Sobre a Rafaela Simões? Temos muito para dizer... É, sem dúvida, multifacetada e se num dia está a numa aula de pilates, no seguinte, exatamente à mesma hora, não perde uma festa secreta com amigos. Já viajou para os quatro cantos do mundo — incluindo o Nepal — e tem sempre o roteiro ou ideias para a próxima aventura.
E, além de tudo isto, ainda se destaca como a pessoa a que todos pedem (ou deviam pedir) recomendações de vinho. É, muito provavelmente, a apreciadora de vinho mais cool e a expert da VERSA.
Para a Rafaela, se o assunto envolve vinho, até as conversas mais aborrecidas se tornam interessantes, especialmente se acontecerem ao som de Tiago Bettencourt (já vais perceber a referência).
Quisemos saber mais sobre este outro lado da Rafaela... e fizemos as perguntas que não querem calar, incluindo o seu guilty pleasure vínico.
Como surgiu o teu interesse por vinhos?
Sempre achei fascinante quando nos almoços de família se discutiam os vinhos ofertados ou quando se abria aquele vinho caseiro oferecido por "alguém lá da terra". Era ainda muito nova para sequer apreciar um bom vinho, mas o interesse já começava. Contudo, lembro-me bem do dia em que eu senti que queria saber mais sobre vinho e sobre quem os produz. Foi num evento nos meus primeiros dias na VERSA, quando fui conhecer o Altitude by Duorum, do produtor João Portugal Ramos. Neste evento, estavam presentes alguns dos nomes mais influentes no mundo do vinho, que tive oportunidade de escutar e, com quem, pela primeira vez, aprendi a apreciar vinho tinto. Já gostava muito de vinho, mas faltava-me conseguir apreciar o vinho tinto que, diziam, era algo que viria com a idade. E esse dia lá chegou e foi só o início do que era viria a descobrir ser um gosto maior.
Qual foi o primeiro vinho que te fez pensar "ok, isto é mesmo a minha cena"?
Há vinhos que bebemos socialmente e sem grande critério e há vinhos que nos propomos beber para avaliar e degustar de forma mais serena. As provas de vinhos servem para isso e foi numa das que fiz que senti "ok, isto é mesmo a minha cena".
Numa tarde de calor no Alentejo, entrei com algum desespero dentro da fresca adega da Herdade do Freixo e preparei-me (agora sei que não o suficiente) para o que viria a experienciar. Tudo começou com uma visita guiada pela estrutura inovadora com 3 pisos abaixo da vinha, que culmina, no último piso, num espaço vazio, apenas ocupado por um piano branco. Não podia ser mais romântico. Embebida neste ambiente, passei então à prova dos vinhos da herdade e não posso dizer que apenas um me conquistou, não só pela história, como pelo paladar. Branco, tinto e rosé, todos eles me espantaram, todos eles me marcaram até hoje. Foi então que senti que o vinho, ou que apreciar vinho, era mesmo uma "cena" de que gostava.
Se fosses um vinho, qual eras e porquê?
Pergunta curiosa. Ainda há dias falava com um amigo sobre vinhos que nunca falham, aqueles que levamos para casa de um amigo e sabemos que não vão desiludir. Faz parte de mim querer sempre agradar, por isso se fosse um vinho seria o Micasta DOC Bucelas. É um vinho branco que nunca fica aquém das expectativas, um vinho que provém de um projeto jovem (como eu ainda sou, por enquanto), um vinho com um rótulo divertido e contador de histórias, algo que faz parte da minha profissão.
És mais dos vinhos clássicos ou gostas de explorar?
Explorar, sem dúvida. Gosto de saber o que se faz de novo, de conhecer as brincadeiras que se fazem no mundo do vinho. Isso pode ser um vinho da mítica personagem Bruno Aleixo ou um vinho laranja que já faz parte das tendências. No universo dos vinhos há espaço para todos eles, só na minha garrafeira é que o espaço começa a ser crítico.
