Balança | Fotografia: Unsplash
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"Estamos a viver um momento particularmente relevante no tratamento da obesidade"

Na Semana da Obesidade, refletimos sobre a doença com o Dr. Gil Faria, cirurgião especialista em obesidade e doenças metabólicas.

Durante muito tempo, a obesidade foi vista sobretudo como uma consequência de hábitos individuais. No entanto, a ciência tem vindo a demonstrar que é uma condição muito mais complexa: a obesidade é uma doença crónica, multifatorial e progressiva, que envolve mecanismos biológicos sofisticados responsáveis pela regulação da fome, da saciedade, do metabolismo e do armazenamento de energia.

Reconhecida como doença pela Organização Mundial da Saúde desde 1948, a obesidade continua a ser um dos maiores desafios de saúde pública do século XXI e o aumento da sua prevalência em todo o mundo trouxe uma nova urgência à forma como médicos, investigadores e decisores políticos encaram esta condição. Ao mesmo tempo, cresce também a consciência de que o estigma social associado à obesidade continua a ser um dos maiores obstáculos ao diagnóstico e tratamento adequados.

Mudar a forma como falamos sobre esta doença, e como apoiamos quem vive com ela, tornou-se parte essencial da resposta.

Na Semana da Obesidade, a VERSA falou com o Prof. Doutor Gil Faria, cirurgião especialista em obesidade e doenças metabólicas, para perceber melhor o impacto das novas abordagens médicas, as inovações terapêuticas e os desafios que ainda persistem no combate a esta doença.

De que forma a classificação da obesidade como doença pela OMS mudou a abordagem médica e social a esta condição? 

A OMS reconhece a Obesidade como doença crónica há cerca de 80 anos. Oficialmente consta da “lista de doenças” desde 1948, mas, até ao início do século XXI, foi globalmente ignorada. Apenas um problema crescente de saúde pública levou a que fosse reconhecida sucessivamente por diversos países como doença crónica e debilitante desde o início deste século. Nos últimos meses, a OMS veio dar um passo fundamental na forma como olhamos para a obesidade. Durante décadas (apesar de ser classificada como uma doença), devido ao desconhecimento dos seus mecanismos e da ausência de controlo eficaz, a obesidade foi tratada apenas como uma consequência de escolhas individuais erradas: comer demais, falta de disciplina, excesso de preguiça. Essa narrativa, simples e lógica, mas errada, alimentou preconceitos e deixou milhões de pessoas com sentimentos de culpa e incapacidade por algo que, na verdade, é muito mais complexo. 

Ao reconhecer, recentemente, que os fármacos para tratamento da obesidade devem ser utilizados e disponibilizados a um maior número de pessoas, a OMS veio legitimar aquilo que a ciência das últimas décadas já demonstrava: a obesidade envolve alterações nos mecanismos biológicos que regulam a fome, o apetite, a saciedade, o armazenamento energético e o metabolismo. O cérebro, o pâncreas, o fígado e o intestino são regulados por um complexo sistema hormonal, influenciado pela genética e pelo ambiente de forma altamente sofisticada. Não se trata apenas de força de vontade se, com uma “simples” administração de uma hormona sintética, conseguimos regular este complexo mecanismo e permitir um controlo eficaz da obesidade. 

Esta mudança teve um profundo impacto clínico e social. Clinicamente, reforçou a necessidade de tratamento adequado, com acompanhamento a longo prazo, equipas multidisciplinares e a implementação de tratamentos eficazes (farmacológicos ou cirúrgicos). Mas mais importante do que isso, socialmente, abriu espaço para uma conversa mais justa: se é uma doença real, merece tratamento e não julgamento. O estigma ainda existe, mas do ponto de vista científico já não é aceitável reduzir obesidade a uma falha moral. 

Que passos são essenciais tomar para baixar as taxas atuais de obesidade? 

Reduzir as taxas atuais de obesidade exige abandonar soluções simplistas. Não basta repetir conselhos genéricos. É necessário atuar em várias frentes em simultâneo e ter paciência para aguardar pelos resultados, que podem demorar décadas. Após estabelecida a doença, o seu tratamento é complexo e exige terapêutica e acompanhamento a longo prazo. Assim, a “esperança” para um controlo de nível populacional passa pela prevenção da obesidade. 

E, para isso, temos de melhorar (ou recuperar) hábitos alimentares e comportamentais que tentem contrariar a tendência genética para a obesidade. Vivemos rodeados de alimentos ultraprocessados, acessíveis, baratos e prazerosos. Temos de melhorar a qualidade dos alimentos disponíveis, fomentar nas escolas a dieta mediterrânica e até ajustar a política fiscal para favorecer o consumo de alimentos mais saudáveis. A obesidade não é apenas um problema individual, mas um reflexo da sociedade em que vivemos. 

