado e o "mau gosto sofisticado" uma categoria válida. A moda era tudo menos tímida. Era atitude — até arrogância. E isso, curiosamente, era libertador.
Avançamos para 2025 e o cenário mudou. Hoje, vivemos sob o regime do "bom gosto responsável". As calças de ganga são recicladas, os blazers são eternamente “intemporais” (leia-se: inofensivos), e os logótipos, outrora bandeiras de identidade, tornaram-se cringe. As redes sociais ditam microtendências à velocidade de um swipe, e o estilo pessoal tornou-se uma tabela de Excel com “essenciais versáteis”.
Claro: há progressos urgentes e indiscutíveis. Sustentabilidade. Inclusão. Diversidade. Mas em nome da consciência e de uma cultura de cancelamento, achamos por bem matar o risco. Transformámos a moda — essa arte dos extremos — numa dieta alcalina de algodão orgânico. Uma moda que não morde, não ofende, não estremece. Que cumpre. Que agrada. Que se desculpa.
Andy, se fosse estagiária em 2025, não vestiria botas Chanel. Usaria ténis Veja, calças beges e beberia matcha sem glúten, enquanto esfregava a cara em pepino num vídeo do TikTok. Miranda Priestley já não gritaria. Enviaria um e-mail passivo-agressivo com emojis bonitos.
A moda, hoje, é mais eficiente. Curada. Eticamente neutra. Mas perdeu a criatividade nesta narrativa. Trocaram-lhe a alma rebelde por um selo de aprovação da ONU. E está tudo certo. Demasiado certo.
A moda de O Diabo Veste Prada era um romance tórrido, um desejo desgovernado. Em 2025, é um namoro com cláusulas ambientais que desconhece a beleza da insanidade. E talvez por isso os anos 2000 nos voltem a seduzir: porque, por mais absurdos que fossem, eram vivos. Eram indisciplinados. Apaixonantes.
Hoje, não nos desafia. Cumpre diretrizes. A rebeldia foi higienizada. A excentricidade deu lugar à “funcionalidade refinada”. E está tudo certo. De novo, demasiado certo.
Porque, sejamos honestos: às vezes, o Diabo veste Prada. Mas em 2025… veste Tencel, só bebe água de uma garrafa Stanley, e pede desculpa por não seguir a it girl da semana. Não estão aborrecidos?
Pode ser que o próximo filme nos anime...
