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Depois do Ozempic, uma mudança histórica na forma como valorizamos a obesidade

A Organização Mundial da Saúde tem novas diretrizes sobre o uso de fármacos contra obesidade. Este artigo educativo é assinado pelo Prof. Doutor Gil Faria, cirurgião especialista em Obesidade e Doenças Metabólicas.

Prof. Doutor Gil Faria | Fotografia: D.R.

A recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) para o uso de medicamentos da classe dos análogos GLP-1 no tratamento da obesidade marca um ponto de charneira histórico. Não apenas na prática clínica, mas, sobretudo, na forma como a sociedade compreende a obesidade. Pela primeira vez, uma instituição global vem afirmar, de forma inequívoca, que a obesidade é uma doença crónica, que merece tratamento médico sério e não um conjunto de conselhos moralistas sobre força de vontade.

Durante décadas, a narrativa dominante foi paternalista: “coma menos”, “tenha disciplina” e “faça mais exercício”. Uma visão reducionista que culpabilizou milhões de pessoas que carregam nas costas o peso biológico da doença, mas, acima de tudo, o peso emocional do julgamento social. A entrada oficial dos fármacos na lista de medicamentos prioritários da OMS desmonta esta narrativa. Se a obesidade melhora com medicação que atua no metabolismo, nas hormonas intestinais e nos circuitos cerebrais da fome e da saciedade, então fica evidente que nunca foi uma questão de preguiça, foi sempre de Biologia.

Em Portugal, esta orientação tem um impacto profundo. Por um lado, reforça a legitimidade da prescrição destes fármacos em centros especializados, como parte de um tratamento multidisciplinar e não como “injeções milagrosas”, para uso recreativo. Por outro, coloca uma pressão social gigantesca para a erosão do estigma.

Se uma doença responde a tratamento farmacológico, então não pode ser moralizada. Se requer profissionais especializados, não pode ser reduzida a conselhos de revista. Se exige acompanhamento contínuo, não pode ser vista como falha pessoal.

Este avanço científico é desconfortável para muitos, porque desmonta convicções antigas. Vivemos numa cultura que associa elegância a virtudes morais de disciplina, controlo e sacrifício; e obesidade a falhas de carácter. A ciência agora diz o contrário: não é virtude, é Fisiologia. Não é falha, é doença real. E doença real exige tratamento real. A obesidade não é um fenómeno comportamental, mas um distúrbio metabólico complexo. Que envolve genética, hormonas, ambiente, microbiota, sono, stress e muito mais. Pela primeira vez, o debate público aproxima-se da verdade científica: ninguém escolhe viver com obesidade.

A OMS deu um passo decisivo. Resta-nos agora acompanhar este avanço com políticas mais justas, comunicação mais honesta e uma prática clínica que combata o preconceito e coloque o doente no centro. A ciência mudou, ainda falta mudar a sociedade.

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