Mulher na balança | Fotografia: Getty Images, Hirz
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Medicamentos para emagrecer: revolução… ou adiamento do inevitável?

António Albuquerque, cirurgião e coordenador da Clínica da Obesidade do Hospital Cruz Vermelha, assina este artigo educativo para esclarecer uma dúvida importante: medicamentos para emagrecer evitam a cirurgia da obesidade?

A pergunta é legítima e está na mente de muitos doentes: com os novos medicamentos para emagrecer, ainda é necessária cirurgia para tratar a obesidade?

A resposta curta é: em alguns casos, podem adiar, mas na maioria dos casos de obesidade grave, não substituem.

Os novos fármacos, nomeadamente os análogos do GLP-1 e moléculas semelhantes, representam um avanço relevante. Conseguem induzir perdas de peso significativas enquanto estão a ser administrados, sobretudo através da redução do apetite e do aumento da saciedade.

São uma ferramenta útil e, para muitos doentes com excesso de peso ou obesidade inicial, podem ser uma ajuda importante. Mas é fundamental distinguir duas realidades: perder peso não é o mesmo que tratar a obesidade.

Dr.º António Albuquerque | Fotografia: D.R.

A obesidade é uma doença metabólica crónica caracterizada por acumulação excessiva de gordura corporal e por mecanismos biológicos que favorecem a sua manutenção. Quando o medicamento é suspenso, o organismo tende a recuperar o peso perdido. Os estudos mostram que o reganho é frequente e relevante. Isto significa que, na prática, o tratamento tem de ser prolongado e por tempo indefinido.

Já a cirurgia bariátrica atua de forma estrutural e duradoura. Procedimentos como o bypass gástrico ou as derivações biliopancreáticas não apenas reduzem a capacidade do estômago, como alteram o trânsito intestinal e promovem uma resposta hormonal intensa, com aumento natural de hormonas como o GLP-1, produzidas pelo próprio intestino. Além disso, reduzem parcialmente a absorção de gorduras.

O resultado é uma modificação profunda dos mecanismos da doença. Por isso, a cirurgia continua a demonstrar maior perda de peso média, maior taxa de manutenção a longo prazo e maior probabilidade de remissão de doenças associadas, como a diabetes tipo 2.

Há ainda dois aspetos pouco discutidos

Primeiro, a previsibilidade do risco. A cirurgia bariátrica é realizada há décadas, com protocolos bem definidos e taxas de complicações baixas em centros experientes. Os riscos são conhecidos, estudados e controlados.

Segundo, o custo-eficácia. Embora a cirurgia implique um investimento inicial, é um tratamento único, com benefícios prolongados no tempo. A terapêutica farmacológica, pelo contrário, implica custos contínuos e potencialmente indefinidos.

Isto não significa que medicamentos e cirurgia sejam opções rivais. Podem ser complementares e devem ser individualizados. Mas afirmar que os novos fármacos vieram “substituir” a cirurgia não corresponde à evidência científica atual.

A cirurgia bariátrica continua a ser, para a obesidade moderada a grave, a intervenção mais eficaz, mais duradoura e com perfil de risco mais bem conhecido.

Os medicamentos podem ajudar, mas muitos doentes não evitam a cirurgia, apenas mudam o momento da decisão.

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