E, depois, precisamos de uma resposta mais integrada dos sistemas de saúde. Muitos doentes continuam num desespero constante, com dietas sucessivas falhadas, com ciclos de perda e reganho de peso, que desregulam ainda mais o metabolismo e desgastam física e emocionalmente de forma profunda. Necessitamos de mais consultas dedicadas, acompanhamento de longo prazo, acesso a medicação eficaz e cirurgias metabólicas, quando indicadas. Mas, acima de tudo, precisamos também de mudar o preconceito que ainda existente (inclusive nos profissionais de saúde) de que a solução para a obesidade é um simples balanço de calorias. E é essencial perceber que a intervenção na obesidade deve ser precoce. Quanto maior for o tempo ou o “grau” de obesidade, mais difícil é o tratamento e maiores são os riscos das doenças associadas. O tratamento da obesidade não pode ser apenas para os seus casos graves, tem de ser para todos… Tratar cedo (inclusivamente de forma cirúrgica) não é um exagero, é prevenção de complicações futuras. 

Pode falar-nos sobre as inovações no tratamento da obesidade, tanto cirúrgicas como não cirúrgicas, e como têm mudado a vida dos doentes? 

Estamos a viver um momento particularmente relevante no tratamento da obesidade. Nas últimas duas décadas, à medida que fomos compreendendo os reais efeitos dos tratamentos cirúrgicos, fomos percebendo um pouco melhor os mecanismos na base da progressão e do tratamento da obesidade. Nos últimos anos, surgiram medicamentos que atuam diretamente em alguns destes mecanismos biológicos do apetite e da regulação energética. Os fármacos baseados em agonistas do GLP-1, por exemplo, ajudam a regular a saciedade, a regular o trânsito dos alimentos pelo tubo digestivo e reduzem o apetite por mecanismos de ação central (no cérebro) e ao longo do tubo digestivo. Para muitos doentes isto representa algo de novo: parar de lutar contra a fome e ter finalmente um corpo que colabora com a tentativa de controlo do peso. Obviamente que estes fármacos só funcionam adequadamente quando integrados num plano estruturado de otimização de estilo de vida e do devido acompanhamento médico e nutricional. 

A nível cirúrgico, temos assistido também a grandes evoluções. Dado que as cirurgias são cada vez mais eficazes e seguras, as suas indicações são maiores. Continuam a ser os tratamentos mais eficazes a longo prazo para a obesidade moderada a grave e atualmente com taxas de complicações muito reduzidas e recuperações muito rápidas (em apenas alguns dias) da atividade diária normal. Os procedimentos cirúrgicos como o sleeve ou o bypass gástrico, não são apenas intervenções mecânicas que limitam o volume do estômago. Alteram de forma profunda a fisiologia hormonal (incluindo o agora famoso GLP1) e digestiva, melhoram rapidamente o controlo das doenças associadas, reduzem o risco de eventos cardiovasculares e têm um grande impacto na qualidade de vida. E isto, em alguns doentes, com estadias hospitalares de menos de 24 horas. 

Mas o impacto na vida dos doentes vai além do número que desce na balança. A maioria dos doentes referem melhorias na mobilidade, na autoestima, na confiança, na qualidade do sono e na energia diária. É frequente ouvirmos nas consultas os pacientes a referirem que se voltaram a encontrar e a sentir-se no controlo do seu próprio corpo! 

Quais são as histórias ou resultados que mais o motivam no seu trabalho com doentes com obesidade? Há algum exemplo que possa partilhar sem comprometer a privacidade? 

O que mais me motiva não é apenas a perda de peso. São as mudanças silenciosas que acontecem depois. São os sorrisos que se desenvolvem nos meses após a cirurgia. São as pequenas conquistas do dia-a-dia que os doentes partilham: cruzar as pernas, ir às compras, deixar de se sentirem dependentes da comida, conseguir brincar com os filhos, voltar a praticar desporto… 

E lembro-me, acima de tudo, de muitas mulheres. Mães, na casa dos 40 anos, com hipertensão, apneia do sono e diabetes. Dos seus sentimentos de culpa e frustração após múltiplos anos de dietas sucessivas; de múltiplos ciclos de perda e reganho de peso; dos seus sentimentos de impotência e de não se sentirem merecedoras de tratamento por não terem “força de vontade”. Mas, após o seu acompanhamento e cirurgia metabólica, sentem-se de novo empoderadas, femininas, confiantes e capazes de controlar o seu corpo e a sua relação com os alimentos. 

Lembro-me de uma doente em particular que, alguns meses após a cirurgia, disse que já não controlava o seu peso de forma regular, que isso não era o mais importante. Que o mais importante era que agora “posso entrar em qualquer lugar sem sentir que estou a ser julgada”. E esta frase resume o peso invisível que muitos doentes carregam. E que, mais do peso que se perde na balança, relevam este peso do julgamento que deixam de sentir. 

