Fotografia: D.R.
Chegou a Portugal para acordar às 4h e fazer centenas de pães. Hoje, a história é outra
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Rafaela Simões
- 2 jul, 15:10
É das profissões mais saborosas, mas longe de ser a mais fácil. Acordar às 4h? Não é para toda a gente, só para padeiras como Priscila Valente.
A padaria d' A Padaria Portuguesa tem o dedo da Chef Priscila Valente
Pão na porta de tua casa de manhã? Com o Sr. Padeiro é possível
Há memórias que começam muito antes de uma profissão. No caso de Priscila Valente, Chef e elemento da equipa de Inovação e Desenvolvimento de Produto d'A Padaria Portuguesa, tudo começou numa cozinha, no interior do Brasil, rodeada de mulheres que faziam da culinária uma forma de cuidar e reunir a família.
Nascida em Mogi-Guaçu, no estado de São Paulo, cresceu entre receitas que ainda hoje guarda na memória. A sobremesa de morangos, suspiros e creme preparada pela avó, entretanto perpetuada pela madrasta, continua a transportá-la para a infância. Há também o bolo recheado de pêssego da tia, o bolo salgado de frango e maionese da mãe e as tardes passadas a observar uma vizinha que fazia bolos para casamentos e aniversários.
"Lembro-me perfeitamente de ela me chamar para rapar o que sobrava da massa de bolo da panela. Eu ficava fascinada ao vê-la decorar os bolos", recorda em entrevista à VERSA.
A primeira experiência como pasteleira aconteceu cedo. Tinha cerca de 12 anos quando decidiu fazer um bolo de fubá cremoso. Correu tão bem que repetiu a receita logo de seguida. Ainda assim, o sonho só começou verdadeiramente a ganhar forma muitos anos depois. Em 2013, criou no Brasil um pequeno negócio dedicado à produção de pão de mel e bolos caseiros.
A mudança para Portugal, em 2017, acabaria por redefinir o seu percurso. No ano seguinte participou num workshop de pão artesanal promovido pela A Padaria Portuguesa e foi esse o primeiro contacto com a panificação, despertando uma nova paixão.
Em 2019 entrou para a empresa como colaboradora de loja e, coincidência, foi colocada precisamente na mesma loja onde tinha frequentado o workshop e onde funcionava a produção de padaria e pastelaria. Pouco tempo depois surgiu a oportunidade de integrar a produção, um desafio para o qual teve apenas uma semana de aprendizagem intensiva.
"Anotava tudo. Precisava de aprender, porque estava a ter a oportunidade de trabalhar com aquilo que amava", conta. A partir daí, a paixão cresceu ao ritmo das fornadas. "A cada produção, ficava mais entusiasmada e cada vez mais apaixonada por esta arte de juntar farinha, água, sal e fermento – no nosso caso, massa-mãe – e transformar tudo num alimento tão especial: o pão nosso de cada dia."
Mas depressa percebeu que fazer pão é muito mais complexo do que aparenta. "Descobri que fazer pão não é apenas misturar farinha, água, sal e fermento. Existem muitos detalhes envolvidos" e, para além do mais, é um exercício de paciência.
"Para existir um bom pão, é necessário respeitar o descanso da massa. Não podemos saltar etapas", explica, recordando uma frase que costumava repetir quando trabalhava na produção: "Brincava que o pão descansava mais do que o padeiro."
E isto porque os dias dos padeiros começavam ainda de madrugada. O despertador de Priscila tocava às 4h para que estivesse no trabalho às 6h e às 7h as primeiras fornadas já saíam do forno. Entre cozer o pão preparado no dia anterior e iniciar a produção do seguinte, chegava a produzir cerca de 200 pães por dia, sozinha.
Apesar dos horários exigentes, garante que a vida familiar nunca sofreu grandes sobressaltos. "Todos em casa compreenderam e se alinharam com essa fase em que eu estava totalmente focada na produção."
Hoje integra a equipa de Inovação e Desenvolvimento de Produto da A Padaria Portuguesa, onde continua ligada ao universo da panificação, embora com um horário diferente e um trabalho mais centrado na criação e aperfeiçoamento de produtos.
Num momento em que o pão de massa-mãe e a fermentação lenta conquistam cada vez mais consumidores, Priscila acredita que existe um regresso consciente às origens. Explica que a massa-mãe é um fermento natural, produzido apenas com farinha e água e alimentado diariamente, enquanto a fermentação lenta é uma técnica que pode ser utilizada tanto com fermento biológico como com massa-mãe.
Na A Padaria Portuguesa, esse processo está presente em três referências produzidas na fábrica de Marvila: o pão de Trigo, o pão de Espelta e Sementes e o pão de Centeio, todos sujeitos a longos períodos de fermentação para desenvolver sabor, textura e qualidade.
Para a Chef, o interesse crescente por estes métodos tradicionais acompanha uma maior preocupação dos consumidores com a origem dos alimentos e é por isso que acredita que o futuro da panificação passará por uma maior presença de pães de massa-mãe e de fermentação longa, sem que o seu papel mais importante se altere.
"Independentemente das tendências, acredito que o pão continuará a ser um alimento que desperta memórias, reúne pessoas e faz parte da nossa cultura."
A história de Priscila Valente mostra que, sim, o pão pode nascer da farinha, da água e da massa-mãe, mas começa, muitas vezes, muito antes: nas memórias de infância, nos cheiros da cozinha e nas mãos de quem, geração após geração, transforma receitas em afetos.
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