Perfume no pescoço faz mal à tiroide? | Fotografia: Pexels
Perfume no pescoço faz mal à tiroide? | Fotografia: Pexels
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Colocar perfume no pescoço faz mesmo mal à tiroide? Endocrinologista deixa respostas claras

Entre teorias que ganham força online e o que a ciência realmente demonstra, as respostas sobre a influência do perfume na função de órgãos endócrinos são dadas pelo endocrinologista Tiago Silva.

Um gesto rápido e comum antes de sair de casa, colocar perfume junto ao pescoço, tem levantado uma questão nas redes sociais: poderá este hábito quotidiano interferir com a tiroide? A ideia, que à primeira vista pode soar plausível pela proximidade entre a pele perfumada e a glândula do sistema endócrino, tem alimentado dúvidas.

Mas o que diz realmente a ciência? E até que ponto estamos perante um risco concreto ou apenas mais um mito amplificado pela desinformação digital?

Esclarecemos todas as dúvidas numa entrevista com endocrinologista Tiago Silva, da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo (SPEDM). O médico explica tudo o que se sabe sobre a relação entre os componentes dos perfumes e o sistema endócrino e faz também referência ao que está por estudar. 

Os componentes químicos presentes nos perfumes podem ser absorvidos pela pele e afetar o sistema endócrino? Existe alguma evidência científica que sustente essa teoria?

São perguntas muito pertinentes e têm de ser respondidas com cuidado por forma a evitar dar muito enfase a meias verdades. 

Existem componentes utilizados em perfumes (e em muitas áreas) que podem ser disruptores endócrinos, ou seja interferir com a função de órgãos endócrinos como a tiroide.

Existem também estudos que mostram a aplicação na pele habitual de perfumes (independentemente de ser pescoço, punhos etc…) leva a absorção de alguns compostos em concentrações muito baixas. A questão relevante, porém para mim, não é se há absorção, mas se essa absorção, nas concentrações reais de aplicação, é suficiente para exercer um efeito biológico mensurável no sistema endócrino.

Aqui é fundamental distinguir três níveis de evidência que frequentemente se confundem no discurso mediático:

– Primeiro nível: estudos in vitro (em células de laboratório) ou em animais, com doses muito elevadas, que mostram interações com recetores hormonais das hormonas tiroideias e enzimas importantes na síntese das hormonas tiroideias. Este tipo de evidência existe para alguns ingredientes de perfumes nestas condições muito diferentes da aplicação real de perfumes em pessoas;

– Segundo nível: estudos epidemiológicos em humanos com exposição ocupacional prolongada e intensa, como trabalhadores em fábricas de cosméticos. Os dados são heterogéneos e referem-se a exposições muito superiores ao uso do perfume habitual;

– Terceiro nível: estudos que demonstrem que o uso normal de perfume, aplicado no pescoço, causa alterações mensuráveis na função tiroideia em pessoas saudáveis. Isto não foi demonstrado na literatura disponível a data desta entrevista.

A proximidade entre a aplicação do perfume e a localização da glândula tiroide levanta algum risco adicional em comparação com outras zonas do corpo?

A proximidade anatómica não significa que exista exposição direta. Entre a pele do pescoço e a glândula tiróide existem várias camadas de tecido (a epiderme, a derme, tecido subcutâneo, fáscias e músculo). A glândula não está, portanto, à superfície da pele. Para que uma substância aplicada na pele afetasse a tiróide, teria de atravessar todas essas barreiras em quantidade suficiente para exercer um efeito biológico. Isso na vida real não faz muito sentido. 

Pessoas com doenças da tiroide, como hipotiroidismo ou hipertiroidismo, devem ter cuidados específicos no uso de perfumes?

Não há evidencia nesse sentido, nem existem recomendações de nenhuma sociedade cientifica de endocrinologia que recomendem a pessoas com patologia tiroideia evitar o uso de perfumes. O que recomendo a qualquer doente com patologia tiroideia é que mantenha as suas consultas de seguimento regulares, realize as análises de controlo indicadas pelo seu médico, e discuta com ele qualquer preocupação específica. Não é o perfume que compromete o controlo da doença – são a adesão à terapêutica e o seguimento clínico adequado.

Que recomendações daria aos consumidores relativamente ao uso seguro de perfumes, especialmente em áreas sensíveis como o pescoço?

Posso dizer que o uso habitual de perfumes, nas concentrações regulamentadas, não está associado a doença tiroideia. E isso é o que importa comunicar. Deixaria 4 mensagens:

– A primeira: não alterem os vossos hábitos com base em publicações de redes sociais sem referências científicas credíveis.

– A segunda: exijam fontes. Quando e feita publicamente uma afirmação sobre saúde, perguntem: onde está o estudo? Qual a dimensão da amostra? Foi publicado numa revista científica com revisão por pares?

– A terceira: se tiverem preocupações genuínas com a sua função tiroideia — cansaço inexplicável, alterações de peso, intolerância ao frio ou ao calor, entre outros sintomas — consultem o vosso medico assistente/endocrinologista. Existem formas objectivas para avaliar a função tiroideia.

– A quarta: Preferir produtos regulamentados. Na União Europeia, os cosméticos estão sujeitos ao Regulamento CE n.º 1223/2009, que impõe avaliações de segurança rigorosas e limita ou proíbe compostos considerados de risco.

Conclusão principal: não existe evidência científica que demonstre que a aplicação de perfume no pescoço cause disfunção tiroideia na população geral. Esta afirmação, tal como tem circulado com algum alarmismo nas redes  sociais, não tem fundamento cientifico e ou clinico demonstrado.

Uma vez que podes continuar a usar perfume, deixamos várias sugestões na galeria de imagens. 

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