Pedro Cabrita Reis
Design e Artes

Pedro Cabrita Reis - um dandy do sul

O nosso mais conceituado artista plástico transforma ideias em formas muito belas e inusitadas, como pensa jardins e pomares a perder de vista. Da roupa que veste, ao espaço que ocupa no mundo, da geografia sentimental da sua casa ao charuto que o acompanha, nada é escolhido ao acaso. Um hedonista sofisticado com muito talento para a vida.

Nasceu em Campo de Ourique, mas diz-se” lisboeta de sequeiro”, pois passava os verões no Algarve, “na barragem de Silves, a roubar laranjas com os meus amigos, e a fazer armadilhas para os pássaros”. Saiu de casa aos 16 anos e, mais crescido, começou a voltar ao sotavento algarvio, à natureza, “a um ambiente mais rarefeito”, descreve. E rapidamente virou costas ao litoral cheio de gente e refugiou-se na serra onde se entende bem com a aridez e as vistas largas, uma austeridade poética que se encontra no seu trabalho. “Os artistas são do lugar onde fazem as coisas que gostam de fazer”. Daqui a uns anos, é bem capaz de se mudar para o sul: “Tenho uma ligação plástica, espiritual, física a esta paisagem, a esta terra. Não vejo outro lugar onde me possa sentir melhor”.

Estamos sentados na esplanada na Fábrica da Cerveja em Faro, que em breve será um centro de artes, porque Pedro Cabrita Reis veio falar ao Algarve Tech Hub summit sobre os encantos do sul. Às tantas diz prender-se a coisas tão pequenas e simples como as rãs no charco ao fim da tarde, os pássaros madrugadores ou “as nuvens que passam à tarde, de repente.” “Apesar de arrasado de uma forma quase imoral, o Algarve continua a ter o seu encanto, vejo um encanto onde me meço comigo próprio na beleza da paisagem, ali a dimensão é superior, é um programa de vida.”

ConVERSA com o artista mais internacional, mais charmoso e mais politicamente incorreto de Portugal. Não sobre as suas Três Graças, agora expostas no jardim das Tulherias, em Paris, em parceria com o Museu do Louvre, nem sobre a sua mais recente instalação Field na igreja di San Fatin, estreada a propósito da Bienal de Veneza - e que tão bem ilustram esta entrevista - mas sobre os grandes prazeres da vida. Com um uísque e um charuto na mão.

É de Lisboa, mas está cada vez mais algarvio, o que o seduz neste sul?

Nasci em 1956, no fim de setembro, nasci em casa, de pai algarvio e mãe transmontana. Pelas vicissitudes que toda a vida tem, a minha foi, desde menino e até hoje, mais virada para o Algarve do que para Trás os Montes. Muito cedo comecei a ir com os meus pais para a zona de Silves onde a minha família tinha terras e plantações, e depois, uns anos mais tarde, quando comecei, eu próprio, a viver a vida que queria viver, vim para estes lados. Deixei o barlavento e vim para o sotavento, sempre me interessou mais esta geografia e esta maneira de estar, este ambiente da serra, do que propriamente os pomares de Silves, que tem casas a mais e gente a mais.

Comecei a vir para aqui em 1980, o campismo de Tavira tinha uma particularidade deliciosa que era não ter rede, o que fazia com que os guardas andassem à noite, à roda, de lanterna, a ver os malandrecos como eu, e outros amigos meus, que tinham instalado a tenda sem passar pela receção e pagar. Da tenda do parque de campismo, até começar a alugar casas na zona da serra de Tavira e até começar a procurar terra para comprar e poder construir uma casa, foi um ápice, demorou 15 ou 20 anos. E declarei-me filho adoptivo, de plena expressão, algarvio.

Estou em permanente trânsito entre Lisboa e Tavira desde 2000, o tempo passa muito depressa, parece que foi ontem. Posso dizer aquilo que os meus amigos já sabem: mais tarde ou mais cedo virei estabelecer-me no Algarve com um carácter mais definitivo. Na verdade, um artista nunca se estabelece em lado nenhum, um artista viaja, anda pelo mundo e faz o que tem que fazer. Em Portugal e no mundo a parte que me interessa mais é a parte do campo e da serra de Tavira e é para lá que irei. Não abdicarei de Lisboa, tenho um belo atelier, muitos amigos e bons restaurantes, mas mudo o ciclo, passará a ser, daqui a uns anos, muito mais em Tavira e de vez em quando em Lisboa.

 

"Na verdade, um artista nunca se estabelece em lado nenhum, um artista viaja, anda pelo mundo e faz o que tem que fazer."