São estas histórias, uma e outra vez repetidas, com nomes e em contextos diferentes, que reforçam a convicção de que tratar a obesidade é muito mais do que peso. É devolver saúde e dignidade. 

Como acha que a sociedade pode mudar atitudes para reduzir o estigma associado a esta doença? 

O estigma nasce da desinformação. Enquanto permitirmos que a obesidade seja vista como falta de carácter, como culpa pessoal, continuará a haver julgamento. 

A mudança começa na linguagem. Alguns comentários, muitas vezes bem-intencionados e aparentemente inofensivos sobre o peso podem ser profundamente destrutivos. O “vê lá se fechas a boca”, o “como te deixaste chegar a isto”, o “tens de começar a fazer exercício”, colocam toda a responsabilidade da doença num comportamento individual. E são tão demolidores quanto ineficazes. 

E todos nós (médicos, enfermeiros, professores, comunicação social, etc.) temos responsabilidade na forma como retratamos esta doença. Habitualmente tendemos a cair num de dois extremos: ou reforçar a culpa e a incapacidade individual de controlar a doença; ou normalizar a doença e aceitar que se pode viver de forma plena e saudável com obesidade. 

Daí que a educação científica seja fundamental. Quando compreendemos que a obesidade envolve complexos mecanismos biológicos; que a maioria do nosso peso é determinado geneticamente; que a capacidade de otimização da gestão energética nos protegeu de múltiplos períodos de fome ao longo da história da humanidade e que muito do nosso comportamento alimentar é regulado por hormonas, torna-se mais difícil reduzir o problema a “preguiça” ou “gula”. A empatia e humanidade não significam normalizar os riscos, mas reconhecer que ninguém escolhe viver com uma doença crónica. 

De que forma o estigma associado à obesidade afeta a saúde mental dos doentes e como os profissionais de saúde podem apoiar melhor estas pessoas? 

O estigma tem consequências muito diretas a nível da saúde mental. As pessoas que vivem com obesidade têm maior risco de ansiedade, depressão, perturbações alimentares e exclusão social. Muitas evitam consultas médicas e recusam cuidados de saúde por receio de julgamento (que infelizmente existe de forma real). Muitas pessoas internalizam a culpa e desenvolvem uma relação ainda mais difícil com a comida, com a doença e com o seu corpo. 

Para muitos doentes (ainda mais para as mulheres), o peso não é apenas uma questão física. É uma sequência de falhas acumuladas. De dietas falhadas, de comentários familiares, de olhares públicos e julgamentos precipitados. A taxa de empregabilidade (e logo de maior risco socioeconómico) está severamente diminuída nas pessoas com obesidade. Afinal quem quer dar emprego a uma pessoa obesa e preguiçosa? 

Para quebrar este círculo vicioso, os profissionais de saúde têm de assumir um papel fundamental. Têm de escutar em vez de julgar. Validar a experiência da pessoa. Compreender e explicar os mecanismos biológicos da doença e “negociar” um plano terapêutico realista e individualizado. A empatia não substitui a ciência, mas permite aplicá-la. Um doente que se sente compreendido e respeitado, está mais preparado para aderir a qualquer tratamento. 

Na obesidade infantil, que estratégias considera mais eficazes para intervir precocemente e evitar que se transforme num problema adulto? 

A obesidade infantil é um dos maiores desafios atuais. Sabemos que uma criança com obesidade, muito provavelmente, será um adulto com obesidade e com risco aumentado de complicações precoces. A intervenção deve ser centrada na família e na sociedade. Não se trata de colocar a criança a “fazer dieta”, mas de reorganizar hábitos familiares: de sono, qualidade e diversidade alimentar, tempo de ecrãs e atividade física. O exemplo dos adultos é determinante. Temos de deixar cair aquela ideia dos nossos avós de que as crianças se querem “gordinhas e saudáveis”. Trocar as recompensas com doces por afetos. E ensinar as crianças a respeitar os seus próprios “avisos” internos: aprender a comer quando tem fome e parar de comer quando está saciada (ainda que só falte uma colherzinha ou uma garfada para terminar o prato).  

As escolas também desempenham um papel fundamental (mas muitas vezes ingrato), através do ensino da dieta saudável, do estímulo a refeições equilibradas e à promoção da atividade física.  

E em casos graves da obesidade, importa salientar que o tratamento (farmacológico ou cirúrgico) também é seguro e eficaz em adolescentes. E que, uma vez mais, quanto mais cedo atuarmos, melhor vamos prevenir as complicações futuras. 

A obesidade é uma doença crónica, complexa e progressiva. Mas, atualmente, também é controlável. Não com esforço e boa vontade, mas com ciência. Hoje, temos mais conhecimento científico e mais ferramentas do que nunca. O desafio é utilizá-las com responsabilidade, empatia e visão de longo prazo. Porque tratar a obesidade não é apenas reduzir o peso; é proteger a saúde, recuperar a autoestima e devolver qualidade de vida. 

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