Preferes beber um vinho incrível sozinha ou um vinho médio com ótima companhia?
Um vinho médio com ótima companhia sem pensar duas vezes. O vinho sabe sempre melhor com companhia, e isto não é uma forma de dizer, sabe mesmo melhor. Já abri um vinho mediano em casa e não passei do primeiro copo. E já bebi um vinho frisante de 2 euros (quem o conhece saberá de qual falo) e não sobrou nada na garrafa. Partilhar um vinho é partilhar um momento.
Preferes descobrir vinhos novos ou voltar sempre aos teus favoritos?
Raramente repito o mesmo vinho, estou sempre a descobrir vinhos novos. É como os livros. Com tantos outros livros que tenho ainda por ler, sou incapaz de reler um livro, prefiro ficar com a memória que tenho dele e vivê-lo no momento. Com os vinhos é igual. Desfruto no momento e guardo outros momentos para referências que desconheço.
Uma harmonização de vinhos é algo essencial para qualquer jantar?
Teoricamente sim, é o que qualquer enólogo ou Chef de cozinha diria. Na prática, eu, que sou de longe especialista no assunto e apenas tenho um grande interesse, não ligo tanto à harmonização.
Até porque há muito tempo que se deitou por terra a ideia de branco para peixe e tinto para carne. Eu nem como carne, mas, claro, bebo tinto. Nada sabe melhor do que um tinto com uma tábua de queijos e pão. Perdem-me nesta combinação.
O que te conquista primeiro: o rótulo, a história ou o sabor?
A história. Sabem aqueles sommeliers que chegam ao pé de nós e nos contam a história do vinho, falam sobre a família do produtor, explicam os métodos de produção, referem os anos de envelhecimento e dão demais pormenores? Muitos acham-nos chatos, eu fico só deliciada a ouvir. Podem dizer as maiores mentiras, que já me conquistaram. O sabor e rótulo são um extra.
Tens algum guilty pleasure no mundo dos vinhos?
Aquele vinho frisante de 2 euros sobre o qual falava anteriormente? É o meu maior guilty pleasure. Quando nada percebia de vinhos, era tradição beber esse vinho com a minha mãe no magusto. Não quebramos a tradição. O vinho faz o momento.
Vinho tinto, branco ou rosé?
Branco em primeiro lugar.
O que o teu gosto por vinho diz sobre ti?
Que sou versátil. Tanto bebo branco, como tinto ou rosé, como secos ou frutados e tranquilos ou fortificados. Em tempos convenci-me de que a minha preferência eram vinhos secos, até me apresentarem um vinho frutado. Também renegava o vinho do Porto, até descobrir como devem ser servidos para melhor os apreciarmos. No fundo, não sou esquisita, estou aberta a aventuras.
Se pudesses beber um vinho com qualquer pessoa (viva ou não), quem escolhias?
Tiago Bettencourt e explico porquê. Durante a pandemia da COVID-19, o meu consumo de vinho aumentou por culpa de uns diretos de Bruno Nogueira no Instagram denominados "Como é que o Bicho Mexe". Nesses diretos, que convidavam a partilhar virtualmente um copo de vinho com o humorista, vários famosos tinham participação regular e um deles era Tiago Bettencourt, por quem eu nutria uma admiração há vários anos. O que eu não sabia era da paixão de Tiago Bettencourt por vinho. Enquanto tocava piano e cantava, o copo de Tiago pousava em cima do piano, criando um cenário acolhedor que me fazia querer estar ali com ele, a partilhar o meu copo de vinho. Nas pausas entre canções Tiago falava do vinho que estava a beber e era sempre, ou quase sempre, Quinta do Crasto.
Desde então, fiquei com um enorme desejo de conhecer esta mesma quinta. Por isso, se bebesse um vinho com alguém, era com Tiago Bettencourt na Quinta do Crasto, a escutar as suas canções ou numa conversa profunda que sei que o artista alimentaria no seu tom tranquilizador em cada gole de vinho.