Sei que andou a percorrer o seu terreno de uma ponta a outra, de bicicleta, em passeio, a namorá-lo para perceber se era o seu lugar.

É verdade, a busca do lugar ideal para construir uma casa e atelier demorou seis anos e foi não só, como disse, de bicicleta, a pé, de carro, mas também com a ajuda de pessoas a quem pedi para acompanhar as hipóteses de mercado e ver o que havia. Disse-lhes exatamente o meu perfil e elas buscaram, e passaram-se uns anos e um dia fui ver um lugar de que gostei logo e ali, com a família proprietária, defini logo os termos da compra. E fizemos aquilo que se fazia antigamente: apertámos a mão e a compra ficou estabelecida.

Eu e a Patrícia [sua mulher] tínhamos três critérios fundamentais para a escolha de um lugar, muito simples, em 2001 abrimos um mapa do Algarve espetamos o bico de um compasso no aeroporto de Faro e pedimos a um amigo perito em matemática para saber quanto teríamos que abrir os dois braços no compasso para corresponder a 45 minutos de carro. Além deste critério, teria de ter um relativo isolamento, enfim, não queríamos um deserto ou uma coisa inóspita ou hostil, mas queríamos alguma privacidade e tranquilidade. E queríamos a cobertura absoluta de todas as redes de telemóvel que existiam na altura, que eram a Telecel e a TMN. E o mais importante de todos era termos vista total sobre o mar. O sítio correspondia a esses critérios e estamos lá, comprámos em 2000 e em 2006 foi a primeira vez que lá vivemos.

(Entretanto a sua mulher, a pintora Patrícia Garrido, senta-se na nossa mesa)

Parece o paraíso, sendo que o paraíso deve ser uma chatice.

Uma maçada, está cheio de anjinhos!

Diz que a sua história “é de viagens, é de estar em várias vidas diferentes”. Diana Vreeland, ex-diretora da Vogue e da Harper’s Bazaar, dizia “the eye has to travel”, ainda mais para quem trabalha numa área visual. Sente essa necessidade de sair?

Continuo a viajar imenso. Hoje em dia, nos circuitos da arte contemporânea, viajar é mais uma outra coisa que acontece para além de fazer as obras de arte e falar com as pessoas que gostam de falar connosco. Não é exterior ao método de trabalho e ao processo de vida, faz parte. É claro que, por vezes, pode tornar-se numa coisa cansativa, principalmente quando as malas se perdem, mas é inevitável. Na verdade, o mundo não é assim tão grande, viajar é voltar a ver coisas que se viram antes e descobrir coisas que nunca se tinham visto antes, e que juntas fazem parte – umas porque confirmam outra porque trazem o encanto da descoberta – da forma como, regressado ao atelier, se trabalha.

 

Eu acho que um destino exótico é ir ver uma pintura do século XV a um museu a Londres.

 

Recorda algum sítio particularmente inspirador?

As minhas viagens são sobretudo na área do que se costuma chamar o mundo ocidental. Há pessoas que têm um encanto e uma curiosidade e uma pulsão incontornável para viajar para destinos exóticos, eu acho que um destino exótico é ir ver uma pintura do século XV a um museu a Londres. As florestas amazónicas, as planícies de gelo da Antártida, a maravilha do Matisse da Patagónia, nada nisso, na verdade, tem para mim muito interesse. Contudo, se me perguntar, o único momento em que houve uma profunda transformação no meu trabalho, mas também foi temporária e rapidamente foi digerida e desapareceu, foi quando fui a primeira vez, em 94, para fazer uma exposição, ao Brasil. E foi, de facto, uma relação de impacto brutal, não o do campo, o meu Brasil é Rio e São Paulo, são de tal maneira obsessivas, enormes, absorventes, brutais e encantadoras em simultâneo, que há coisas que têm de mudar, na forma como estás no mundo e como trabalhas.

