Parque Natural da Ria Formosa
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A história do "rei" que passou por Olhão e mergulhou em ilhota pouco conhecida

Um aristocrata russo que ficou conhecido como o "quase rei" de Andorra, fixou-se há muitos anos em Olhão, no Algarve. O que mais o encantou? Uma pequena ilha próxima da Ria Formosa.

Olhão é uma cidade onde o mar não está ao fundo da paisagem, mas sim dentro dela. Entre ruas estreitas, cubos brancos de arquitetura popular e cheiros que vêm do mercado, a vida desenrola-se com uma ligação direta ao Atlântico e à Ria Formosa, que envolve a cidade como uma fronteira líquida e viva.

Mas eis que a história de Olhão se cruza, de forma inesperada, com a do russo Boris Skossyreff, figura do século XX que ali chegou em 1935 e acabou por permanecer durante cerca de seis meses.  

Mas vamos primeiro à história de Boris Skossyreff. Aristocrata de origem e sobrevivente da Revolução Bolchevique, entre documentos falsos, prisões e fugas, construiu uma biografia que oscila entre o vigarista e o visionário delirante ou, como alguns o descrevem, um "Corto Maltese que esteve em todos os acontecimentos da História", como refere António Paula Brito de Pina, dirigente da APOS – Associação de Valorização do Património Cultural e Ambiental de Olhão, no Sul Informação.

Antes de chegar ao Algarve, Boris Skossyreff já se tinha autoproclamado Rei de Andorra, em 1933, assumindo o título de Boris I. A façanha, que envolveu propaganda, contactos com movimentos de extrema-direita e uma surpreendente atenção mediática internacional, ficou registada na imprensa europeia da época e nos arquivos que ainda hoje podem ser consultados na Torre do Tombo.

A entrada em Portugal, em 1935, fez-se de forma quase clandestina, atravessando a Serra de São Mamede com uma carta de recomendação política no bolso. Depois de passar por Lisboa, acabou por rumar ao sul. Olhão, com a sua ligação ao mar e uma certa permeabilidade de fronteiras humanas e comerciais, tornou-se o cenário perfeito para uma estadia improvável.

Durante cerca de seis meses, Boris Skossyreff integrou-se de forma peculiar na vida local e sabe-se que convivia com figuras da terra, entre elas o investigador Francisco Fernandes Lopes. Comportava-se como um rei, mantendo uma postura altiva e modos cuidados, ainda que a coroa nunca lhe tivesse sido reconhecida. Mas no meio da socialização, havia tempo para o lazer.

Entre as histórias mais repetidas pelos olhanenses, destaca-se a ida frequente a uma pequena e pouco conhecida ilhota da Ria Formosa, a Ilha do Coco, próxima da zona da Ilha da Armona. Era ali, longe do centro da vila, que Boris Skossyreff se banhava e para lá chegar recorria aos serviços de um barqueiro local, conhecido como “Corta-Machados”, que o levava de barco a remos e, com ironia popular, o tratava por “mano-rei” (expressão que já circulava entre pescadores, numa referência antiga ao rei D. Carlos I).

Esse detalhe linguístico, aparentemente pitoresco, acabou por fixar a presença do chamado “quase-rei” na memória da região. Em Olhão, ao contrário de outros lugares por onde passou, não há registo de grandes vigarices ou conflitos. Há, sim, a lembrança de um homem estranho, culto, falador, que parecia interpretar o seu próprio papel numa monarquia imaginada.

Na galeria de imagens mostramos os encantos de Olhão que conquistaram o "quase rei". 

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