Em Portugal, cada região guarda no prato uma parte da sua identidade. No Minho, o caldo verde aquece as noites frias; na Bairrada, o leitão estala na pele dourada; no Alentejo, as migas e a açorda celebram o pão e o azeite; no Algarve, o peixe fresco dita as regras à mesa. E no Ribatejo, terra de lezírias vastas e campinos, há um sabor que conta histórias ao primeiro trincar: o torricado.
À primeira vista, pode parecer apenas pão torrado. Mas o torricado é muito mais do que isso.
Reza a história que o campino, figura maior do Ribatejo, partia para a lezíria para guardar os touros e levava consigo um pão caseiro, cozido ao fim de semana, que tinha de resistir aos dias seguintes. À medida que a semana avançava, o pão endurecia. Para não o desperdiçar, o campino encontrava solução: acendia uma fogueira no meio do campo, cortava o pão em fatias generosas e levava-o ao lume.
Mas o ritual não ficava por aqui. Esfregava alho cru na superfície quente e estaladiça, regava com fios de azeite e terminava com umas pedras de sal grosso. O pão ficava então crocante por fora, macio por dentro, intenso e aromático. Assim nascia o torricado.
Para quem quiser provar esta herança ribatejana no seu esplendor, há uma paragem obrigatória em Santarém: a Casa dos Torricados. O conceito é claro e assumido, oferecer várias formas de torricado, respeitando a receita tradicional, mas dando-lhe versatilidade.
Apesar de a essência manter-se intocável, isto é, pão, fogo, azeite e tradição, com o tempo, o torricado ganhou novas companhias. Neste restaurante pode chegar à mesa com bacalhau lascado; com polvo grelhado; com camarão; com alheira ou outras carnes que homenageiam a tradição ribatejana.
Na Casa dos Torricados, cada fatia conta a história do campino, da fogueira na lezíria, do engenho popular que transformou necessidade em iguaria.
Na galeria de imagens mostramos alguns dos pratos servidos no restaurante em Santarém.