O meu trabalho mudou, durante um ano ou dois, pelo impacto da força, sobretudo, que a natureza tem nessas cidades. Não há um passeio que esteja direito porque as ruas são cordilheiras de serras provocadas pelas raízes das árvores. É um fenómeno extraordinário, não é preciso ir à Amazónia, basta descer uma avenida em São Paulo ou no Rio. Foi a primeira vez na minha vida que o meu trabalho “normal e habitual”, seja lá o que isto quer dizer, sofreu uma alteração profunda. Nunca em nenhuma outra circunstância, viajei milhares de quilómetros, vi centenas de museus, recordo-me de milhares de pinturas e toda essa vivência e itinerário de arte ao longo dos tempos… sim, aprendi imenso, muitas coisas foram importantes no meu trabalho e integrei-as de uma forma ou de outra. E os que forem inteligentes transformam isso em algo muito seu e sem cair na asneira, e na armadilha, de fazer cópias ou “à maneira de”. Posso dizer-lhe que nunca na vida, e agora também deixei de ter, o hábito de trabalhar com materiais naturais, barro, água, vapores, plantas, e naqueles dois anos que se seguiram à minha passagem pelo Brasil eles apareceram no meu trabalho. Depois, mais tarde, voltou a reenquadrar-se na experiência daquilo que é um artista crescido, educado, cultivado num quadro de convivência com a história da arte ocidental, que vem da Grécia e passa por Roma, enfim, classicismo, barroco e essas coisas todas.   

Há um caminho de despojamento evidente na sua obra e que todos vamos fazendo pela vida fora. Esta nova casa, que são duas, espelha esse caminho?

A Patrícia, que também é artista, como sabe, e eu, não temos sequer um bilhete de comboio posto na parede. A única coisa que temos em casa são aberturas que eu não ousaria chamar nem janelas nem portas e que foi assim definido no desenho que fizemos em conjunto com o arquitecto, o Ricardo Bak Gordon. Explicamos-lhe que não queríamos repetir o conceito de uma entrada em casa e janelas, não.

A casa tem rasgos, todos eles idênticos, de 2,20 metros por 2,20, e estão colocados judiciosamente em relação à paisagem, fruto de uma decisão da Patrícia e minha de como orientar esta saída, esta abertura: deve virar-se para ali, esta abertura tem de apanhar esta alfarrobeira, esta abertura tem de apanhar este canto que deixa ver o mar… Bom, esta é a arte que temos em casa. De resto, é a casa, ela própria, a Patrícia desenhou os móveis, eu desenhei três ou quatro coisas particulares como as janelas e portadas de ferro e a iluminação.

E ainda a casa estava a ser feita, já eu estava a fazer aquilo que é a minha contribuição enquanto autor, ou artista, e que é desenhar o jardim, a arborização, o desenho da terra, tudo isso, isso sim é uma coisa que me emociona e que jamais deixarei de fazer. E essa é talvez a única escultura verdadeiramente boa que eu terei feito na minha vida, e que está em permanente transformação. Porque há sempre uma árvore para tirar de um sítio e pôr no outro, ou uma outra árvore nova que tem de ir para ali, e isso dá-me um encanto, é uma coisa… é uma permanente mudança que valoriza aquela maneira de estar. Portanto, eu no Algarve, na Casa Queimada na serra de Tavira sou um fazedor de jardins.

 

A minha contribuição enquanto autor, ou artista, é desenhar o jardim, a arborização, o desenho da terra, é uma coisa que me emociona e que jamais deixarei de fazer. Essa é talvez a única escultura verdadeiramente boa que terei feito na minha vida.

 

Já tinha sido jardineiro enquanto estudava, no Jardim Botânico. Essa história é uma delícia.

Em miúdo, entre 1974 e 79, foram cinco anos no Jardim Botânico da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Foram uns anos muito engraçados na minha vida. E enquanto estava no jardim ia acabando o bacharelato em Belas-Artes, coisa que hoje em dia não existe, mas que na altura correspondia aos três primeiros anos da licenciatura em Belas-Artes que não era considerado um curso universitário. Mas a grande vantagem é que permitia que pudesses concorrer a professor sem ter a licenciatura, e assim que tive o bacharelato em 79 pirei-me para Portimão, fui dar aulas. Viemos para o Algarve, eu e a minha mulher da altura, a pintora Rosa Carvalho, não havia concorrência.

Já na altura tinha o apelo do sul. E há na sua obra uma luz e energia fortes, até tons laranja, que nos transportam para o sul.

Sim, já havia! E é, sim, o sol… Mas com 8, 9 anos eu andava a dar mergulhos nos Pegos ao pé das terras do meu avô, à pesca e caça com os meus amigos, armávamos aos pássaros, pescávamos na barragem, roubávamos fruta e isso foi construindo a parte hedonista e ligada ao sul do Pedro Cabrita que nasceu em Lisboa mas é algarvio.

Costuma encher a casa de amigos, fazer jantares? Ouvi dizer que cozinha bem.

