Há percursos que não seguem o guião habitual — e o de Rui Gonçalo é um deles. Engenheiro informático durante o dia e criador de conteúdo nas horas vagas, o jovem criou uma presença nas redes sociais que já lhe rendeu mais de 60 mil seguidores no Instagram e mais de 130 mil no TikTok.
Entre outfits pensados para o escritório, vídeos do quotidiano e uma estética cada vez mais definida, o digital influencer foi encontrando o seu espaço. Falámos com o Rui sobre o seu percurso que começou com um podcast entre amigos e de como tem vindo a equilibrar dois mundos que, afinal, não estão assim tão distantes.
Para quem ainda não te conhece, como te apresentarias em poucas palavras?
Trabalho com redes sociais, onde crio conteúdo de lifestyle e mais orientado para a moda. Também sou engenheiro informático e faço parte do departamento de IT [Information Technology] de uma agência de marketing holandesa. Todo o meu conteúdo nasce daquilo que vivo no dia a dia. É um híbrido entre o meu estilo de vida, as roupas que uso e as minhas experiências.
Tens um percurso pouco comum na moda, sendo engenheiro informático e criador de conteúdo. Como começou esta aventura?
Começou com um podcast. Eu e o meu amigo João criámos o je ne sais pais em 2023 e, no início, estávamos a fazer apenas episódios em áudio para o Spotify. Com o tempo decidimos passar para vídeo e começar a convidar algumas pessoas para participarem.
Para conseguirmos trazer convidados mais relevantes, percebemos que também precisávamos de crescer nas redes sociais e foi aí que comecei a criar conteúdo — primeiro no TikTok e depois no Instagram —, muito ligado ao meu dia-a-dia e ao que faço no trabalho.
Acho que as pessoas começaram a interessar-se precisamente por isso: pelo tipo de conteúdo e pela estética que eu estava a construir. A partir daí, a ligação à parte da moda acabou por surgir de forma natural.
Em algum momento sentiste que tinhas de escolher entre tecnologia e criatividade?
Não, nunca senti que tivesse de escolher entre os dois. Pelo contrário, a minha intenção é mesmo conciliar as duas áreas. O meu trabalho em engenharia é algo que valorizo muito e de que gosto. Este híbrido traz-me uma adrenalina de que gosto.
De que forma a tua formação em engenharia influencia o teu trabalho criativo?
Bastante, a engenharia deu-me uma forma mais estruturada de pensar, mas ao mesmo tempo a tecnologia acaba por potenciar muito a minha criatividade. Muito do meu conteúdo também vem do meu próprio trabalho, hoje em dia mostro bastante os outfits que uso no trabalho e um pouco desse dia a dia. Acho que as pessoas acabam por se identificar porque, no fundo, é uma rotina bastante comum.
Sentes que os criadores com percursos fora do circuito tradicional trazem uma perspetiva diferente à moda?
Acho que sim. Quem vem de fora do circuito tradicional acaba por trazer referências diferentes e uma forma mais natural de olhar para a moda. Muitas vezes está mais ligada ao dia a dia real das pessoas, e acho que é isso que faz com que tanta gente se identifique.
Quais foram os momentos mais marcantes da Copenhagen Fashion Week?
Toda a experiência foi marcante porque foi a minha primeira vez num circuito de moda fora de Portugal. Toda a dinâmica da fashion week, os desfiles, as pessoas que conheci e os eventos em que estive, acabou por tornar a experiência especial.
Destacas algum desfile, marca ou criador?
O.Files. Foi um pouco ao estilo do que já foi feito pela Portuguese Soul em edições passadas do Moda Lisboa, com os manequins estáticos, mas cada um com um subtema diferente dentro do tema principal, que era office wearing. Cada um tinha um background diferente e os fits, as proporções das peças, estavam muito bem conseguidos. Gostei muito.
A indústria da moda fala cada vez mais de inovação e tecnologia. Como vês esta aproximação?
Vejo isso de forma muito natural. A tecnologia está cada vez mais presente em tudo o que fazemos e na moda acaba por não ser diferente. Acho que abre muitas possibilidades novas, tanto na forma como a roupa é pensada como na forma como é comunicada.
De que forma a tecnologia pode influenciar a criação de conteúdo de moda nos próximos anos?
Acho que a tecnologia vai ter um papel cada vez maior na criação de conteúdo para marcas, sobretudo ao nível das ferramentas que ajudam a produzir, editar e distribuir o conteúdo. Ainda assim, também sinto que quando o uso de tecnologia, como IA, é demasiado evidente, pode tornar-se um pouco um turn off para quem está a ver. No fundo, as pessoas continuam a procurar autenticidade. A parte humana, as imperfeições fazem parte daquilo que torna o conteúdo interessante e real. Por isso, acho que a tecnologia deve ser usada como uma ferramenta para potenciar a criatividade, mas sem substituir aquilo que torna o conteúdo genuíno.
Consideras que o digital democratizou o acesso à moda?
Sem dúvida. Tanto do ponto de vista da informação como das oportunidades para quem quer criar conteúdo e entrar na indústria. Claro que também pode ter o efeito de banalizar um pouco porque hoje tudo acontece muito mais rápido, mas, fazendo um balanço, acho que o impacto é muito mais positivo do que negativo.
Que conselho darias a jovens que querem explorar áreas criativas mas vêm de formações técnicas?
Diria para não verem isso como uma limitação, mas como uma vantagem. Ter uma formação técnica dá ferramentas e uma forma de pensar que podem trazer uma perspetiva diferente às áreas criativas. No fundo, o mais importante é experimentar, perceber o que faz sentido para cada um e não ter medo de misturar mundos diferentes.
