Médica alerta para a importância de usar óculos de sol
Médica alerta para a importância de usar óculos de sol | Fotografia: Getty, Hulton Archive
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Poucos dão atenção ao perigo silencioso da radiação UV que nada tem a ver com a pele

Já sabemos que o protetor solar é essencial, mas e os óculos de sol? Ana Vide Escada, médica oftalmologista na Clínica AlmPrimum, assina este artigo educativo sobre a importância de usar este acessório.

Os óculos de sol são muitas vezes encarados simplesmente como um acessório de moda, mas independentemente das questões estéticas, devem ser considerados como verdadeiros dispositivos de proteção ocular, devido à proteção do olho e estruturas perioculares dos efeitos nefastos da radiação ultravioleta (UV). A consciencialização pública sobre a proteção da pele está consolidada, mas a vulnerabilidade dos tecidos oculares permanece subestimada, sendo muito importante melhorar o seu conhecimento.

Dr.ª Ana Vide Escada | Fotografia: D.R.

O que faz com que os óculos de sol sejam importantes e quais os benefícios do seu uso?

A radiação ultravioleta (UV) faz parte da radiação solar e é principalmente constituída por UVA (315–400 nm) e UVB (280–315 nm). Cada comprimento de onda interage de forma distinta com as estruturas oculares e pode levar ao desenvolvimento de alterações nocivas. Relativamente às pálpebras e região periorbitária, sendo uma pele extremamente fina e sensível e onde a aplicação de protetor solar é muitas vezes desafiante, a radiação pode ser promotora do desenvolvimento de lesões tumorais.

A superfície anterior do olho é revestida por duas estruturas, a córnea e a conjuntiva. A córnea funciona como o principal filtro natural contra a radiação UVB. No entanto, a exposição aguda a altos níveis de UVB (especialmente em ambientes de forte reflexão, como a neve ou o mar) provoca a destruição das células epiteliais superficiais, podendo resultar em traumatismo - fotoqueratite. A exposição crónica na conjuntiva está ligada ao desenvolvimento do pterígio, muitas vezes apelidado de “doença dos pescadores”.

A lente natural do olho, ie, o cristalino absorve a maior parte da radiação UVA que atravessa a córnea. A exposição prolongada cumulativa acelera a opacificação do cristalino, culminando no desenvolvimento precoce de cataratas. Embora o cristalino filtre a maioria dos raios UV, uma percentagem residual de radiação UVA consegue atingir a retina, o que a logo prazo pode levar ao desenvolvimento de alterações que podem culminar com baixa irreversível da visão.

Além das interações supracitadas, os óculos de sol fornecem uma barreira física que é igualmente importante na prevenção dos traumatismos físicos, diminuição do contacto com alérgenos e poluentes, melhoria da sintomatologia do olho seco e da qualidade visual.

E, tendo em conta que a radiação ultravioleta está sempre presente, mesmo quando os dias não estão ensolarados, os óculos de sol devem ser usados durante todas as estações do ano.

Os riscos e interações da radiação ultravioleta no olho são iguais entre adultos e crianças? As crianças devem usar óculos de sol?

Em crianças o risco de transmissão da radiação UV para o pólo posterior é muito superior ao do adulto, uma vez que o cristalino jovem apresenta uma transmitância muito mais elevada. Além disso, o sistema visual é imaturo nas crianças pequenas e está ainda em desenvolvimento. Assim, além da escolha das horas e dos dias em que a radiação UV seja menor e do uso de chapéu com aba protetora que faça sombra na região ocular, as crianças devem usar óculos de sol com armações adaptadas ao seu escalão etário.

Quais as características técnicas essenciais das lentes solares?

As cores mais escuras não conferem maior proteção. O mais importante é o grau de protecção UV. As lentes devem oferecer uma proteção de 100% contra a radiação UVA e UVB e preferencialmente ter a certificação UV400, dado que quase 45% da energia UV que atinge o olho se encontra entre a faixa dos 380 nm e dos 400 nm. As lentes devem ter a marcação CE, que garante o cumprimento da norma internacional ISO 12312-1, onde se inclui outro parâmetro importante na escolha das lentes – a transmitância lumiosa. Existem cinco categorias (0-4), conforme a transmitância seja maior (0) ou menor (4). Normalmente o filtro solar deve estar entre as categorias 2 e 3, conforme a sensibilidade luminosa e os ambientes e tipo de atividades preferenciais de cada pessoa.

Os tratamentos antirreflexo quer na parte externa quer na parte interna dos óculos e o uso de lentes polarizadas, mitigam a difração da radiação e o encadeamento, aumentando a sensibilidade ao contraste e reduzindo a fadiga ocular.

Para quem tem necessidade de usa óculos graduados, mesmo que progressivos, é possível optar por lentes solares de boa qualidade com a mesma graduação, permitindo realizar as mesmas tarefas, nomeadamente ler confortavelmente em ambientes outdoor.

Por fim, a escolha da armação é crucial. Devem ser usados modelos que acompanhem bem o rosto, “envolventes”, preferencialmente que envolvam proteção lateral, que sejam confortáveis e com lentes de boa qualidade, o que nas crianças é particularmente importante.

Também a resistência das armações e das lentes deve ser tida em conta nomeadamente para o uso em atividades físicas ou que pressupõem eventual contacto com a região ocular, na tentativa de minimizar potenciais traumatismos.

Em resumo, mais do que uma opção estética, os óculos de sol conferem proteção às estruturas oculares contra a radiação UV, devendo ser usados desde criança e durante todas as estações do ano. Devem conter a marca CE e promover a máxima proteção contra os UV (100%, preferencialmente UVA 400). É importante aconselhar-se com o seu médico oftalmologista e adquirir sempre os óculos de sol em estabelecimentos autorizados.

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