É falso. A Patrícia cozinha muito bem, mas não gosta. Mas é verdade que enchemos a casa, não tem um programa, não temos amigos especiais, fazemos encontros, festas, de vez em quando. É fácil inventar uma festa, basta gostar das pessoas. Provavelmente acontecia mais do que agora, mas não creio que tenha haver com a idade ou a velhice, tem haver que quando se é mais jovem, se é artista e se começa, há uma naturalíssima convivência com o meio. Mais tarde, à medida que a tua carreira se vai ampliando e vais tendo desafios internacionais e mais sérios e rigorosos - quando ser artista, para além de ser uma vocação e um destino inevitável, é também uma coisa já estruturada como uma profissão de combate -, aí, lamentavelmente, a primeira coisa que sofre é o tempo da celebração e dos amigos. Hoje em dia vivemos em restaurantes.

E que tipo de restaurantes? Lembro-me de encontrá-lo no Café de São Bento, em Lisboa.

Deixámos de ir ao Café de São Bento porque se deixou de fumar, hoje a minha lista de restaurantes é onde eu posso fumar, donde só vou praticamente a dois ou três restaurantes (risos). Não quero saber, mas não é muito fácil. Na verdade, para ser muito transparente, os nossos jantares em casa acabam por se prender com claríssimas necessidades profissionais, quando é preciso ter a suficiente tranquilidade e discrição para se poder estar a trabalhar longe dos holofotes da vida pública. A casa transformou-se num resguardo de qualquer intimidade, mas fazemos a festa no restaurante. E fazemos várias vezes, se não mesmo quase todos os dias da semana. (E acende o seu charuto)

 

"A casa transformou-se num resguardo de qualquer intimidade, mas fazemos a festa no restaurante. E fazemos várias vezes, se não mesmo quase todos os dias da semana. Gosto particularmente de comida portuguesa vernácula e clássica."

 

Tem preferência por um tipo de comida?

Gosto particularmente de comida portuguesa vernácula e clássica. Gosto de tabernas e tascas e de restaurantes que, não sendo nem uma nem outra coisa, têm ambições um pouco mais estruturadas e têm a coragem de propor na sua ementa comida portuguesa verdadeira. Não sou grande amante de coisas muito complexas, devo confessar, já ninguém fala nisso mas desde os tempos do Ducasse da nouvelle cuisine que nada disso me interessa. Abro uma exceção: para mim é um grande prazer a comida japonesa, é o único exotismo a que me permito.

E o charuto, mais do que um prazer e uma companhia, ajuda-o a pensar?

Comecei a fumar muito cedo, aos 12 anos e aos 16 deixei, fumava uma coisa que hoje em dia, porventura, já nem existirá e que se chamava Português Suave sem filtro. O Camel era muito chique e aqui em Portugal a alternativa que tínhamos ia do Português Suave sem filtro aos Três Vintes e eu fumei muito disso. Depois aos 16 anos resolvi ir a uma tabacaria e comprar uma caixa de cigarrilhas, lembro-me exatamente que cigarrilhas eram, ainda hoje se fazem e são tão más quanto eram nessa altura, as Mercator. Que vêm em caixas de cartão com seis cigarrilhas, e eu às vezes vou ao Chiado e compro-as só para me deliciar com a minha vetustez. E fumo e aquilo é mesmo mau. Bom, na verdade, as cigarrilhas foram-me acompanhando, ganhei até alguma dificuldade em relação ao cheiro do tabaco dos cigarros, que é tremendo. E à medida que as minhas viagens se intensificavam e a minha conta bancária se alargava comecei a fumar outros charutos. Por isso fumo charutos há praticamente 50 anos. Comecei com umas tristíssimas cigarrilhas portuguesas e hoje fumo cubanos.

É um desfrute lento que é muito bonito.

É uma coisa de interiorizar tempo. Não fumas um charuto a andar, nem fumas um charuto aos gritos. Um charuto exige serenidade, mesmo às vezes até silêncio, nem sequer música, um bom grupo de amigos e não é obrigatório ser desfrutado com álcool. Devo dizer-lhe que o charuto é, em si próprio, tão rico e complexo de sabores, que até a água é óptima com um charuto.

Também gosta de bebidas que saboreia lentamente, como o whisky.

Eu bebo principalmente três tipos de bebida, e tenho uma pequenina aqui no canto, que é vinho tinto, champanhe, whisky de malte e dry martinis com azeitonas.

Isso é de dandy! E o medronho?

