Nasceu em 1950 de um coração partido e continua a ser usado por nomes que todos tão bem conhecemos
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Rafaela Simões
- 2 ago, 11:01
De um desgosto amoroso para se tornar num símbolo icónico da Cartier, conhece a pulseira desenhada pelo italiano Aldo Cipullo.
Uma pulseira Cartier com décadas de história
Pulseiras que elevam qualquer look
Há joias que conquistam um lugar na memória coletiva pelas histórias que contam ao passar de geração em geração nos pescoços, dedos e pulsos de celebridades e anónimos. A pulseira Love, da Cartier, pertence precisamente a esse grupo restrito: mais do que um acessório de luxo, tornou-se um símbolo de compromisso, de design intemporal e, curiosamente, de um desgosto amoroso.
Apesar de muitas vezes se associar a sua história aos anos 50, a verdade é que a pulseira Love nasceu em 1969, em Nova Iorque, pelas mãos do designer italiano Aldo Cipullo. A confusão deve-se, em parte, ao percurso do criador, que chegou aos Estados Unidos no final da década de 1950 para perseguir o sonho americano e acabou por revolucionar a joalharia moderna.
Filho de uma família de joalheiros de Nápoles, Cipullo cresceu em Roma e desde cedo mostrou uma personalidade criativa e inconformista. Fascinado pela cultura norte-americana, mudou-se para Nova Iorque em 1959, onde trabalhou para nomes de referência como David Webb e Tiffany & Co. Foi precisamente quando estava prestes a deixar a Tiffany, no final da década de 1960, que um acontecimento pessoal mudou o rumo da sua carreira.
O fim de uma relação amorosa levou-o a procurar uma forma de transformar a dor em algo permanente. "Queria algo que ninguém me pudesse tirar. Procurava um símbolo permanente do amor", explicou mais tarde. A inspiração surgiu num lugar inesperado: as lojas de ferragens norte-americanas que costumava visitar com o irmão. Dos parafusos e das ferramentas nasceu uma ideia simples, mas revolucionária.
Assim surgiu a pulseira Love, uma peça em ouro minimalista, decorada com pequenos parafusos e concebida para ser apertada no pulso com uma chave de parafusos própria. A ideia era simbólica: depois de colocada, a pulseira não seria facilmente retirada, representando um vínculo duradouro entre duas pessoas.
Inicialmente, Cipullo apresentou o desenho à Tiffany, mas a proposta foi rejeitada. Sem desistir, levou-a até à Cartier de Nova Iorque, então gerida de forma independente da casa-mãe francesa. O diretor Michael Thomas reconheceu imediatamente o potencial da criação e decidiu apostar nela.
O sucesso foi praticamente imediato. Num período marcado pela liberdade individual, pela emancipação feminina e por uma visão mais descontraída do luxo, a pulseira rompia com a ideia tradicional de que as joias existiam apenas para exibir riqueza ou estatuto social. Era uma peça pensada para ser usada todos os dias, tornando-se parte da identidade de quem a usava.
Para promover o lançamento, a Cartier ofereceu pares da pulseira a alguns dos casais mais famosos da época. Entre eles estavam Elizabeth Taylor e Richard Burton, os Duques de Windsor, Sophia Loren e a princesa Carolina do Mónaco. Pouco depois, a atriz Ali MacGraw também começou a usá-la, contribuindo para consolidar o estatuto icónico da peça.
Mais de meio século depois, a pulseira Love continua a ser um dos maiores sucessos da Cartier. É frequentemente vista no pulso de figuras públicas como Meghan Markle e Rosie Huntington-Whiteley, mantém-se entre as joias mais pesquisadas na internet e continua a conservar um elevado valor no mercado de revenda, um feito raro no universo da joalharia contemporânea.
A história de Aldo Cipullo, no entanto, não termina aqui. O designer criou também outra das peças mais reconhecidas da Cartier, a pulseira Juste un Clou, inspirada num simples prego, reforçando a sua capacidade de transformar objetos banais em símbolos de luxo. Foi, aliás, o único designer autorizado a assinar as suas criações ao lado do logótipo da Cartier, um reconhecimento reservado a muito poucos.
Aldo Cipullo morreu em 1984, aos 48 anos, mas o seu legado permanece vivo e prova que uma grande joia pode nascer de uma desilusão amorosa, de uma ideia inesperada e da capacidade de transformar emoções em design intemporal. É essa combinação que explica porque, mais de 50 anos depois, continua a ser uma das pulseiras mais desejadas e reconhecidas do mundo.
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