No coração histórico de Évora, diante do icónico templo romano, ergue-se o majestoso Palácio dos Duques de Cadaval, uma das mais singulares joias do património português. Nascido sobre as fundações de um castelo mouro, este edifício do século XIV não é apenas testemunho de séculos de história da nobreza lusa, é também um espaço vivo de cultura. Este ano, até 26 de outubro de 2025, o palácio volta a afirmar-se como ponto de encontro do mundo através da nova exposição “Insiders/Outsiders?: Artistas Aborígenes Australianos e Artistas Marroquinos de Essaouira”, uma mostra que desafia fronteiras e categorias com ousadia estética e relevância histórica.
Organizada em colaboração com a Fondation Jardin Majorelle (Marraquexe) e o Museu Sa Bassa Blanca (Maiorca), esta exposição reúne cerca de 60 obras de duas tradições artísticas à primeira vista distantes. De um lado, os artistas aborígenes australianos, herdeiros de uma cultura com mais de 60 mil anos de expressão visual ligada ao território e ao espiritual. Do outro, os artistas de Essaouira, uma cidade costeira marroquina, reunidos pela visão do art dealer dinamarquês Frédéric Damgaard, que nos anos 1980 reconheceu o valor de criadores autodidatas – pescadores, carpinteiros, comerciantes – que pintavam como forma de expressão íntima.
O curador espanhol Enrique Juncosa, conhecido por uma carreira notável à frente de instituições como o Museu Irlandês de Arte Moderna (IMMA), é o responsável por traçar as ligações visuais e conceptuais entre estas obras. E fá-lo de forma delicada e inteligente. Ao invés de impor uma narrativa comum, revela que ambos os grupos foram impulsionados por outsiders (como Damgaard ou Geoffrey Bardon, na Austrália), e partilham uma abordagem intensa à cor, ao gesto, à construção densa do espaço pictórico, mais orientada para emoções interiores do que para a representação literal do mundo.
A mostra apresenta nomes sonantes da arte aborígene, como Clifford Possum Tjapaltjarri, Barbara Weir, Sally Gabori ou Gloria Petyarre, lado a lado com figuras essenciais da Escola de Essaouira, como Boujemaa Lakhdar, Mohamed Tabal e Rachid Amarhouch. Cada obra pulsa com identidade e, simultaneamente, dialoga com outras realidades — talvez porque, como sugere o título da exposição, os limites entre "dentro" e "fora" são sempre mais porosos do que pensamos.
A ideia de realizar esta exposição em Évora nasceu de uma longa relação entre a Duquesa Viúva de Cadaval e os colecionadores Ben Jakober e Yannick Vu, fundadores da Fundação Sa Bassa Blanca. Amigos de décadas, com um fascínio comum pela arte e pelas culturas do mundo, viram no palácio um palco ideal para uma mostra que é tanto uma celebração da arte marginal como um testemunho do seu poder transformador.
Com bilhetes acessíveis (€8 por adulto) e um horário alargado (de terça-feira a domingo, das 9h às 13h e das 14h às 18h), esta exposição é um convite a todos os que desejem redescobrir o mundo através dos olhos de quem vê, sente e pinta a partir das margens. Em Évora, neste verão, o centro do mundo artístico passa, sem dúvida, pelo Palácio dos Duques de Cadaval.