Nisso sou colombiano, faço o melhor medronho como é sabido publicamente, também faço aguardente de figo, aqui em Tavira, mas não lhe toco, faz-me muito mal. Mesmo. Na altura de o fazer, provo depois quando arrefece, mas não consigo…

Inevitavelmente, vou ter de lhe perguntar pela moda, porque é dos artistas mais bem vestidos deste país e sei que manda fazer as suas camisas à medida…

Menos a roupa interior e os sapatos. Mas acho que vou passar para uma fase em que os próprios sapatos vou mandar fazê-los à medida, não porque precise, mas porque acho repugnantemente vaidoso e óptimo. (gargalhada). E é isso que devo agradecer à natureza e à minha forma debochada de viver, enfim, ter um corpo impossível de vestir a não ser num alfaiate por medida. Portanto, sim, é verdade, a minha roupa é por medida há mais de 30 ou 40 anos.

Nunca na minha vida tive qualquer intenção de fingir ou pretender, pela forma pública de estar e de aparecer. Aliás há várias coisas que sempre detestei: sempre detestei hippies e detesto hippies, detestava freaks e continuo a detestar freaks, detesto pessoas que passam na vida irresponsavelmente à conta dos esforços dos outros, sem pretendendo, porque são livres… Por isso não assumo nenhuma página desse código de comportamento. Uso gravata e já era aluno de Belas-Artes e pintava de fato nas aulas quando os meus colegas todos tinham cabelos até aqui e andavam de chinelos. Eu ia para a escola, nessa altura era magro, com um sobretudo de pêlo de camelo do meu pai, abria a mala, tirava os pincéis e as tintas e pintava.

O Oscar Wilde que adorava moda, dizia qualquer coisa como: “Só as pessoas fúteis consideran fúteis as coisas fúteis”

Eu respondo-te com outra tão bonita quanto essa, e aplica-se a mim: “Eu resisto a tudo, menos às tentações”.

Qual é o seu guilty pleasure?

As mulheres dos outros. (risos)

 

 "Tudo o que ali está é decidido à mesa com uns medronhos e umas fatias de presunto: 'Mudamos as laranjeiras?' É muito engraçado e muito bonito, rejuvenesce-me. Haverá um dia em que as árvores virão como as coisas mais importantes da minha vida."

 

Disse uma coisa muito bonita numa entrevista: “Haverá um tempo em que só as árvores me interessarão”. 

É bem verdade. Perguntaste se há arte em casa e eu disse-te que não, que temos um pacto: as aberturas da casa são as molduras dos quadros que todos os dias mudam e a toda a hora do dia. Essas são as pinturas. Cá fora, as minhas esculturas são… ainda agora mandei fazer uns terraços para plantar cinco alfarrobeiras novas, estou sempre de roda daquilo, tiro laranjeiras, ponho, aumentamos a vinha, aquilo é uma escultura que eu faço e eu faço o que mais gosto de fazer.

Eu venho de um tempo em que pensar em coletivo era considerado pensar bem, e eu fiz o 25 de Abril com 18 anos que é a altura ideal para se fazer o 25 de abril, quando se é jovem e forte e intenso e se acha que se pode mudar o mundo. Desse tempo ficaram coisas como trabalhar em conjunto com outros. Ali na minha fazenda, é evidente que sou eu o patrão porque sou eu que lhes pago, mas tudo o que ali está é decidido à mesa com uns medronhos e umas fatias de presunto e o que é que vamos fazer, vamos mudar as laranjeiras? É muito engraçado, é muito bonito, e é uma coisa, vou-te dizer, rejuvenesce-me. Mas sim, há um dia em que as árvores virão como as coisas mais importantes da minha vida. E se olhares para o meu trabalho, há centenas de dezenas de árvores, há centenas de pinturas de paisagem, algumas delas da fase recente, muito forte, durante a pandemia, em que fui para ali para Tavira e pintei pintei pintei.

As suas esculturas também são uma espécie de casa, está tudo ligado.

Sabes que não há nada na vida de um artista que possa ser considerado à parte, ou diferente, da sua vida como pessoa. Nunca saberás onde desenhar a linha entre o artista e o cidadão. É mentira, não há. E é isto que transforma a vida de um artista numa vida intensa e que merece ser vivida, e é vivida bem, por dever e obrigatoriedade, e que transforma a sua arte numa coisa que é rica porque a absorve. Não vais para o atelier às 9.00 e sais à 5.00, na verdade, quando te deitas ou estás completamente estoirado, bêbedo ou ou irritado ou até bem disposto e quando te deitas continuas a trabalhar, vais dormir um pouco, e continuas a trabalhar no dia seguinte.

Se tivesse alguma definição de luxo, qual seria?

Sabes mesmo qual é a minha definição de luxo? É não precisar da maior parte das coisas que se vão tendo ao longo da vida, isso é que é o luxo.

 

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