No Dia Nacional de Luta Contra a Obesidade, assinalado a 23 de maio, talvez seja tempo de abandonar uma falsa discussão: a ideia de que o tratamento da obesidade se resume a escolher entre medicação ou cirurgia.
Nas últimas semanas, estudos internacionais sugeriram uma estabilização e até redução da obesidade em alguns países ocidentais, incluindo Portugal. Embora seja cedo para conclusões, os novos medicamentos poderão estar a contribuir para esta mudança.
Os agonistas dos recetores GLP-1 e GIP/GLP-1, como semaglutido e tirzepatido, revolucionaram o tratamento da obesidade. Há poucos anos seria difícil imaginar perdas ponderais de 15 a 20% sem cirurgia, com benefícios importantes no peso, metabolismo e risco cardiovascular.
Mas importa prudência: a obesidade é uma doença complexa e multifatorial, e não podemos atribuir esta evolução exclusivamente aos medicamentos. Uma coisa, contudo, é inequívoca: os fármacos mudaram profundamente o paradigma terapêutico.
Enquanto cirurgião bariátrico e coordenador da Clínica da Obesidade do Hospital da Cruz Vermelha, sempre defendi uma visão integradora das várias modalidades terapêuticas da obesidade. Nunca vi medicação e cirurgia como rivais, mas como ferramentas complementares, cuja utilização deve ser individualizada e centrada no doente.
A cirurgia bariátrica e metabólica continua a ser, para doentes com indicação adequada, o tratamento mais eficaz e duradouro na perda de peso sustentada, melhoria metabólica e redução do risco cardiovascular.
Dados recentes publicados numa das principais revistas cirúrgicas internacionais mostraram uma redução da cirurgia bariátrica nos EUA numa era de crescimento dos agonistas GLP-1, alertando para o risco de doentes elegíveis atrasarem intervenções potencialmente mais eficazes e duradouras.
Um exemplo ajuda a perceber esta realidade. Um doente com 130 kg e obesidade clinicamente significativa poderá perder cerca de 20% do peso corporal com medicação, um resultado impensável há poucos anos. Ainda assim, perderia cerca de 26 kg e permaneceria com mais de 100 kg. Em muitos casos haverá ganhos metabólicos importantes; noutros, sobretudo na obesidade grave, não devemos atrasar uma cirurgia quando ela está indicada.
O desafio não é escolher entre medicamentos e cirurgia, mas integrá-los inteligentemente e referenciar atempadamente os doentes certos. Outra preocupação merece reflexão: assistimos cada vez mais a doentes seguidos em consultas pontuais de Endocrinologia ou Medicina Geral e Familiar, muitas vezes centradas sobretudo na prescrição farmacológica, sem verdadeira integração multidisciplinar. A obesidade não deve ser tratada como uma simples receita médica.
Tal como acontece na cirurgia, também a terapêutica farmacológica beneficia de acompanhamento por Nutrição, Psicologia e seguimento clínico continuado. Prescrever medicação sem integrar o doente num percurso terapêutico consistente pode limitar resultados e comprometer mudanças sustentáveis. A prioridade deve ser tratar o doente certo, no momento certo, com a combinação terapêutica certa.
A obesidade é uma doença crónica, complexa e heterogénea. Não há soluções mágicas. Mas há algo que a evidência já mostrou: deixar de opor medicamentos e cirurgia pode ser um dos maiores avanços dos próximos anos.
