Imagina um plástico que desaparece no mar em poucas horas, sem deixar rasto. Esta parece uma ideia saída de um filme de ficção científica, mas investigadores no Japão desenvolveram recentemente um material com esta capacidade, potencialmente capaz de transformar a forma como lidamos com a poluição marinha, de acordo com o estudo publicado no Riken Institute, uma das maiores instituições de pesquisa científica do Japão.
Esta descoberta promete substituir os plásticos tradicionais, que podem persistir durante décadas e fragmentar-se em microplásticos. Mas será mesmo assim?
Para entender melhor o alcance e as limitações desta inovação, falámos com o Investigador e Professor Bernardo Duarte da Ciências ULisboa.
Estamos mesmo a falar de um substituto do plástico?
Sim, estamos a falar de um material com potencial para substituir alguns plásticos convencionais no futuro, mas ainda não de forma universal e imediata. O interesse deste novo tipo de plástico reside no facto de combinar resistência, transparência, capacidade de ser modelado com calor e, sobretudo, um comportamento ambiental muito mais promissor. Ao contrário dos plásticos tradicionais, este novo material não tende a originar microplásticos, podendo desagregar-se nos seus componentes de base em contacto com meios salgados, como a água do mar. Ainda assim, é importante não exagerar: não estamos diante de um substituto universal do plástico já pronto para chegar a todo o mercado. Nesta fase, o material ainda apresenta limitações, por exemplo, em ambientes aquosos, onde precisa de proteção adicional para manter o desempenho durante longos períodos. Portanto, a resposta mais rigorosa é: sim, este pode ser um substituto do plástico em certas aplicações no futuro, e é um avanço muito promissor, mas ainda está em fase de desenvolvimento e validação
Significa o fim dos microplásticos no mar com esta novidade biodegradável?
Embora não signifique, por si só, o fim dos microplásticos no mar, representa um avanço significativo nessa direção. Esta inovação demonstra que já estão sendo desenvolvidos materiais que, ao contrário dos plásticos convencionais e até de alguns biodegradáveis atuais, não tendem a fragmentar-se em microplásticos quando entram no ambiente marinho. Neste caso, em contacto com a água do mar, o material foi projetado para se decompor nos seus componentes básicos, em vez de se partir em partículas pequenas e persistentes. Isso é relevante porque esses componentes podem ser degradados por microrganismos, reduzindo o risco de acumulação no ambiente. Ainda assim, é importante manter certa cautela. Esta tecnologia, por mais promissora que seja, não elimina os microplásticos já existentes nos oceanos, nem substitui de imediato todos os plásticos que usamos atualmente, havendo ainda muito trabalho pela frente na tentativa de remover todo o plástico que já existe nos ecossistemas marinhos. O impacto real dependerá de sua aplicação em larga escala e da capacidade de substituir progressivamente os plásticos convencionais. Considerando essas evidências, podemos afirmar que ainda não representa o fim imediato dos microplásticos no mar, mas pode ser um passo muito relevante para evitar que continuemos a produzir mais, através do uso desses materiais que, quando libertados no mar, não tendem a originar microplásticos.
Até onde pode esta descoberta reverter a poluição de plástico no mar?
Esta descoberta pode ser um grande passo para reduzir a poluição plástica nos oceanos, embora não a reverta sozinha nem de forma imediata. O maior potencial reside na proposta de um material que, ao contrário dos plásticos tradicionais, não persiste no ambiente por décadas ou séculos, nem se fragmenta em microplásticos. Em contacto com a água do mar, este novo material foi projetado para se decompor nos seus componentes básicos, em vez de se dividir em partículas pequenas e persistentes. Isso pode mitigar um dos maiores problemas da poluição plástica marinha: a formação de microplásticos que entram nas cadeias alimentares (incluindo espécies de pescado das quais nos alimentamos) e afetam os ecossistemas. Outro aspeto importante é que esses componentes básicos podem ser aproveitados por microrganismos e serem também recuperados para reciclagem, o que abre caminho para um modelo mais circular e com menos resíduos. Ou seja, não estamos apenas a falar de um plástico que dura menos tempo no ambiente, mas de um material concebido para ter um fim de vida muito menos prejudicial. Além disso, para que esta solução tenha um impacto real, precisa ser suficientemente resistente e útil no dia a dia. E esse é outro ponto forte: os resultados mostram que o material possui propriedades mecânicas interessantes e pode, em algumas aplicações, substituir plásticos convencionais. No entanto, é importante ter cautela. Esta descoberta não remove o plástico já presente no mar e ainda está numa fase que requer desenvolvimento, testes e produção em escala industrial. Portanto, o mais correto é afirmar que pode ser uma peça importante para conter e reduzir a poluição plástica futura, mas não é, por si só, a solução definitiva para reverter o problema já existente.
