Chef Hari Chapagain, restaurante Oven
Chef Hari Chapagain, restaurante Oven | Fotografia: D.R.
Gourmet

"Espero que saiam com a sensação de que o Nepal é muito mais do que os Himalaias": 5 anos do Oven em Portugal

Não precisas de ir ao Nepal, nem de subir aos Himalaias para provar os sabores deste país tão rico. Basta ires ao Oven, que está de parabéns pelos anos de vida e pelos prémios conquistados.

O Oven é uma descoberta requintada da Índia e do Nepal

No restaurante A Paragem, em Mértola, conheces a verdadeira cozinha alentejana

Em 2025 fizemos uma viagem ao Nepal. Fomos em busca na natureza, da cultura, mas acima de tudo de caminhar pela deslumbrante paisagem dos Himalaias e subir 4130 metros até ao Campo Base do Annapurna I.

Não desmorecendo os Himalaias, saímos com uma lição que levamos para a vida: não é a chegada ao cimo que mais importa, mas o percurso até lá chegar. É o chá de gengibre que nos recebe à chegada, é o chhurpi (um queijo tradicional feito com leite de iaque especialmente nas regiões montanhosas dos Himalaias), são os Dal Bhat diários (prato que junta Dal, uma sopa ou guisado de lentilhas, com bhat, arroz cozido) e caril sempre acompanhado de naan.

Sim, a comida é uma parte importante da experiência no Nepal e há sabores que nos ficaram na memória até hoje. Mas o Nepal foi a viagem de uma vida e tão rapidamente sabemos que não voltamos. Mas podemos matar saudades de forma autêntica, sem sair de Portugal.

Basta ir ao Oven, restaurante de portas abertas desde 2021, desde então sob batuta do Chef Hari Chapagain. Com ele está uma equipa 100% nepalesa, que contribui para a autenticidade da experiência.

Não é, assim, por acaso que o Oven tenha sido reconhecido variadas vezes até ao dia de hoje. Entrou em março deste ano pela segunda vez no Guia Michelin de Portugal; em abril seguiu para o Guia Repsol 2026; e recentemente o Chef Hari Chapagain recebeu o prémio Jovem Empresário atribuído pela Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal.

É um restaurante feito de sucessos, mas, acima de tudo, de uma essência muito própria. E há que esclarecer quem ainda não conhece a gastronomia nepalesa: nada tem que ver com a indiana.

Quando abriu o Oven, em 2021, o objetivo era partilhar os sabores com que cresceu. Cinco anos depois, sente que os portugueses estão mais curiosos e recetivos à gastronomia nepalesa? O que mudou desde o primeiro dia?

Sem dúvida. No início, muitos clientes confundiam a gastronomia nepalesa com a indiana. Hoje, há pessoas que vêm especificamente à procura de pratos nepaleses e que querem conhecer melhor os ingredientes e as tradições que estão por detrás deles. Essa curiosidade cresceu naturalmente e tem sido maravilhoso assistir a esse processo.

É fácil manter uma equipa 100% nepalesa? É isso que dá identidade à casa?

Tenho um enorme orgulho na minha equipa nepalesa. Somos mais do que colegas, somos como uma família, unidos pela mesma cultura e pelos mesmos valores. Eles compreendem os sabores, as tradições e a hospitalidade com que cresci. Os clientes não vivem apenas uma experiência gastronómica: através das pessoas que os recebem e servem, sentem também o calor do Nepal.

Sente que o Oven tem ajudado a dar visibilidade à cultura e às tradições de um povo humilde, hospitaleiro e com tanto para oferecer?

Espero que sim. Não nos limitamos a servir comida; partilhamos histórias. Seja ao explicar uma especiaria, uma receita de família ou a forma tradicional de apreciar um determinado prato, cada conversa ajuda as pessoas a descobrir um pouco mais sobre o Nepal e a sua cultura.

Costuma dizer que a melhor homenagem que pode fazer ao Nepal é continuar a introduzir pratos tradicionais na carta do Oven. Há alguma receita que gostasse que todos os portugueses provassem pelo menos uma vez?

Escolheria o nosso Goat Curry à moda nepalesa. No Nepal, é um prato que junta pessoas de várias gerações, sobretudo durante festivais e celebrações familiares. Os aromas das especiarias cozinhadas lentamente transportam-me imediatamente para a minha infância. Servi-lo no Oven é a minha forma de partilhar não apenas uma receita autêntica, mas também as memórias, as tradições e o sentido de união que definem a hospitalidade nepalesa.

Há pratos no Nepal que se comem com as mãos. Essa tradição mantém-se em algum dos pratos do Oven?

Sim, mantém-se. Muitos clientes nepaleses apreciam naturalmente pratos como o nosso Goat Curry ou o Sekuwa com naan, comendo-os à mão, tal como fariam em casa. Nunca esperamos que os nossos clientes façam o mesmo, mas é sempre bom quando demonstram curiosidade e vontade de abraçar essa tradição.

Que prato da carta conta não só uma história sobre o Nepal, mas sobre si?

Os nossos Momo. Foi um dos primeiros pratos que aprendi a confecionar e fazem-me lembrar os encontros de família e a comida de rua no Nepal. É também o prato que apresentou a gastronomia nepalesa a muitos dos nossos clientes, por isso tornou-se parte da história do Oven, assim como da minha.

O Oven combina técnicas tradicionais, como a confeção no tandoor, com uma abordagem contemporânea. Como consegue equilibrar o respeito pelas receitas de origem com a sua criatividade?

Para mim, a tradição é sempre o ponto de partida, porque é aí que vive a alma de cada prato. As receitas que confeciono carregam as memórias, as técnicas e os sabores com que cresci no Nepal, e sinto a responsabilidade de os honrar. O meu papel não é reinventar a gastronomia nepalesa, mas apresentá-la de uma forma que seja contemporânea e acessível, sem deixar de respeitar as suas origens. Quero que cada prato servido no Oven respeite as suas raízes e conte a história do lugar de onde vem.

Que mensagem gostaria que cada cliente levasse consigo depois de uma refeição no Oven?

Espero que saiam com a sensação de que o Nepal é muito mais do que os Himalaias. É um país com uma gastronomia extraordinária, tradições ricas e pessoas que adoram receber os outros à volta da mesa. Se os nossos clientes partirem com essa sensação de calor e hospitalidade, então partilhámos algo verdadeiramente significativo.

Ao olhar para estes cinco anos, qual é a maior conquista: os prémios, o sucesso do Oven ou sentir que conseguiu trazer um pouco do Nepal para mais perto de Portugal?

Os prémios e o reconhecimento são uma grande honra e motivam-me a continuar a melhorar todos os dias. Mas a minha maior conquista é ouvir clientes dizerem que vieram ao Oven por curiosidade e que regressaram porque se apaixonaram pela gastronomia e pela cultura nepalesas. Saber que apresentámos os sabores, as tradições e a hospitalidade do Nepal a tantas pessoas significa muito mais para mim do que qualquer prémio. Se o Oven ajudou a criar uma ligação genuína entre o Nepal e Portugal, então sinto que alcançámos algo verdadeiramente significativo.

O que dizer sobre o futuro do Oven?

Vamos continuar a explorar a riqueza da gastronomia regional do Nepal e a introduzir pratos que ainda são desconhecidos fora do país. O meu objetivo sempre foi manter-me fiel às nossas raízes, dando simultaneamente às pessoas mais razões para descobrir a diversidade da gastronomia nepalesa.

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