Quando falamos de osteoporose, falamos de uma doença silenciosa, multifatorial e pouco compreendida e valorizada por grande parte da população. Se alguns fatores de risco ─ como o tabagismo, o consumo excessivo de álcool e/ou a inatividade física ─ podem ser modificados, há outros que simplesmente nos acompanham. E entre eles destaca-se o género. Ser mulher continua a ser um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento de osteoporose.
Efetivamente, uma em cada três mulheres com mais de 50 anos em todo o mundo terá osteoporose ao longo da vida ─ uma realidade que reflete não só as alterações hormonais associadas à menopausa, mas também a falta de reconhecimento da doença e da sua gravidade.
Apesar disso, existe hoje um conjunto sólido de estratégias, farmacológicas e não farmacológicas, capazes de melhorar significativamente a qualidade de vida e reduzir o risco de fraturas.
Não obstante, a baixa adesão ao tratamento, constitui um desafio difícil de ignorar. Os dados são claros: apenas 9% das mulheres identificadas com risco elevado de desenvolver osteoporose iniciaram o tratamento no prazo recomendado. Como se isso não bastasse, das que iniciaram, menos de 30% mantiveram a terapêutica ao fim de um ano e menos de 4,5% ao final de 2 anos – estes últimos dados tendo em conta um estudo nacional, em que se avaliou a adesão ao tratamento com um fármaco de posologia semanal.
E a questão que se coloca é: porquê? Por que razão tantas pessoas abandonam o tratamento?
Acredito que o facto de a osteoporose ser uma doença assintomática até ao momento em que ocorra uma fratura constitui uma das razões que justifica esta baixa adesão e persistência ao tratamento, assim como a baixa literacia em saúde, particularmente neste tema, levando a que o mesmo seja desvalorizado ─ inclusive pelos próprios profissionais de saúde. E o mais preocupante é que tudo isto acontece apesar das consequências serem profundas e inegáveis: dor crónica, perda de autonomia, incapacidade, dependência de terceiros e um impacto socioeconómico enorme. Na Europa, a incapacidade causada pela osteoporose supera a de vários tipos de cancro, incluindo o da mama. Como se não bastasse este impacto na qualidade de vida, até 30% das pessoas com fratura da anca não sobrevivem ao primeiro ano.
Para além da falta de informação e da tendência natural para desvalorizar uma doença assintomática, existe um outro fator determinante: a complexidade e heterogeneidade dos tratamentos disponíveis. Tomar comprimidos em horários rígidos, cumprir regras específicas (jejum, postura, intervalo entre alimentos), lidar com efeitos adversos ou simplesmente encaixar a medicação na rotina são barreiras reais e frequentes. Nesse sentido, a escolha de estratégias farmacológicas mais cómodas e ajustadas ao estilo de vida da mulher é fundamental. Quanto mais simples e prática for a terapêutica, maior é a probabilidade de ser mantida ao longo do tempo ─ e menor o risco de fratura.
Qual será então a chave para aumentar a adesão? No meio de tudo isto eu diria que a chave está na literacia em saúde.
Mulheres mais informadas comunicam melhor com os profissionais de saúde, colocam mais perguntas, percebem a importância da medicação e, sobretudo, aderem e persistem mais no tratamento. Dado que grande parte da população feminina com maior risco está também numa faixa etária em que o acesso à informação é mais limitado, é urgente que as campanhas de sensibilização sejam claras, acessíveis e adaptadas a diferentes perfis geracionais. Ao mesmo tempo, os profissionais de saúde ─ especialmente nos Cuidados de Saúde Primários ─ têm um papel essencial: detetar precocemente, explicar com clareza os riscos reais da doença e, sempre que possível, optar por terapêuticas mais simples, mais cómodas e que facilitem a adesão e a persistência.
Melhorar a adesão ao tratamento não é apenas um gesto clínico; é uma medida de empoderamento feminino, de autonomia e de proteção da qualidade de vida. Só com um esforço conjunto, envolvendo todos os stakeholders ─ profissionais de saúde, sistemas de saúde e, claro, as próprias mulheres ─ será possível travar esta doença que afeta milhões e continua a ser subdiagnosticada, subtratada e, demasiadas vezes, subvalorizada.
